Como já alardeei, sou católico, apostólico, romano,
praticante. E, em matéria de religião, sou inteiramente tradicionalista. Mesmo
reconhecendo metáforas, em certas páginas bíblicas, tenho-as como
inquestionavelmente verdadeiras. Creio, por exemplo, que Deus criou o céu, a
terra e tudo que nela há, inclusive Adão e Eva, expulsando-os do Paraíso, por
terem comido do fruto da árvore proibida. Mas e a cobra falando, a induzir Eva?
Aí é que entra a metáfora. Sabemos que o Diabo tem o poder de se apresentar de
várias formas. Para Eva surgiu sob forma de cobra. Na verdade, ou foi pouco
inteligente ou Eva muito burra, vez que seria mais lógico que ele, o Demônio,
se apresentasse sob forma de camaleão (“stelio”,
em latim que deu origem ao nome do crime, “estelionato”),
dada sua capacidade de se camuflar. Como ensinava Padre Antonio Vieira, ao se
referir ao camaleão: “se está na terra,
faz-se terra, se está na pedra, faz-se pedra”. Por outro lado, sabemos que
certas espécies de cobras tem o poder de hipnotizar suas presas, antes de
atacá-las e, provavelmente, assim se fez com Eva. Com a expulsão do casal do
Paraíso, inaugurava-se o “livre arbítrio”,
mal, ou melhor, pessimamente, utilizado pelo ser humano, ao longo dos séculos.
Mas sigo acreditando em tudo, inclusive no céu, no inferno e no purgatório.
Lembro-me de que fiquei abalado, quando meu querido e sapientíssimo confessor,
Cônego Sergio, em uma homilia, afirmou que o céu não existe, como lugar físico. Propus-me a debater
tal assertiva com ele, inclusive apontando passagens da Bíblia, em abono a meu
entendimento. Medindo minhas parcas forças teológicas, achei melhor me calar,
porque eu, pigmeu de cultura religiosa, não podia ter a pretensão de
confrontar-me com um gigante de conhecimento. Mas contínuo com a convicção de
que o céu é “lá no alto” e o inferno abaixo da última camada da terra. Li, certa
feita – e fiquei eufórico com isto – que encontraram, no fundo do Mar Vermelho,
rodas de carroças contemporâneas à travessia
dos hebreus, fugindo do exército egípcio e, do alto do Monte Ararat,
pedaços de madeira que poderiam ser resquícios da arca de Noé. Na praça
defronte à Igreja-Matriz de minha cidade natal, há uma estátua de Deus, fartos
cabelos e barba brancos. E, quando converso com Ele – e o faço, pelo menos,
duas vezes ao dia – é aos pés daquela imagem física que me posto, para pedir ou
agradecer. Tenho pavor do fogo eterno, por isso procuro praticar algumas boas
ações para ver se consigo, pelo menos, ter direito ao Purgatório. Aliás, a este
respeito, tenho sonho recorrente que merece ser contado: morri e chego a um
enorme galpão, onde há 03 filas: a do céu, a do purgatório e a do inferno. Para
meu desespero, estou nesta última. Quando chego na catraca, um dileto amigo,
desembargador aposentado, (meu querido Chico Bevilacqua), que está do lado de
dentro, mostrando o caminho a seguir, tira-me da tenebrosa fila do inferno e
passa-me para a do Purgatório (amigo é para estas coisas). Por precaução,
guardo o telefone dele, no criado-mudo, ao lado. Antes de dar o último suspiro,
vou ligar pra ele, “Chico, não esquece de
mim”. Percorro a Bíblia e constato que não tenho mínima chance de estar na
“fila do céu”. Já não bastam os 10 incumpríveis mandamentos, vejam os
Evangelhos desta semana: em Mateus,(5,38-42, Jesus nos determina que ofereçamos
a face esquerda, quando nos baterem na direita. Ainda em Mateus(5,43-48) Jesus
ordena que amemos e oremos por nossos inimigos, porque “se amais somente
aqueles que vos amam, que recompensa tereis?” E, como sabemos, Jesus ensina,
ordenando. Quem sou eu, fraco, pusilânime,
para cumprir tais ensinamentos! Como não odiar aquele árbitro, f.d.p.
que marcou 02 pênaltis contra o Botafogo, no jogo contra o Coritiba? Como amar
o magistrado que julgou improcedente a ação, por mim interposta? Como me
dirigir ao motorista que me deu uma “fechada”,
quase me jogando sobre a caçamba, que um desgraçado pôs no meio da rua? Peço
tanto perdão a Deus e a Jesus que, a qualquer hora, eles dirão “esquece, sua quota de perdão está esgotada”.
Apascento-me, porque, no Evangelho desta sexta-feira (Mateus,11,25-50), Jesus
extravasa sua incomensurável bondade. “Vinde a mim, todos vós que estais
cansados e carregados de fardos e eu vos
darei descanso”. Como confio, sei que Ele estará, a meu lado, na hora de meu
julgamento final, mas, por precaução, vou telefonar para o Chico Bevilacqua.
sexta-feira, 23 de junho de 2017
quinta-feira, 22 de junho de 2017
A vã filosofia do momento
Benito Mussolini, o ditador italiano, que acabou executado
pelo próprio povo, dizia que governar a Itália não era difícil, mas
sim...inútil. Tal assertiva pode ser aplicada ao Brasil de hoje, ante a
fragilidade das instituições, o descompromisso dos governantes com a coisa
pública e o desinteresse da população, como se todos os absurdos praticados não
dissesse respeito a ela. Ouço e leio que a sociedade está atenta às decisões
dos 3 Poderes, verdade aplicável a uma ridícula minoria, que busca as notícias
do dia, discute-as, nas mesas de bares sofisticados, postam suas críticas nas
redes sociais... e fica nisto. Os 3 poderes descumprem os ditames
constitucionais, que vão sendo remendados, aqui e ali, ao sabor de interesses
pessoais ou corporativos. O Presidente da República, envolvido em grossas ondas
de corrupção, para sobreviver – e apenas sobreviver – no cargo, barganha
favores, com um Congresso, moralmente tão comprometido quanto ele. Os mais
altos segmentos do Poder Judiciário estão contaminados pela politização de suas
decisões, pois os Ministros das Cortes Altas dividem-se entre os que não são
contra e os que são a favor do governo. Vêm, a público, dar opiniões sobre
questões jurídicas que, logo mais, serão submetidas a seus julgamentos. Até
Rodolfo, meu politizado pastor alemão, sabia, com dias de antecedência que, no
julgamento da chapa “Dilma/Temer”,
pelo Tribunal Superior Eleitoral, o placar seria de 4x3, pela absolvição, como
se ambos fossem dois anjos de candura. O debate, operação lava-jato que segue,
na base do vai ou racha, adquiriu ares de folhetim, tipo “quem matou Odete Roitman?” Enquanto
isto, em cômodo apartado, a equipe econômica luta, com unhas e dentes, escora
guarda-roupa na porta, veda janelas, para impedir que a inflação saia e galope, por aí. Dizem – sujeito indeterminado
– que, neste ano, não ultrapassará ela os 4%. Apesar de tão majestosa
informação, acabo de receber carta da operadora de meu plano de saúde,
informando-me que, a partir do próximo mês de julho, amargarei um reajuste de
39%. Por que? A justificativa vem em sânscrito, ou idioma similar. E tem mais:
a Caixa Econômica Federal, onde mantenho conta-corrente, projeta em 13,40% os
juros do cheque especial, o que ainda é pouco, perto do 22% ao mês do cartão de
crédito. Como nada entendo de economia, não sei como se faz o calculo do índice
inflacionário, ainda mais se considerarmos a banana a 10 reais a dúzia que, até
3 feiras-livres atrás, não passava de 7 reais. Enquanto isto, o Presidente
Temer vai vender carne na Russia, logo carne que está a lhe provocar vômito e
diarréia.
Difícil governar? Inútil, como filosofava Mussolini.
quarta-feira, 14 de junho de 2017
A festa de amanhã
A festa cristã de amanhã, 15, “Corpus Christi”, remete-me à infância, na cidade do interior, de
onde vim. Praticamente não dormíamos de 14 para 15 de junho. O pó-de-serra e as
tintas, colocadas ao pé da escada, eram os “insumos”,
a serem utilizados no trabalho, a ser iniciado, tão logo encerrasse o jantar.
Nossa rua estava incluída, no roteiro, por onde passaria a procissão do “Corpo e Sangue” de Cristo, formada por
duas alas de fiéis e, ao meio, apenas o sacerdote e seu acólito, o primeiro,
conduzindo o cálice e o segundo, a patena. Eram os únicos que podiam caminhar
sobre o tapete, que se iniciava na porta da Catedral e percorria as principais
ruas da região central da cidade, entre elas, a minha. Pois o pó-de-serra e
tintas eram, exatamente, para comporem o tapete. Cada casa se incumbia de fazer
o seu, que consistia, primeiro, em
compactar o pó-de-serra, no espaço, pré-marcado com giz, pintá-lo e,
finalmente, desenhar motivo, alusivo ao evento, tarefa que, a depender desse
desenho, podia atravessar a madrugada. Deles havia que eram verdadeiras obras
de arte, Jesus dando a comunhão, enormes “sagrados
corações”, ou simples pombas brancas, como, por falta de engenho e arte,
era o que pintávamos à porta de nossa casa. Terminada a procissão, cultivava-se
o estranho hábito de passear, de carro, sobre o tapete, provocando nuvens de
pó-de-serra coloridas. Em minha ignorância, era apenas festa religiosa, cuja essência e relevância só descobri, adulto e
voltado à religiosidade. “Eu sou o pão
vivo que desceu do céu. Quem come deste pão viverá eternamente. E o pão que eu
darei é a minha carne, entregue pela vida do mundo”. (João,6,51-58) Jesus,
quando celebrou a Ceia com seus discípulos, instituiu o Sacramento da
Eucaristia. Para mim, é o momento mais emocionante da missa, porque ao se
transformar em “pão vivo”, eu sinto
que tenho um encontro físico, com Jesus e eu o recebo, mesmo não “sendo digno” de fazê-lo. Se reconheço
esta indignidade, por que, assim mesmo, eu o acolho, dentro de mim? Antes de receber
a comunhão, dentre tantas coisas, peço que Ele me dê forças para superar
ressentimentos, preconceitos, injustiças, atos que sei praticar e que me tornam
indigno de tê-lo em “minha morada”, mas, a hóstia consagrada reforça a
esperança que alcançarei meu objetivo. Também é o momento especial de
agradecer, por tudo que conquistei,
principalmente o privilégio incomensurável de ainda estar por aqui, vivendo a
alegria de filhos e netos. A solenidade do “Corpo
e Sangue de Cristo” é aquela mesma festa de, eu criança, enfeitando a rua,
para que Jesus passasse. Com certeza, foi ali, a minha porta, que, ao passar,
Ele me abençoou, abrindo a estrada, que percorri.
Jesus! Como não amá-lo?
segunda-feira, 12 de junho de 2017
Por causa de 45 anos de casados
Saímos para nosso dominical passeio no parque e Rodolfo era
só sorrisos. A semana fora inclemente, com chuvas despropositadas para este
outono findante. Imaginei ser este o motivo da alegria do Rodolfo, mas não
resisti à curiosidade e perguntei:- “e aí
Rodolfo, por que tanta alegria? “ – “É
que a Nara me contou que você e Renata vão completar 45 anos de casados”. Fiquei feliz, mas, desculpe me intrometer,
mas como começou tudo?”. Achei melhor procurar um banco, para sentar, olhos
, voltados para o lago, porque o papo ia longe, tantas as lembranças: “conheci-a, Rodolfo, e, de saída, já tivemos
um incidente: fomos ao cinema, filme proibido para menor de 18 e já na porta
ela me diz que só tinha 17. Como podia eu imaginar que um mulherão daquele,
quase, 1,80m, ainda fosse “de menor”? Tinhosa, freqüentávamos um barzinho, que
não existe mais, chamado “Cambridge”. Certa feita, mais de um mês de namoro, achei que podia “avançar
o sinal”, como se dizia àquela época. Recém-formado, usava cafonérrimo anel de
advogado e coloquei a mão sobre as esplendorosas coxas dela. (Sou obcecado por
coxas, como você sabe, que me vê dando nota para as que passam, correndo). As
dela eram nota 10, mas, com a voz mais terna do mundo, ela me pediu para tirar
o anel do dedo o que fiz prontamente, imaginando que, na sequência, iria
percorrer aquela pele macia. Qual nada! Quando voltei com a mão, ela
acrescentou: “agora, deixe a mão, junto ao anel, em cima da mesa. Nosso
casamento foi simples, pouca gente e, em seguida, fomos morar no Rio, em
minúsculo apartamento, em Copacabana. Na maior dureza, ela grávida do Marcello,
ficávamos, no maior bom humor, sonhando sonhos, então impossíveis, viagens
maravilhosas, que tempos depois, Deus nos permitiu realizar. Totalmente desprendida, nunca deu a mínima
para dinheiro ou status. Com a mesma simplicidade, freqüentava as casas
noturnas de luxo, ou comia acarajé, nas
barracas da Praça da República. Ela e eu dividimos bem as tarefas: eu, correndo atrás da grana e ela cuidando
dos filhos, da casa e dos incontáveis cachorros, mais uma paixão, que nos une.
Em sua missão, ela se saiu muito melhor do que eu, na minha. Basta ver os
filhos, bem criados, vida arrumada e eu ainda perseguindo o pão de cada dia.
Apesar de gênio explosivo (já chamou motorista de caminhão para briga) é de
extrema benevolência: cuidou, com absoluta dedicação, de minha mãe, ao final da
vida desta e, hoje, renunciou à liberdade para cuidar da mãe dela, batendo os
90 e gênio de cão danado. Sabe aquela fala do Padre, na celebração do casamento:
“na alegria e na tristeza, na saúde e na doença? Pois eu e Renata a cumprimos,
em toda sua extensão. Rimos – e muito – com filhos, netos e amigos e choramos
perdas irreparáveis. Na saúde, fomos vulcões e, na doença, somos solidários,
inteiramente disponíveis, um para o outro. E, para completar, tenho consciência
que ela é sócia majoritária desta sociedade, chamada “estrutura familiar”. Se
tivemos tempestades? Inúmeras, algumas inundantes, até. Mas sobrevivemos, mesmo
com algumas cicatrizes. De minha parte, fica apenas a tristeza de não tê-la
feito mais feliz. E reconheço que ela vale tanto mais do que eu, que alimento a
esperança que Deus me convoque primeiro, porque, se for ao contrário, irei,
mesmo sem ser convocado. Enfim, meu amado Rodolfo, se houver outra vida, depois
desta, gostaria de vivê-la, outra vez, com Renata”.
Rodolfo olhou-me nos olhos e, para minha alegria, contou-me
que, quando chegou, Nara lhe deu as “boas
vindas”, dizendo-lhe “você não
poderia ter pousado em melhor lugar. Saiba aproveitar este privilégio. A dona
da casa é a essência do bem”.
sexta-feira, 9 de junho de 2017
Pior sempre pode ficar!
Tantos anos vividos, testemunhando a melancólica história do
Brasil, pelo menos desde Jânio Quadros, não permitem que eu me surpreenda com
os acontecimentos atuais. A decadência intelectual e moral da classe política é
fenômeno a ser avaliado por especialistas, mas o certo é que, depois do regime
militar, onde não havia espaço para a corrupção, parece que se iniciou
desabalada corrida aos cofres públicos, sem hora para terminar. A operação “lava jato” surgiu como freio, a diminuir
a velocidade de tal corrida, mas não vai estancá-la. Várias gerações se
sucederão, até que desapareça o “vírus”
que, desde o descobrimento, instalou-se no organismo do brasileiro. O que me
causa, não indignação, mas certa irritabilidade, é a disseminação e a
banalização do erro, medido e pesado. Dou alguns exemplos:
Fernando Collor – em quem votei – foi eleito Presidente, com
pouco mais de 40 anos. Tinha, portanto, oportunidade ímpar de promover o
desenvolvimento do País. Todavia, trocou um bom projeto de governo, por projeto
pessoal de enriquecimento. Lula, egresso de classe econômica hipossuficiente,
surgiu como “terceira via”, entre a
esquerda carcomida e a direita conservadora. Tinha condições políticas,
inclusive apoio empresarial, para aproximar o Brasil das grandes potencias.
Entretanto, optou por montar um “reich
petista” de incontáveis anos e, pra isto, aliou-se ao que havia de pior no
empresariado nacional, consolidando o mais extenso processo de enriquecimento
ilícito, que o mundo conheceu. Destruiu sua imagem, a imagem de seu partido
político e arrastou consigo homens probos que se contaminaram pelo simples fato
de estar ao lado dele. Aécio, de longeva estirpe, construiu, em pouco mais de
20 anos, admirável carreira política, jogada, agora, mal chegando aos 50 anos,
no lixo do envolvimento espúrio. Sergio Cabral, também de carreira política
fulminante, revelou-se verdadeiro sociopata. Esses homens, com seus desastres
morais, fecharam as portas da política partidária para novas lideranças, vez
que, no inconsciente coletivo, ficou registrado correlação entre “político” e “corrupção”. Infelizmente, não é só a classe política que exala maus
odores. Venho de um tempo em que Ministro do Supremo Tribunal Federal estava
acima de qualquer suspeita e realmente tinha nele carimbados o “notório saber jurídico e a “ilibada
reputação””, requisitos constitucionais para envergar a toga da Corte
Suprema. Quando se observa a composição atual daquele Colegiado, é público que,
nem de longe, tais requisitos são observados. No que concerne ao “saber jurídico”, é de privilégio de, no
máximo, 04 dos 11 Ministros, que integram o Supremo. Já no quesito, concernente
à “ilibada reputação”, fatos
supervenientes à nomeação e posse de alguns Ministros, têm deixado estarrecido
o mundo jurídico. Em um primeiro momento, incompreensível o indulto concedido
aos irmãos Batista, empresários marginais que se locupletaram até com a própria
delação premiada. Ato contínuo, a Imprensa notícia que o principal executivo –
também delator – da JBS, foi “padrinho”
da ida do Ministro Fachin, que concedeu o indulto, para o Supremo. Estranha
coincidência, não? Quem assiste ao julgamento da chapa Dilma-Temer, constata o
vigor do desempenho de Gilmar Mendes, Presidente do Tribunal Superior
Eleitoral, em buscar a anulação das provas que poderiam levar à cassação da
chapa. Escrevo, antes da proclamação do resultado, mas, qualquer que seja ele,
Gilmar Mendes foi quase nada Juiz e muito mais advogado de defesa.
Assinar:
Postagens (Atom)