Lá por volta de 1975, morando no Rio e ainda com as sobras do
resto de juventude, tinha eu o hábito matinal de, antes de ir para o trabalho,
correr na orla da praia de Copacabana, fazendo, ida e volta, o percurso Leme
(onde morava) – Posto 6. Mal o sol dourava o dia, lá ia eu respirar aquele ar e
decorando a paisagem, que ficariam gravados, para sempre, em minha memória.
Certa manhã, acho que por volta do ano 75, lá ia eu, já quase completada a
primeira fase do percurso, quando passa por mim um homem bastante conhecido,
até porque, durante anos, seu retrato era enfeite obrigatório em minha sala de
trabalho, no Ministério da Fazenda. Tratava-se do ex-presidente Emilio
Garrastazu Medici, que fazia o trajeto contrário, caminhando, sem muita pressa,
em companhia de outra pessoa. Apesar de ter trabalhado, durante seu governo e
como era peixe muito miúdo, nunca o vira de perto, senão no Maracanã, ele, na
Tribuna de Honra, radinho de pilha ao ouvido. Por certo, não perderia a
oportunidade de, pelo menos, cumprimentá-lo, o que fiz, entabolando amena
conversa que durou uns 200 metros. Homem simples e cortês, que viveu e morreu
tendo, como patrimônio, modesto apartamento na Rua Julio de Castilho e uma
fazendola de gado, no Rio Grande do Sul e que viera dos pais. Outro dia, um
ex-Ministro de Medici, que me privilegia
com seu convívio, contou-me o seguinte e eloquente episodio: durante o Governo
Medici, festas de final-de-ano, invariavelmente, eram regadas a uísque ‘’Drurys’’
e biscoito de água e sal. Certa feita, o garçom surgiu com uísque escocês.
Questionado, por Medici, sobre a origem do dito cujo, foi-lhe respondido que a
Receita Federal apreendera um contrabando daquele ‘’Scoth’’ e mandara uma caixa
para o Planalto. Medici, irritado, mandou devolver a caixa e prender o
Secretário da Receita (que hoje, interinamente, governa importante Estado da
Federação), prisão que só não se efetivou pela interferência de alguns
Ministros que, entristecidos, voltaram ao nacional ‘’Drurys’’. Relembro estes
episódios, de simplicidade e austeridade, primeiro, porque a data é emblemática
e, segundo e principalmente, porque vivemos tempos distintos, mas sem nenhuma
distinção, tempo de triplex e sítios, reformados com dinheiro desviado da
principal empresa pública. Tempo que só se bebe uísque de 60 anos e se gasta 60
mil reais, em um jantar, tudo, naturalmente com o dinheiro do contribuinte. Os
que se insurgiram contra o Governo Medici, em nome da liberdade e da
democracia, hoje, estão presos, por corrupção ou mergulharam o Brasil na pior
crise econômica de sua historia, quando desemprego e desconfiança dos
investidores, surgem como marca registrada. Resta perguntar: que Brasil
preferíamos: aquele, da austeridade, ou o de hoje, guiado ladeira abaixo, pelas
mãos da corrupção? Afinal, para que serve a democracia, senão para servir aos
reais interesses do povo?
quinta-feira, 31 de março de 2016
segunda-feira, 28 de março de 2016
Qual o caminho para sair da crise?
Os que já percorreram longa estrada, como este canhestro
escriba, que vos fala, hão de se lembrar dos difíceis dias do Governo Sarney,
com a inflação batendo nos 90% ao mês, as gôndolas dos supermercados vazias de
produtos essenciais e o ‘’mercado negro’’
funcionando a todo vapor, fosse para o tomate, fosse para a carne. Todavia, o
País sobreviveu, porque o mercado de trabalho continuou absorvendo mão-de-obra,
em todos os seus níveis. Voltamos, agora, a viver dias difíceis, agravados com
fato novo, a merecer especial atenção: acentuado crescimento da taxa de
desemprego. A insegurança política gerou a queda de investimento e a saída
provisória, que se encontrou para minimizar os efeitos da crise econômica, foi
reduzir custos fixos, que, primordialmente, traduz-se em dispensar empregados.
Como todos os segmentos foram atingidos, o desemprego vai de construção civil,
que absorve mão-de-obra de baixa qualificação, até empresas de alta tecnologia.
Quer dizer: não há para onde fugir. Índices oficiais – dos quais sempre se deve
duvidar – indicam que há, hoje, no Brasil, cerca de 10 milhões de
desempregados. Acresçam-se a esses números, os que trabalham em subempregos e
os aposentados, todos com salários, insuficientes, até, para suprirem
necessidades essenciais à simples sobrevivência. O resultado desta perversa
soma é a redução do consumo, formando um círculo vicioso, que não se desfaz. Um
País em que 20% dos jovens não conseguem emprego, por obvio, não pode ser
cognominado ‘’país do futuro’’. Com
mais freqüência e intensidade, esses jovens, alguns altamente qualificados,
saem do Brasil, em busca de oportunidades. Perdemos, assim, nosso principal
capital e o perdemos, de forma irrecuperável. Por outro lado, a crescente queda
do consumo pode nos levar a uma situação diametralmente oposta àquela vivida no
governo Sarney: a inimaginável cena de os supermercados, com suas gôndolas
abarrotadas de produtos, sem ter quem os compre. A possibilidade é real e
qualquer economista serio a confirma. Enquanto isto, como se vivêssemos em
outro planeta, o PMDB decide se rompe ou não com o Governo; os congressistas,
citados da operação lava-jato, procuram justificar a origem do dinheiro, recebido
das construtoras; o Poder judiciário debate se Lula pode ser ou não seu
Ministro e 06 milhões de pessoas saem às ruas, pedindo que Dilma seja despejada
do Palácio do Planalto. Perdemos - todos perdemos - a noção do transcendental,
qual seja, como romper o circulo vicioso e retomar o caminho do
desenvolvimento, que gera emprego, que recompõe a dignidade do ser humano, que
dela é despido, quando se lhe aponta o ‘’olho
da rua’’. Se esta retomada do desenvolvimento será com ou sem Dilma, esta é
questão menor. Se a historia serve para ensinar, convém lembrar que Churchill,
depois de comandar a Inglaterra rumo à vitoria, na 2ª Guerra Mundial, não
conseguiu ser reconduzido ao cargo de Primeiro Ministro e a Inglaterra seguiu
em frente. Que Nixon, depois de ter tido a coragem de retirar as tropas
americanas da humilhante guerra do Vietnã, depois de ter restaurado as relações
comerciais com a China, por um deslize, (que, no Brasil, seria comparado a um
furto de galinhas), foi obrigado a renunciar à Presidência e os Estados Unidos
seguiram em frente. O que acontece entre nós? Travou-se um nacional duelo entre
os que são a favor do impeachment e os que são contra ele. Entre os que
defendem a prisão de Lula e os que a repudiam. Este maniqueísmo, esta luta
entre o bem e o mal, está instalada nas redes sociais, na mídia, nas conversas
de restaurantes e botequins, como se fosse a decisão mais relevante, a ser
tomada. Não se identifica, em qualquer lado, um consistente projeto de
recuperação do Pais. Um pouco abaixo de nós, na Argentina, Macri, em menos de
06 meses, recuperou a credibilidade do País, a tal ponto que Obama,
literalmente passando sobre nós, comprometeu-se a recolocar a Argentina no
concerto das nações desenvolvidas. Resta-nos, pelo menos enquanto não aflorar o
bom senso, a indigesta companhia da Bolívia e da Venezuela.
quinta-feira, 24 de março de 2016
Mensagem a um guerreiro
Ontem, recebi em meu escritório, cliente muito querido, que
se tornou amigo, ele e sua sempre presente companheira. Forjado nas
dificuldades da vida, enfrentou a todas e se tornou um vencedor. Despojado de
vaidades externas, apresenta-se como um simples, até porque não precisa
demonstrar nada, porque seu caráter e seu respeito ao próximo liberam-no das vaidades
efêmeras. Agora, anos avançados, está acometido de um câncer, cuja extensão não
pode avaliar, senão pelas dores que, por mais doloridas, não o impedem de
continuar trabalhando, até porque, guerreiro é sempre guerreiro e, como
guerreiro, carrega sua cruz com galhardia, tendo, como ‘’Cirineu’’, sua admirável companheira, gigante, apesar de ter pouco
mais de um metro e meio. Conversamos por quase duas horas. Falamos sobre todas
as coisas e, em nenhum momento, ouvi dele – e dela – qualquer palavra de revolta
ou ressentimento. Ao contrário, diz-se agradecido a Deus, cujos sinais busca
entender, por ter lhe dado tempo de educar os filhos, de estender a mão aos
menos favorecidos, ao lado de tão fantástica mulher. Logo mais, dedicarei a
ambos a missa da ‘’Ceia do Senhor’’,
porque, como poucos, souberam viver o momento mágico da partilha do pão e do
serviço humilde, sem vaidade, simbolizado no lavapés. Que Deus proteja estes
verdadeiros discípulos de Cristo.
quarta-feira, 23 de março de 2016
Porque vivemos a semana Santa
Esta Santa semana, inaugurada no ‘’domingo de ramos’’, a marcar a entrada triunfal de Jesus, em
Jerusalém, não pode ser conspurcada por considerações e analises sobre o podre
momento político, vivido por nosso infeliz País, cujos governantes despem-se do
mínimo de dignidade, apenas para manterem seus espúrios privilégios. Jesus
entra em Jerusalém, montado em humilde jumento, iniciando seu périplo, que não
termina no calvário, mas na ressurreição, a vida, vencendo a morte. Nesta
semana, de sofrida caminhada, Cristo foi vítima da traição de Judas, da
vacilação de Pedro e viu o sofrimento no rosto de Maria, essência de todas as
mães verdadeiras. Há mais de dois mil anos que Cristo nos deu a lição de amor e
de misericórdia. Ninguém duvida mais da passagem de Cristo, pela terra, homem,
igual a todos os homens, em tudo, menos em pecado. Todavia, parece que
continuamos cegos e surdos, pois persistimos em nosso egoísmo; não vemos ou,
pior, recusamos a ver as injustiças sociais, que fazem velhos e crianças
dormirem, semi desnudos, cobertos por folhas de papelão, sob as marquises dos
prédios, rescendendo a urina. Passamos por eles, como se aqueles velhos, um
dia, jovens, não tivessem tido um sonho, o sonho de viver uma vida digna. E
aquelas crianças, já mergulhadas em droga, são meras estatísticas, usadas como
justificativa para redução da maioridade penal. O País, que não dispõe de
vagas, nas creches, cujos hospitais públicos fornecem – quando fornecem – um
atendimento tão precário que pessoas, humildes pessoas, morrem a suas portas,
entretanto, este mesmo País, desgraçado País, realizou uma Copa do Mundo e vai
realizar Olimpíadas, cuja finalidade precípua foi e é enriquecer,
indevidamente, empresários e servidores públicos, de todos os níveis. E, se a
população vai às ruas, pedindo o fim desta barbárie, justificam, eles, os
vendilhões do templo, que se prega um golpe. Na verdade, continuamos cultivando
estreitíssimo conceito de amor e, mais que este, cultivamos, mesmo, o
ressentimento. Buscamos, fora de nós, culpados para nossos erros e fracassos.
Olhamos para a imagem do Cristo crucificado, a cabeça envergada sobre o peito,
os sinais da dor afligida, despojado de vestes e sabemos que Ele quer nos dizer
alguma coisa. Na verdade, há mais de dois mil anos Ele nos repete a mesma lição:
sem o amor, ventre maior do respeito ao próximo, da caridade, material e moral,
não somos nada, e nossa única real perspectiva é retornar ao pó. Na
quinta-feira Santa Jesus reparte o pão entre seus discípulos. Com quem temos
partilhado nosso pão? A quem temos estendido nossas mãos, espontaneamente, sem
nada querer ou esperar, em troca? Eis algumas reflexões, que esta semana nos
sugere.
sexta-feira, 18 de março de 2016
Lula volta a ser ‘’igual a todos’’: cadeia nele!
Sustada a nomeação de Lula para o cargo de Ministro da Casa
Civil da Presidência da República, fica, no ar a indagação se poderá ele ter
sua prisão provisória, temporária ou preventiva, decretada pelo Juiz Sergio
Moro, que comanda a operação ‘’lava jato’’. Filigranas jurídicas à parte, que
só interessam ao ex-presidente, impõe-se resposta afirmativa. Não o estando Ministro, Lula retorna à condição de
cidadão comum, bastando, para a expedição do decreto prisional provisório, a
presença dos requisitos legais e estes gritam, de forma ensurdecedora, diante
de fatos objetivos, principalmente das gravações, exibidas na última
quarta-feira. Lula, de larga data, vem procurando interferir na produção da
prova, utilizando-se, até, do Ministro da Fazenda, para inibir a ação da
Receita Federal. Mediante indevido vazamento de informações, Lula soube,
antecipadamente, de busca e apreensão que seria realizada em sua residência e
em seu ‘’Instituto’’, destruindo documentos comprometedores. Essa interferência
indevida, objetivando frustrar a produção de provas – fato já atestado pela
Polícia Federal – exige a decretação de sua prisão provisória, seja na espécie
de temporária, seja na espécie de preventiva. A afirmação de que, ao remeter o
processo para o Supremo, o Juiz Sergio Moro perdeu sua competência para
decretar a prisão de Lula, é falácia jurídica, capaz, até, de reprovar aluno de
processo penal. O processo foi remetido ao Supremo, porque, investido no cargo
de Ministro de Estado, a competência para processá-lo transferir-se-ia para o
Supremo. Cancelada tal investidura, o processo retorna à jurisdição de origem,
isto é, ao Juiz Sergio Moro que, diante das evidencias fáticas examinados os
pressupostos legais e ouvido o Ministério Público, decretará ou não a prisão.
Simples, assim! O resto, são ‘’tertulias plácidas para embalar bovinos’’. Lula
colocou, sob suspeita, as duas mais altas Cortes de Justiça do País, inclusive
nominando Ministros que poderiam beneficiá-lo, em suas decisões. Lula, em uma
das gravações, cobra interferência do novo Ministro da Justiça, para inibir as
ações da Policia Federal. Lula, de forma expressa, incita seus partidários a
irem para o confronto físico com seus oponentes. E, para completar, seus últimos
atos, amparados por uma desmoralizada Presidente, tem trazido reflexos,
altamente danosos, à economia do País. Nunca os requisitos para decretação da
prisão preventiva, especificados no art. 312 do Código de Processo Penal,
estiveram tão presentes. Chegou o momento de o Poder Judiciário provar que não
está acovardado, como afirmou o Presidente.
A ‘’Carta’’ que acabou de publicar, por óbvio, não redigida
por ele e produto de sua assessoria de imprensa, não apaga o estrago feito. O
leite derramou e não retornará, com palavras vazias, a sua embalagem.
quinta-feira, 17 de março de 2016
Temos um Supremo ou um “puxadinho”?
Ontem, o Supremo Tribunal Federal, ao manter a decisão,
segundo a qual o Senado poder arquivar o pedido de impeachment da Presidente,
mesmo que o mesmo tenha sido aprovado pela Câmara dos Deputados, agiu como ‘’puxadinho’’ do Palácio do Planalto. Já
nem digo que o Supremo deveria ‘’ouvir a
voz das ruas’’ que, por todo o País, exigia e exige o afastamento de Dilma.
Como nos ensina o filósofo, ‘’o homem é
ele e suas circunstâncias’’ e não sabemos – apenas imaginamos saber – em que
circunstâncias alguns Ministros negociaram suas nomeações. Já que fiquei rouco
em repetir que a forma de indicação do Ministro leva a nada recomendada troca
de favores e, na gravação, vinda a público, Lula cobra de Rodrigo Janot ‘’reciprocidade’’ por ter sido nomeado
Procurador Geral da República, não insistirei no tema. Todavia, voltemos à
decisão do Supremo que, rasgando a Constituição Federal, conferiu ao Senado
poderes para barrar o impeachment de Dilma, a nefasta. O processo de impeachment,
segundo nossa Carta Magna, que, progressivamente, vai perdendo sua magnitude,
divide-se em dois momentos, muito claramente explicitados: o art.51, e seu
respectivo inciso I afirmam que ‘’compete privativamente à Câmara dos
Deputados... autorizar, por dois terços, de seus membros, a instauração de
processo contra Presidente e o Vice-Presidente da República e os Ministros de
Estado’’. Nessa primeira fase, decide-se, privativamente, se o pedido de impeachment é admissível. Não o
sendo, é ele arquivado; em o sendo, o processo é enviado ao Senado Federal a
quem ‘’compete privativamente processar e
julgar o Presidente...’’(ar.52, I) complementando-se, assim o circuito
processual. Qualquer estudante de Direito é capaz de interpretar as citadas
normas constitucionais, distinguindo as duas fases processuais. A matéria é tão
cristalina que não encontra qualquer divergência entre os constitucionalistas pátrios.
Para não pretender demonstração erudição jurídica, que não tenho, cito apenas a
lição ministrada pelo insigne jurista, José Afonso da Silva que, ao interpretar
o artigo 51, I da Constituição Federal, afirma que ‘’a autorização da Câmara dos Deputados para a instauração do processo
(de impeachment) constitui uma condição de procedibilidade – ou, se quiser, uma
condição de admissibilidade do processo...’’ E, mais adiante, assevera que:
‘’os agentes políticos relacionados no
inciso I do art.52 são processados pelo Senado após autorização da Câmara dos
Deputados” (art.51,I). Tais lições doutrinárias do ilustre Professor estão inseridas
na obra ‘’Comentário Contextual à
Constituição’’, Malheiros Editores, 2ª Edição, 2005, págs. 415 e 417.
Apesar de tanta obviedade, ontem, o Supremo, travestido de ‘’puxadinho’’ do Planalto, conferiu ao
Senado poderes para arquivar o pedido de impeachment, mesmo que tenha sido ele
aprovado pela Câmara. É claro que os Ministros do Supremo sabem ler e
interpretar a Constituição. Resta saber quais as circunstancias que os motivaram
a fazerem leitura tão oposta à obviedade jurídica. Agora, vai se discutir,
naquele Colegiado, se Lula, feito Ministro para escapar do tacape de Sergio Moro, estará protegido pelo
manto do ‘’foro privilegiado’’. Será
a ocasião de constatar se temos um ‘’Tribunal
Supremo’’ ou um mísero ‘’puxadinho’’,
cujos membros já foram vilipendiados por Lula e colocados sob suspeita pelo
senador Delcídio. Escolherão eles em serem ou um vaso de flores ou um vaso
sanitário.
O tempo continua sendo, como invocava Baudelaire, um ‘’carrasco sem piedade’’!
quarta-feira, 16 de março de 2016
Está formado o quarteto da maldição
Em meu canhestro texto de segunda feira, falei de minhas
suspeitas de que a estrondosa manifestação do domingo caísse no vazio, já que o
Planalto, preocupado, apenas, em salvar sua própria pele, não atribuiria
qualquer relevância aos anseios, exteriorizados naquela manifestação. Infelizmente,
minhas preocupações se confirmaram e, em menos de 48 horas, surge a esdrúxula nomeação
de Lula para Ministro da Casa Civil da Presidência da República. Não gastarei
tempo, fazendo a apologia do óbvio, afirmando que tal nomeação teve duplo
objetivo: tirar Lula da alçada do Juiz Sergio Moro e usá-lo, como negociador
para livrar a mendiga Presidente do impeachment. Que Lula é hábil (e tome “hábil”, no caso, como sinônimo de “inescrupuloso”) negociador, todos o
sabemos: negociou cargos que desviaram recursos da Petrobrás; negociou, através
de Mercadante, propina para livrar seu amigo e parceiro Bumlai de delações
premiadas. Por certo, sabe quanto vale e como negociar com estes deputados e
senadores que integram o mais abjeto Congresso de nossa enegrecida história. O que
não interessou ao Planalto – e, até por que interessaria? – foi avaliar as consequências
morais e econômicas, para o Brasil, de se ter Lula integrando o Ministério. Do ponto
de vista moral, um criminoso a mais, não macula, com mais intensidade, a tosca
imagem do País, no cenário internacional. Pode-se dizer que, formalmente, Ali
Babá foi colocado no comando de seus 40 (só 40?) ladrões. Por outro lado, a
simples possibilidade de Lula chegar a Ministro fez cair a bolsa e subir o dólar,
o que significa que nossa economia continuará desabando, com crescente
velocidade, trazendo mais inflação e mais desemprego, menos, é claro, para “eles”, que continuarão viajando, morando
e comendo, às custas do contribuinte. A dolorosa conclusão é que nossas
instituições foram atiradas ao chão. Que formidável quarteto: Dilma, Lula,
Eduardo Cunha e Renan Calheiros! Restou o Supremo Tribunal Federal que
decidirá, hoje, se permanece como “puxadinho”
do Palácio do Planalto, ou se honra a tradição de uma Casa que, dentre seus
moradores, já teve homens da estirpe moral e intelectual de Moreira Alves,
Evandro Lins e Silva e Sepúlveda Pertence. Que voz ecoará: a independente e
segura de Celso de Mello ou a juridicamente desafinada de “Barrosinho”.?
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