Alguns amigos, que gastam seu tempo, lendo estas mal
traçadas, jogaram-me pedras, quando, dias atrás, afirmei que a ‘’lava jato’’ corria o risco de, ao
chegar ao Supremo Tribunal Federal, poder se transformar em humilde ‘’esguicho’’. A teia, para que tal
acontecesse, começou a ser tecida, quando o suspeitíssimo Ministro Toffoli
pediu transferência para a 2ª Turma daquela Corte, exatamente a que vai julgar
os acusados, que detém o chamado ‘’privilegio
de fôro’’. Era só esperar que a poeira baixasse, com a sociedade se
cansando do noticiário sobre o assunto. Agora, com o ‘’fatiamento’’ da lava jato, determinado pelo Ministro Teori Zavaski,
também da 2ª Turma do STF, a teia vai tomando formato. Apenas para esclarecer:
tal fatiamento consiste em deixar – por enquanto, digo eu – com o juiz Sergio
Moro apenas os crimes diretamente relacionados à Petrobrás. Os demais, aqueles
que surgiram a partir das investigações na ‘’petropropina’’, mas que se
originaram em outros Órgãos Federais, como Eletrobrás, Nuclebrás etc., serão
distribuídos aos juízes de primeira instancia ou a outros Ministros do STF, nos
casos dos detentores de foro privilegiado. O ‘’fatiamento’’ determinado pelo ministro Zavaski e aprovado por
todos os demais Ministros que ingressaram na Corte pelas mãos petistas,
constitui verdadeira excrescência jurídica, porque contraria letra expressa da
lei, no caso, o art. 76 do Código de Processo Penal que especifica três
hipóteses em que a ‘’competência será
determinada pela conexão’’, e que determina que será competente para julgar
todos os processos o juiz que julgou o primeiro, no caso concreto, Sergio Moro.
Bato na porta de meu falecido professor, José Frederico Marques, o mestre dos
mestres e ele me grita, com aquela impaciência com os ignorantes: ‘’na conexão, há pretensões punitivas
paralelas que se unem processualmente em virtude de traços comuns que ligam
umas às outras: as infrações são distintas, embora presas entre si por
determinados liames que aconselham o julgamento pelo mesmo juiz.’’ E que ‘’traços comuns’’, que ‘’liames’’, são estes? É que a
descoberta de falcatruas nos demais Órgãos surgiram a partir das investigações
da Petrobrás. A prova, os indícios, levantados pela Polícia Federal, de que
também ocorreram pagamentos de propina na Nuclebrás, na Eletrobrás etc, etc,
surgiram nas investigações, realizadas pela ‘’lava
jato’’, na Petrobrás. Simples, não? Não para aqueles que, na base do ‘’jeitinho’’, que, no Brasil, aplica-se
em qualquer segmento, querem ‘’jogar poeira’’sobre
os crimes descobertos e que esperam que o tempo se encarregue de esconder essa
poeira. Com o ‘’fatiamento’’, outros
policiais farão as investigações, outros promotores e juízes funcionarão em
processos, que se arrastarão por tempo indeterminado, submetidos aos vários
recursos, previstos em lei. E digo mais: não me surpreenderei se, mais adiante,
o Supremo anule todos os atos praticados pela ‘’lava jato’’, inclusive as decisões proferidas pelo Juiz Sergio
Moro. Para tanto, basta que um desses Ministros invoque o inciso I do artigo 69
do Código de Processo Penal que preceitua que ‘’determinará a competência jurisdicional o lugar da infração. ’’ Ora
– dirá o tal ministro -, como a Petrobrás está sediada na cidade do Rio de
Janeiro, era ali que deveria ter tramitado o processo. Portanto, concluirá o
Ministro, ‘’todos os presos pra rua e que
Sergio Moro se recolha a sua insignificante incompetência. ’’ Não foi por
outra razão que a mídia noticiou que taças de champagne brindaram o
esfacelamento da lava jato.
quarta-feira, 30 de setembro de 2015
terça-feira, 29 de setembro de 2015
O Papa e a questão ambiental
O Papa Francisco, cada dia mais, vai se firmando como grande
líder, não só da Igreja Católica, mas de todo o mundo. Em sua recente visita
aos Estados Unidos, onde apenas 20% da população é católica, foi recebido de
forma apoteótica, tendo rezado missa, cujo comparecimento chegou a 2 milhões de
fiéis. O próprio Presidente Obama reconheceu ter sido essencial o papel de
Francisco, no refazimento das relações com Cuba. Ao lado de tão relevante
missão diplomática, o Papa, na ONU, abordou, de forma precisa, a questão
ambiente, já analisada, de modo mais precisa, na encíclica ‘’Laudato Si’’
(‘’Louvado Seja’’), onde avalia ‘’o urgente desafio de proteger a nossa casa
comum... e unir toda a família humana na busca de um desenvolvimento
sustentável’’. Releva observar que o Papa não adota posição extremada, em
defesa do meio-ambiente. Sabe ele, muito bem, que ambos – natureza e ser humano
– não são excludentes, vez que a primeira fornece ao segundo meios essenciais
de sobrevivência. O que o Papa condena como, de resto, qualquer pessoa de bom
senso – é a exploração desordenada dos recursos da natureza, como as queimadas,
a poluição dos rios, a pesca e a caça predatórias. O paralelismo entre
‘’casa’’, como moradia familiar e ‘’natureza’’ é de absoluta precisão. Todos
gostamos de usufruir do conforto de nossas casas, mas, para isto, temos a
obrigação de conservá-la limpa e arrumada. Do mesmo modo, todos apreciamos o
lazer no campo ou na praia, mas não o teremos, por muito tempo, se dilapidarmos
um ou outra. O Papa, na encíclica citada, de leitura obrigatória a todos os
cristãos, exorta-nos a um debate serio, sem facciosismo, em todos os segmentos
sociais, desde o núcleo familiar até os organismos internacionais, cada qual
dando sua contribuição, repensando sua relação com o meio ambiente. Sabemos
que, via de regra, os interesses econômicos, por serem imediatos, sufocam as
preocupações com o meio ambiente. O exemplo mais recente é o da ‘’Volkswagen’’,
a maior e, até outro dia, considerada a mais ética indústria automobilística do
mundo. Pois, através de adulteração nos motores dos carros fabricados,
camuflava a emissão de gases poluentes. Aqui entre nós, a poluição da Baia de
Guanabara e a dos rios Tietê e Pinheiros mostra o descaso da Administração
Pública com as questões levantadas pelo Papa. É da natureza do ser humano só se
conscientizar da gravidade de um problema, quando submetido à ameaça de sanção,
principalmente de ordem pecuniária, a que devem ser submetidos também os
agentes públicos. A oração, proposta pelo Papa, ao final da ‘’Laudato Si’’, é
de profunda beleza, a merecer nossa reflexão. Todavia, mais do que reflexão,
precisamos de ações concretas que nos obriguem a todos, tomarmos conta da
‘’casa comum’’.
segunda-feira, 28 de setembro de 2015
Lições da Historia
Como sabemos, os que viveram aqueles tempos, ou têm gosto
pela historia, Carlos Lacerda, um dos líderes da Revolução de 1964 e então
Governador do Estado da Guanabara, tornou-se em pouco tempo, feroz adversário
da política econômica do Governo Castelo Branco, cujo Ministro da Fazenda,
impôs um ‘’ajuste fiscal’ para superar as dificuldades herdadas da desastrosa
administração João Goulart, feita, tal qual agora, baseada no clientelismo e
populismo irresponsáveis. Para demonstrar como a historia se perpetua, extraio
dos ‘’Depoimentos’’, daquele que foi um dos maiores líderes de sua geração, os
seguintes trechos:
1.
‘’Já
10 meses são passados dessa política econômica. A moeda não se estabilizou e os
preços não pararam de subir. Mesmo que se desse algum milagre, nem o milagre tem
efeito retroativo’’.
2. ‘’Uma política econômica se justifica
pelos seus resultados tangíveis. Não por suas frases, nem por suas previsões. A
economia não se confunde com a meteorologia.’’
3. ‘’O Capital mais importante para se
vencer uma crise econômica, em país que tenha, como o nosso, possibilidades
reais de desenvolvimento, é a fé coletiva, a convicção popular de que o
sacrifício de todos se transforma em beneficio de todos’’.
4. ‘’Sem uma política vigorosa na ação e
empolgante na imaginação, não há técnica econômica que levante um país da crise
que lhe atinja os centros vitais. Se tivesse de resumir a alternativa, eu
diria: dê-se entusiasmo e confiança para trabalhar, com um Governo capaz de
inspirá-los. O Brasil, cuja produção teve as pernas amarras pelo medo, tem
agora os braços amarrados pela política econômica. Cada trabalhador
desempregado é um estigma para o Governo e um crime contra o Brasil’’.
5. ‘’ A política econômica vigente está
abafando o Brasil em sua alma, extinguindo a confiança no Governo, que aplica
ao Brasil a medicina do ‘’Dr. Sangrando’’, aquele personagem do ‘’Gil Blas de
Santillana’’, para o qual toda cura se fazia com sangria. E, quando dizemos que
ele está se exaurindo, matem-se o tratamento, sob a alegação de que não deram
alternativa.’’
Observação: os
trechos acima foram extraídos de pronunciamento, feito por Carlos Lacerda, em
1966. Governou ele o então Estado da Guanabara, entre 1961 e 1965 e, apesar da acirrada
oposição e boicote, primeiro de João Goulart e, depois, do próprio Castelo Branco,
revolucionou a administração publica, com sua competência e honestidade. Dentre
as obras de seu governo, merecem destaque: o aterro do Flamengo; o túnel
Rebouças, que ligou a zona norte à zona sul; a adutora do Guandu, que resolveu
o problema da falta d’água, no Rio; a avenida perimetral; a rodoviária ‘’Novo
Rio’’; as ‘’Vila Aliança’’ e ‘’Vila Kennedy’’, para onde foram transferidos os
moradores da ‘’Favela do Pasmado’’, além de dezenas de escolas e creches.
Lacerda encerrou sua carreira política em 1969, quando teve seus direitos
políticos cassados pelo regime militar.
sexta-feira, 25 de setembro de 2015
O novo conflito nas praias cariocas
Tive o privilégio de morar no Rio de Janeiro, entre 1971 e
1982 e, mesmo quando retornei para São Paulo, mantive, até 1992, o apartamento
do Leme, colado à praia do mesmo nome, que eu e minha família freqüentávamos,
com habitualidade. Já naquela época, a praia sofria, aos domingos, invasão de
moradores dos subúrbios, aumentando, substancialmente, a ação dos ‘’ratos de praia’’, que, com destreza,
incomum, subtraíram qualquer objeto, que o banhista desatento deixasse, sob sua
barraca. Por isso, aos domingos, pela segurança dos meus, preferíamos o clube,
que ficava ao lado. Ainda não havia os ‘’arrastões’’ dos dias atuais, mais
freqüentes, em Ipanema e Leblon, preferidas por turistas. De notar, que toda a
orla marítima é serpenteada por favelas, foco da bandidagem, o que não
constitui qualquer novidade. Por outro lado, o efetivo policial-militar é
exíguo, para se formar, exclusivamente, uma ‘’policia de praia’’. Em boa hora, o competente Secretário de
Segurança do Estado, José Mariano Beltrame, resolveu atacar o problema em seu
nascedouro: os pontos iniciais dos ônibus dos subúrbios. Deduziu ele, com total
razão, que o individuo que demanda à praia, vestindo sunga, mas sem dinheiro
para comer um mísero pastel, e portando pedaços de madeira ou barras de ferro,
é assaltante, em potencial e deve ser impedido de chegar a seu destino. Sua
estratégia ia dando resultados, até que um juiz, provavelmente membro da ‘’esquerda caviar’’, proibiu ‘’blitz’’ da Polícia Militar nos ônibus e
o resultado foi o dantesco espetáculo, mostrado pela televisão, com hordas de
meliantes – a maioria menores – levando pânico aos freqüentadores daquelas
praias. Noticia-se, agora, que os moradores de Copacabana, Ipanema e Leblon
estão conclamando todos, pelas redes sociais, a formarem milícias para
reprimirem os vândalos invasores. Desenha-se, assim, nas mais badaladas praias
cariocas, verdadeiro estado de guerra que, por obvio, afastará quem não quiser
expor sua segurança e de sua família, inclusive turistas, nacionais e
estrangeiros que procurarão outras plagas, para curtirem seu lazer. É claro que
a praia é do povo, independentemente de sua condição sócio-econômica ou seu
bairro de origem. Todavia, não se pode admitir que, em nome dessa inefável
liberdade de ir e vir, ampare-se o marginal e se castre o direito do cidadão de
bem, que só quer dar um mergulho e ‘’pegar
uma corzinha’’, jogando conversa fora e bebendo uma cerveja com os amigos.
Se advierem conflitos entre ‘’milicianos’’
e meliantes, é de colocá-los na conta desse juiz que, com uma decisão
desconectada com a realidade, inibiu a ação preventiva da polícia militar.
quinta-feira, 24 de setembro de 2015
A nau dos insensatos
Como já era de se esperar, a nau dos insensatos, tendo como
timoneiros Dilma, Renan e Eduardo Cunha, zarpou ontem, com a manutenção dos vetos
da Presidente que golpeou, principalmente, os aposentados e os serventuários do
Poder Judiciário Federal. Seriam esses,
no entendimento da Presidente e de seu Ministro banqueiro, os grandes algozes
do ajuste fiscal, se o veto fosse derrubado. Não sem razão o líder do ‘’MTST –
Movimento dos Trabalhadores sem Teto’’, ao declarar que o ‘’Estado brasileiro é
Robin Hood ao contrário: tira dos pobres e dá aos ricos’’. Pois não é que os
bancos aumentaram as taxas de juros, sob o olhar complacente do Banco Central?
Agora, o empresário que precisar descontar duplicata, deverá suportar taxa de
juros não inferior a 2% ao mês e a pessoa física, que precisar ‘’empinar um
papagaio’’ deve se preparar para taxa superior a 3%. Cunha e Renan garantiram a manutenção dos vetos
presidenciais e, conhecendo os mancebos, como os conhecemos, temos a certeza
que cobraram caro pelo serviço prestado. Honra façamos a esses senhores: têm
eles a coragem e a ousadia dos que se colocam acima do bem e do mal. Não se
intimidaram com os servidores, que cercavam o Congresso, reivindicando o
direito a um salário justo e, munidos de seus elmos e espadas, pelejaram a
favor da Presidente, que, com não menos despudor já anda oferecendo – como paga
inglória, Ministérios ao PMDB, mesmo os outrora pertencentes ao partido, que a
elegeu. Esposa, que abandona marido de longa data, mas que empobreceu, para se
atirar nos braços de novo amor, brotado no interesse. Não importa, para ela,
Presidente, o estofo moral dos seus aliados e muito menos importa, para ela, a
qualificação técnica dos ministros, a serem indicados por eles. Importa a ela,
e, cada vez mais, só a ela sua sobrevivência no emprego que, em momento de
equivocada confiança, foi-lhe dado pela maioria do povo. Foi-lhe dado pelos
aposentados, a quem, agora, ela vira as costas. Foi-lhe dado pelos serventuários
da Justiça Federal, a quem ela, agora, nega o reajuste de seus pífios salários.
Foi-lhe dado pelos movimentos sociais que, agora, chamam-na de ‘’Robin Hood ao
contrario’’. A Presidente, no afã de sobreviver, abandona seus companheiros de
sempre e se lança aos braços dos que só têm, como companheiros, seus próprios interesses.
Todavia – sabemos todos – essas uniões, essas adesões são caras, caras e inúteis,
porque não aumentam, ao contrario, atrofiam, ainda mais, a confiabilidade da
Presidente e, sem essa confiabilidade, não se supera essa crise econômica e a
prova disto é o progressivo aumento do dólar e o desconfortável comportamento
do mercado. E, assim, em águas revoltas, navega esta nau dos insensatos que, se
soçobrar – e tem tudo para isto – lançar-nos-á, a todos, neste mar de perigos
desconhecidos.
quarta-feira, 23 de setembro de 2015
O Governo de joelhos
Na tresloucada tentativa de salvar o seu mandato, a
Presidente Dilma, amparada por Lula, joga-se, humilhantemente, nos braços de
Renan Calheiros e Eduardo Cunha, ambos envolvidos, até o pescoço, na ‘’lavajato’’. Como o PMDB recusou-se a
indicar nossos ministros, a Presidente aceitou adiar a reforma ministerial e,
em contra-partida, Eduardo Cunha, adiou sua decisão sobre o pedido de
impeachment, subscrito por Helio Bicudo e Miguel Reale Jr. Troca-troca da pior qualidade,
que desqualifica Dilma, como pessoa e avilta o cargo de Presidente. Seria até
injurioso supor que não tenha ela percebido a enormidade do erro de sua
política econômica. Seria até injurioso supor que ela não tenha percebido os
descalabros, perpetrados pelo seu partido, para mantê-la no poder. Faltou à
Presidente a coragem cívica de vir a público, reconhecer, humildemente, esses
equívocos e pedir a união de todos, até porque os problemas atingem a todos. Se
assim tivesse agido, por certo, teria o apoio e a confiança lúcida e
correspondida, porque confiança não se entrega unilateralmente, confiança exige
reciprocidade. Infelizmente, ela optou por uma pequena, astuta, mas medíocre
trama palaciana para resolver, por meios ilegítimos, dificuldades, que todos
reconhecemos, mas que só podem ser resolvidas por meios legítimos. A
legitimidade, que a Presidente conquistou nas urnas, perdeu-a, quando perdeu a
confiança do povo, e seu medíocre índice de popularidade demonstra isso.
Perdeu-a, quando escondeu a existência de uma crise, que fulmina empresários e
trabalhadores. Perdeu-a, quando foi se aconselhar com seu criador, o outrora
guia de um ideal e que se transformou em coveiro do partido, que continha esse
ideário. Perdeu-a e a continua perdendo, quando busca salvação na escória da
política brasileira, despindo-se de sua dignidade, enveredando-se por
descaminhos que contrariam tudo aquilo pelo qual urge e pugna a esmagadora
maioria do povo brasileiro. E, ao invés de confessar seus erros e pedir a colaboração
de quem pode e dever colaborar, a Presidente e seus sacripantas acólitos,
preferem chamar os que apontam sua irresponsabilidade administrativa de ‘’golpistas de direita’’, a buscarem um
‘’terceiro turno’’ da eleição
presidencial. Desde quando é ser da ‘’direita
golpista’’ querer que se façam as coisas direito? Desde quando é ser da ‘’direita golpista’’, a não ser por um
jogo de palavras, mal intencionadas, querer que se faça, democraticamente, o
que nunca se deve fazer por vias espúrias? E desde quando é ‘’esquerda’’ o poder pessoal, que vai
aperfeiçoando, primeiro no confinamento de um Palácio, no ermo, depois,
cercando-se de um grupo de palacianos bisonhos, que fazem da intriga, do
trança-pé a matéria-prima da adulação? Sai Mercadante, fica Mercadante, sai
José Eduardo, fica José Eduardo, esse joguinho não é muito pueril, diante das
adversidades com as quais o País se depara? Assim se prepara o quadro do
desastre, que evolui a cada dia – o dólar não para de subir, a bolsa opera em
queda, o desemprego aumenta -, enquanto o Congresso se demite de suas funções,
com secreta e inexpressiva ambição de uns, em querer sobrepujar os outros
(Renan x Eduardo, Eduardo x Renan), as contradições dentro dos partidos, cada
vez mais divididos, que, como nunca, não contam com o respeito e a confiança da
população. A Presidente, acuada por todos os lados, despida em sua dignidade,
arruma as malas e segue viagem para a Assembléia Geral da ONU. Leva na bagagem
a incerteza do impeachment, ou a certeza dele. Leva na bagagem a desconfiança –
quase o mal querer – da população que só ouve falar em crise e em ‘’lavajato’’, como se ambos, crise e ‘’lavajato’’, fossem coisas banais e
inconseqüentes. Que dirá a Presidente à imprensa internacional, quando a
indagarem sobre uma e outra? Provavelmente, continuará mentindo, que a crise é
passageira, está sob controle e, quanto à lavajato, nada tem ela com isto. E
toda essa mentira em nome de uma ambição, sem sentido, porque corrói a
dignidade, bem do qual não se pode abrir mão e nos faz a nós, Brasil, menores
aos olhos do mundo.
terça-feira, 22 de setembro de 2015
Porque falar de Brasília
Liga-me amiga muito querida, a puxar-me as orelhas por falar
mal de Brasília. ‘’Você conheceu bem a
cidade?’’, pergunta-me ela. ‘’Sim e
não’’, nebulosamente respondo. Lá estive, por centenas de vezes, não só
durante os quase 10 anos, que trabalhei no Governo, mas também em razão de
minha atividade profissional. A cidade é feia, arquitetonicamente falando, com
aqueles prédios ministeriais enfileirados, tal qual peças de dominó. E depois,
as coisas agrupadas, o setor comercial, o setor hoteleiro, locais para onde
você só pode se deslocar de carro. A ‘’vida’’
de uma cidade, está em suas ruas, onde você pode caminhar, conhecendo cada
canto, descobrindo, sem programação, bares, lojas e restaurantes. Acho tudo
isto, andando pela Avenida Paulista, pela Nossa Senhora de Copacabana, pela
Calle Florida, pela Via Veneto e por tantas outras, Brasil e mundo afora.
Brasília, além dessa ausência de vida, é uma cidade reacionária, na pior
expressão do termo: os ricos e poderosos – e como deles os há em Brasília –
concentram-se no ‘’plano piloto’’ e
os pobres foram empurrados para as cidades-satélites. Brasília não tem parque
industrial e muito menos agropecuária. Sua economia gira em torno dos salários
dos funcionários públicos e, se o Governo atrasar 90 dias o pagamento desses
salários, metade dos estabelecimentos comerciais fecha as portas. E mais,
estivesse o Governo – executivo, legislativo e judiciário – num centro
populoso, com opinião pública ‘’fungando
no cangote’’, ele se revigoraria ou tombaria de vez. Fico a imaginar Dª
Dilma, depois de um dia de sandices, saindo, pela frente ou pelos fundos, do
Palácio do Catete, seu carro, cercado por manifestantes, sem lhe dar rota de
fuga. Fico a imaginar o Ministro Joaquim Levy, saindo pela curta e estreita rua
Debret, assediado, a justificar seu ajuste fiscal. Pois Brasília permite o
isolamento do Governo, que contempla aquela paisagem, ausente de povo e, por
isso, acha que tudo vai bem, que a crise não tem essa gravidade toda. Brasília,
na verdade, mais do que uma cidade, é um esconderijo, onde os malfeitores, de
todo o gênero, e dos mais diferentes rincões do País, reúnem-se para tramar
seus assaltos ao patrimônio publico. Desde sua fundação, em 1961, Brasília tem
dado maus exemplos de cidadania, seja por um executivo ineficaz, seja por um
legislativo, transformado em clube social, onde se permutam fofocas e
interesses, quase sempre espúrios. Brasília é uma cidade tão sem vida própria
que o maior numero de torcedores pertence ao Flamengo. Daí sua vocação para ser
transformada em uma ‘’Las Vegas’’
tupiniquim e adquirir real utilidade publica.
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