sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Rodolfo e Bolsonaro


Desde terça-feira, Rodolfo, meu politizado pastor alemão, cerca-me, a pretexto de assunto urgente. Como sei do que se trata, evito-o, quanto posso. Por óbvio, Rodolfo quer saber da entrevista de Jair Bolsonaro, na última segunda-feira, ao ¨Roda Viva” da Tv Cultura. Debate pífio, pela baixa qualidade dos entrevistadores, que, ao invés de extraírem as ideias do presidenciável, injetaram sangue petista nos olhos e pressionaram Bolsonaro a expor conceitos preconceituosos. E ficar, por todo um bloco, a falar da morte de Vladimir Herzog, ocorrida há quarenta longínquos anos, é sair do debate essencial, e apenas se pretender colocar casca de banana à frente do candidato. Entre enojado e entediado, mudei de canal, ao final do segundo bloco. Ontem, mal chegante em casa, Rodolfo me abordou. Que era falta de consideração eu evitá-lo, ele, sempre atento às minhas necessidades, etc  etc. Envergonhado, prometi-lhe toda a atenção, após o jantar. Encerrado este, como estava muito frio, pedi permissão a quem manda  para que ele entrasse e se acomodasse, a meu lado, no sofá da sala, Jobim “rodando na vitrola, sem parar”. O assunto era mesmo o debate, mas, antes que eu iniciasse a exposição acima, Rodolfo, cheio de entusiasmo, foi logo dizendo: “você viu que sucesso? “Roda Viva” alcançou inusitado índice de audiência e, pesquisa realizada após o debate, indica que nosso candidato “subiu 02 pontos percentuais nas intenções de votos””. Retruquei: “espera aí, Rodolfo”, “nosso candidato”? Eu, cá de mim, ainda não decidi. Confesso minha simpatia por Bolsonaro, mas gostaria de conhecer suas ideias sobre temas, como redução do déficit público, reforma previdenciária, tributária, administrativa e tantas outras, a clamarem por urgência.¨Bobagem, - rebateu Rodolfo – o homem é nosso “Trump brasileiro”. Nunca esteve envolvido em qualquer ato de corrupção e, por não querer enganar o eleitor, afirma nada entender de economia, mas que se assessorará por quem entende. Afinal, Getúlio, Juscelino, os presidentes militares entendiam de economia? Bolsonaro, meu caro, tal qual Trump o foi, é apoiado pela “maioria silenciosa”, que sofre com a falta de emprego, com salários aviltados, com juros inimagináveis ao mais inescrupuloso  agiota. Trump, atacado pela grande mídia, que apoia o sistema – até por       que vive dele – está fazendo os Estados Unidos crescerem a uma taxa de 4%. Bolsonaro, aqui, é o anti-sistema,  atacado por “Veja”, “Isto é”, “Globonews”, que sempre estiveram a serviço dos grandes conglomerados, por isso é o candidato da maioria, feita silenciosa.”
Como a noite avançava e o frio idem, despedi-me de Rodolfo, todavia levando seu discurso comigo. Será que meu amado pastor alemão está certo?

quarta-feira, 25 de julho de 2018

Para falar em eleições


Agora o quadro eleitoral começa a tomar corpo: à esquerda Ciro (ou Lula ou seu poste), ao centro Alkmin e seus indefectíveis aliados e, à direita, Jair Bolsonaro.  A eleição presidencial deste ano, pela sua incontestável relevância, remete-nos à de 1989, a primeira direta, após o final do período militar. É claro que as lideranças políticas não são as mesmas, com as atuais chamuscadas pela “lava jato”. Todavia 2018 encerra o conturbado período petista e a minúscula administração Temer que, com extrema dificuldade respiratória, chega a seus  estertores. O Brasil, para sobreviver, precisará de muito empenho e arte do novo Presidente, que deve retomar o desenvolvimento, controlar a inflação e realizar reformas estruturais, o que não é tarefa para qualquer um. Ciro Gomes é o destemperado de sempre, o não confiável de sempre que, dentre outras sandices, propõe o retorno do imposto sindical obrigatório e a revisão da reforma trabalhista, o que, por si só, demonstra seu descompasso em relação às necessidades atuais do país. Sua eleição seria lançar o Brasil em buraco negro, cujo fundo não se pode visualizar. Alckmin, para dar fôlego a sua candidatura, foi obrigado a se aliar ao “centrão”, conhecido bloco dos fisiologistas, que negociam, até, cargo de porteiro do Palácio do Planalto. Se eleito, teremos quatro anos de coisa nenhuma, mera continuidade do desastrado governo Temer. Sobra, assim, para pura análise, o nome de Jair Bolsonaro que, apesar de alguns destemperos verbais, representa o novo, a possibilidade de se dar uma “sacudida” nas instituições, repondo-se sua credibilidade; A grande imprensa, que sempre se colocou ao lado do “sistema” – leia-se, grandes conglomerados financeiros e industriais – pretende demonizar Bolsonaro, acusando-o de não ter preparo para assumir a Presidência da República. Mas, Alckmin e Ciro o têm, o primeiro, eterno derrotado, absurdamente comprometido com o “centrão”, e, o segundo, com irrealizável plano de governo? Não afirmo que Bolsonaro seja o ideal, todavia, dentro das possibilidades, que emergem da realidade objetiva, é nome que merece reflexão dos eleitores que sabem que a eleição de outubro representa, em definitivo, a esperança de rompermos este estado de letargia, que corrói as forças econômicas e sociais do Brasil.
P.S.: estas “mal traçadas” já estavam prontas, quando, na 2ª feira, o programa “Roda Viva” da TV Cultura recebeu o presidente Alckmin que, citando estatísticas nada confiáveis, prometeu o céu na terra. Como o time de entrevistadores, de segunda linha do jornalismo, era “chapa branca”, Alckmin “deitou e rolou”. A TV Cultura, se pretende, com seu “Roda Viva”, prestar serviço à democracia, deve escolher melhor independentes debatedores, que a “Casa” os possui, como Airton Soares, Gaudêncio Torquato, Luiz Felipe Pondé, dentre outros. A não ser assim, o programa se transforma em palanque eleitoral.

sexta-feira, 20 de julho de 2018

O descobrimento


YANAI impressionava, desde a primeira vista: pele morena e olhos pretos, a identificarem sua origem indígena, tinha pernas longas e coxas torneadas (o que para ele era fatal), que apoiavam quadril longo, bunda levantada (como o “alpha romeo” de sua juventude) e seios fartos, porém empinados. E, como moldura de marfim, dentes absolutamente brancos e perfeitos, que se abriram para ele, à porta da pousada. Viera para descansar, trazendo bagagem pouca – dez peças de roupa, se tanto – e três livros que pretendia preencherem seu tempo, quando não estivesse em caminhada. Naquele novembro, pós finados, ele era o único hóspede daquela pousada, encravada em uma praia: “Pousada do Adeus”. Achou que havia algo de emblemático no nome. Sua vida, nos últimos anos, tinha sido sucessão de “adeuses”: adeus, para amigos que se foram; adeus, para amigos que ficaram e com quem perdera o prazer de conviver; adeus, para a profissão, pela qual nada mais sentia; adeus para os filhos que, agora casados, só o procuravam nas datas oficiais; e, por último, como perda maior, adeus para a mulher, companheira de toda a vida, que se cansou dele e de suas manias. Sempre se enganou na etimologia da palavra “adeus”. Se o “a”, aposto à essência do termo, significa “sem” (como amoral significa sem moral) adeus só pode significar “sem Deus”. E era assim que ele sentia, quando chegou naquele lugar: perdera, pela negligência da fé, a companhia de Deus que, por certo, tinha mais a fazer, do que se envolver com a crise existencial daquele homem insosso e amargo. Sem Deus, viera buscar na “Pousada do Adeus” resposta para algumas perguntas. Depois de se instalar (quarto simples, mas acolhedor, com pequena varanda virada para o mar), saíra para conhecer o local. Uma enseada de não mais de um quilometro, onde, além da pousada, havia, se tanto, uma dúzia de casas – todas de alto padrão -, fechadas, naquela encravada semana de novembro. Entre duas traves mambembes, alguns nativos idem jogavam bola. Caminhou ao longo da praia e, em uma das extremidades, descobriu  trilha entre as pedras, que o conduziu a uma mais alta, pequeno pico, que se projetava ao mar. Sentou ali e, perdido em pensamento nenhum, viu o sol ir, lentamente, mergulhando no mar. Seu recolhimento foi, abruptamente, interrompido por  voz doce que, quase sussurrando, disse-lhe ser perigoso fazer o caminho de volta, na escuridão da noite. Era Yanai. Sem nada dizer, ele se levantou e seguiu-a. Ela usava o mesmo short desbotado e a mesma blusa branca, amarrada à altura do umbigo. Enquanto caminhavam, ela fazia algumas recomendações e sugestões sobre o lugar, que ele nada ouvia, pois seus pensamentos acompanhavam o ritmo do andar de Yanai, o balançar de sua bunda e o jeito gracioso de chapear a água das ondas, que vinha lamber-lhe os pés. O seu sotaque e a capacidade de concordar o sujeito com o predicado, indicavam que ela não era nativa. De onde viera? Por que vivia ali? Pensou em fazer-lhe perguntas, mas não quis quebrar o encanto daquele momento. No jantar, descobriu não ser o único hóspede: um casal idoso, com sotaque que não identificou, sentou-se à mesa ao lado e dirigiu-lhe um meigo, mas distante sorriso. Além de Yanai, a pousada tinha, pelo menos naquela semana, mais dois funcionários: um gerente, que ficava em sala separada e um cozinheiro. Yanai era um “faz tudo”: recebia os hóspedes, servia a comida, punha e tirava a mesa e, nas muitas horas vagas, ficava lendo na exígua portaria. Ao buscar a chave de seu quarto, ele, de soslaio, procurou identificar o livro que ela estava lendo: “Ficções do Interlúdio”, de Fernando Pessoa. Ele tinha décadas de Fernando Pessoa, mas não pôde deixar de se surpreender que mulher jovem, talvez não chegada aos trinta, pudesse se interessar por poesia e por um poeta que ressuscitara o “spleen” do começo do século XIX. Já na trigésima página do livro, que começara a ler, percebera estar totalmente desconcentrado: seus pensamentos teimavam em se fixar em Yanai, em seu jeito quase juvenil de gesticular, no seu alvo sorriso largo e... nas suas coxas. Apesar do negrume da noite, resolveu dar uma volta na praia, iluminada, aqui e ali, por vagalumes e cujo silêncio só era quebrado pelo barulho das ondas. De repente, teve a impressão, quase certeza, de que passos se aproximavam. Um frio de medo percorreu-lhe a espinha. Já fora assaltado várias vezes e não suportava a sensação de impotência que, nessas ocasiões, deixava um gosto amargo em sua boca. Ali, naquele lugar ermo, poderia ser morto e ficar até o dia seguinte, para o corpo, já cheirando a decomposição, ser encontrado. A ideia de morrer não o incomodava. Mas que fosse com estilo: de terno e gravata, infarto fulminante, em sua mesa de trabalho. Ou, suprema glória, de beca, no Tribunal, a meio de sustentação oral. Mas ali, naquele lugar afastado, vestindo uma bermuda velha, tênis gasto e sem meias, sem qualquer documento de identidade, seria considerado indigente e enterrado num caixão de madeira pobre. Ele, que sonhava com velório, regado aos uísques, que guardara para a ocasião; um conjunto tocando suas músicas preferidas. Pensou em correr, mas o medo grudava-lhe os pés no chão. Preferiu diminuir os passos, sem olhar para trás: o que tivesse de acontecer, que acontecesse logo. Súbito, uma voz doce, como gorjeio do pássaro amarelo que, rotineiramente passava em sua varanda, tirou-lhe do medo e devolveu-lhe à vida. “O que faz você, andando pela praia, a estas horas?”. Era Yanai, cheirando a banho e vestindo um vestido, cuja cor não podia precisar, mas livre e solto o suficiente para mostrar o começo dos seios e das coxas. Ele falou de seu medo, agora dissipado e ela riu, aquele sorriso largo, que ele já conhecia. Caminharam juntos até o riacho que margeava a montanha e depois voltaram, lentamente, em direção à pousada, conversando banalidades, sobre o possível sol do dia seguinte e a tranquilidade do lugar. Ao subir a escada, que dava acesso ao interior da casa, ela tropeçou, ele amparou-a pelas mãos. Riram e, por alguns segundos, ficaram de mãos dadas. Ele sentiu que estava vivendo um grande perigo. O mesmo perigo de quando, no Arpoador, olhou para V. puxando o biquíni. Seus olhos se cruzaram e, por dois anos, viveram entre o amor intenso e o ódio passional. Mas, ali, naquela noite e naquela escada só importava o calor da mão de Yanai. Convidou-a para conversar mais um pouco e sentaram no sofá de vime da varanda, com o frescor da brisa, que vinha do mar, batendo em seus rostos. Às vezes, os cabelos de Yanai teimavam em cobrir o rosto e ela, meigamente, os afastava, sem interromper a conversa. Fora por cinco anos, professora de história, em colégios particulares de classe média alta, até que um dia, já cansada do quase nenhum interesse dos alunos, resolvera abandonar a carreira. Seus pais morreram em um acidente aéreo, cerda de dois anos, e com o dinheiro do seguro montara aquela pousada, naquele lugar que conhecera nos tempos de “mochileira”. Uma vez por mês ia à São Paulo, fazer compras e o barulho da cidade, o trânsito, a neurose das pessoas, faziam-na voltar correndo para o “Adeus”. O nome era homenagem à definitiva despedida que dera à vida da cidade grande e à imensa tristeza, que se apossou dela com a morte de seus pais. Preferiu receber a indenização que a Companhia Aérea lhe oferecera, a transformar perda tão dolorosa em um medíocre jogo de interesses. Naquele momento da conversa os olhos de Yanai foram tomados por lágrimas e ele se aproximou dela e, com ternura, abraçou-a, enquanto ela pousava a cabeça em seus ombros. Quanto tempo ficaram assim? O suficiente para que o calor do corpo de Yanai passasse para seu corpo. Não era calor que tivesse sexo, mas calor que transmitia um carinho por alguém, que não se via, há séculos. De repente, ela se ergueu num gesto quase brusco, passou as mãos pelos olhos úmidos, deu-lhe boa noite e se retirou, apressadamente, para seu quarto. E ele, por um tempo infinito, ficou ali, sentado, olhando as estrelas e deixando seu pensamento voar, sem pressa e sem rumo, até que os primeiros clarões da aurora avisaram que era hora de dormir. Acordou com um sol forte atravessando a janela. Deixou que o jato do chuveiro o despertasse e de vez; fez a barba, vestiu o calção de banho, a camiseta com o logotipo da “pulma”, enfiou o chinelão de dedo, apanhou a sacola com o livro da véspera e o óleo de praia, e saiu em busca de algum café da manhã. Yanai o esperava com farta mesa de pão e frutas, mas sem sorriso. Seu semblante demonstrava que ela tivera noite atormentada por recordações, das quais preferia ter se esquecido. Os mortos, ao contrário do que diz o poeta, não os conseguimos enterrar. Restam insepultos e aparecem nos momentos mais inesperados. Respeitou o silêncio de Yanai, limitando-se a um bom dia. Ela estava linda, apesar dos olhos apagados: vestia blusa curta, que cobria o biquíni, deixando pedaço de bunda à mostra. Suas coxas roçavam em seus joelho, quando se curvou para servir-lhe o café. Ele teve de fazer um esforço sobre humano para que suas mãos não deslizassem sobre aquele corpo, cheirando à lavanda. Nada se disseram: ela se retirou para a parte interior do restaurante, e ele se levantou e se dirigiu à praia, notando que seu membro ia à frente, como a lhe indicar o caminho. Como no dia anterior, a praia estava vazia. Ao longe, próximo às pedras, onde subira, o casal de velhos, sentados em cadeiras, parecia trocar inocentes afagos. No lado oposto, perto da montanha, uns poucos nativos jogavam bola, enquanto um homem, solitário, brincava nas tímidas ondas. Acomodou-se na cadeira e, após untar seu corpo com bronzeador, retomou, melhor, recomeçou a leitura de véspera. Desta vez concentrou-se nos personagens e na trama, interrompidos quando o calor fez escorrer grossas gotas de suor pelo seu corpo. Entrou, lentamente, no mar, saltando sobre as ondas, ritual que repetia há décadas: o mar era seu elemento natural, corpo de mulher que descobre aos poucos, sorvendo cada pedaço, num ritual mágico. A água morna abraçou-o e o chamou para um mergulho bom e demorado, como permitia o pouco fôlego, de onde emergiu para contemplar toda a paisagem. A água salgada escorreu-lhe pela pele ardida e se lembrou de M., apaixonada pelo mar, como ele, a dizer-lhe que a água escorrendo sobre a pele, dava-lhe a mesma extasiante sensação de esperma, percorrendo-lhe o corpo. Mas ali, naquela praia solitária, mergulhado nas águas de um mar até então desconhecido, M. era fugaz lembrança, que não demorara a ficar. Como um balé que se finda, ele, com a mesma calma da vinda, saiu do mar, de volta à areia. Ao levantar a cabeça, viu alguém sentado, ao lado de sua cadeira. Seu coração bateu forte: seria ela? Apressou o passo, quase correu: era ela, Yanai, cabeça mergulhada entre os braços cruzados. “Oi, tudo bem?” disse ele, quase sussurrando, como se não quisesse interrompê-la de seu refúgio. Yanai ergueu a cabeça e apenas sorriu, um sorriso doce e calmo. “Oh, desculpe-me por ontem, à noite, não quis aborrecê-lo com minhas tristezas”. E se levantou, como quem vai partir, sem nada mais dizer. Ele, no silêncio daquele quase nada, abraçou-a com força, roçou seus lábios nos cabelos de Yanai e depois, docemente, beijou-lhe o rosto. Sentiu seu membro, desobediente a seu comando, enrijecer-se e se encostar nas coxas de Yanai que, ao invés de se afastar, colou seu corpo ao dele. Foi então que os lábios se buscaram freneticamente, e se beijaram e se morderam como, em nova versão do Paraíso, estivessem sozinhos no mundo. Sabiam que estava nascendo uma paixão e, de mãos entrelaçadas, correram para o mar, para comemorarem aquela descoberta do outro.

segunda-feira, 16 de julho de 2018

Uma leitura necessária


Por puro preconceito religioso, chego atrasado à leitura de “Sapiens”. Seu autor, Yuval Noah Harari, é evolucionista, acredita que tudo aconteceu a partir do “big bang” e daí foram milhões de anos de seguidas mutações, de seres inanimados e animados, inclusive nós, homens e mulheres. Eu, cá de mim, ainda creio, como narrado e sacramentado no “Livro do Genesis”, o bom Deus onipotente, criando o céu, a terra, inclusive Adão e Eva. Aí amiga, pra lá de querida, que se diz agnóstica, presenteia-me com “Sapiens”, um pouco para desafiar minhas convicções religiosas. Não as abalou, mas colocou um bocado de bom saber em meu pouco saber, pois  o livro é reunião de antropologia, filosofia, história completa da evolução humana, inclusive com suas contradições. Tudo dito com clareza e consistência. Nunca imaginaria o capitalismo e o comunismo como religião, mas está lá, muito bem posto. E uma sociedade, onde  todas as mulheres transam com todos os homens, de modo que todos podem ser pai de qualquer filho, daí o cuidado não ter identidade. Sociedade primitiva ou sociedade ideal?
Sapiens” é leitura obrigatória, para jovens, que precisam pensar o mundo e para velhos, ainda abertos ao conhecimento.

sexta-feira, 15 de junho de 2018

Melhor falar que calar


Deu-se, então, que foi morar em nossa rua aquela mulher, de estranho nome, se chamava: Umbertina. Acabara de casar o filho e enterrar o marido, fatos que pareciam lhe trazer grande alegria. Vivia só, mas não em solidão, pois a todos se prendia, seja para “um dedo de prosa”, seja para visita inesperada, a se arrastar até que o dono da casa cochilasse no sofá, ela a falar e ele ou ela a escutar. Comentava tudo que se passava a sua volta e, o que não passava, ela inventava, pois a imaginação foi colocada dentro da cabeça pra isto mesmo. No cinema, preferia filmes de cobois, -  ou cowboys, como dizem os mais sabidos -, a quem, quase aos gritos, prevenia dos perigos, desatenta aos reclamos dos vizinhos de poltrona. Voltava para casa aliviada, certa que a vitória final deveu-se a ela, sempre alerta em defesa dos justos, que índio é bicho traiçoeiro, só ataca pelas costas. Ainda mais índio americano, sempre parrudo, com quem sonhava, à noite, esfregando sua vergonha, na  secura desde que o traste do marido morrera, ele que não prestava para nada, beberrão, vagabundo, mas que era danado de bom nas coisas de sem-vergonhice. Uma vez por ano, dona Umbertina sumia por uns quinze dias. Contava que entrava numa excursão de terceira idade e batia perna pelas estradas. Quando voltava, vinha cheia de histórias e falava, até ficar sem voz e o ouvinte sem ouvido. Quantos anos davam para Umbertina? Talvez sessenta, talvez quase setenta, mas, pela bunda ainda empinada e pelos seios fartos, despertava interesses vadios, principalmente do jornaleiro, onde comprava revistas de fofocas noveleiras. Todavia, para respeitar a verdade, é preciso que se diga que nunca esteve envolvida em safadeza. Falava da vida de todo mundo, menos da dela, que devia ser segredos sepultados. Um dia, foi a minha casa, olhos inchados de quem chorara muito. Arrastou minha tia, que morava conosco, e foi para o quarto. Inútil escutar pela porta, que elas falavam baixinho, aliás, só ela falava e, de vez em quando, desandava a soluçar e só se ouvia mesmo o soluço e o gemido doído de alguma coisa que doía muito. Saiu de mansinho, mal chegava ao portão e nós cercando a tia para saber porque dona Umbertina, sempre tão cheia de risada e falação, chorava como, em final de novela, quando  a preterida vê seu amor casar com sua melhor amiga. A tia, depois de muito não falo, preparado  só para fazer suspense, como nos filmes de terror, acabou contando que o médico descobriu dona Umbertina ser portadora de câncer nas cordas vocais e que, em pouco tempo, ela ficaria muda. Ninguém podia imaginar dona Umbertina mergulhada em definitivo silêncio. Passamos a olhá-la com compaixão, ela cada vez mais abatida, não aparecia mais para a novela das oito, trancada em casa com sua infelicidade. Aí sucedeu que passou o fim-de-semana sem ninguém ver dona Umbertina, nem à missa foi. Esqueci de contar que ela possuía um cachorro, vira-lata, chamado Sultão que, logo no amanhecer da segunda feira, começou a latir, latido que se tornou uivo,  que chamou nossa atenção e dos outros vizinhos. Alguém pulou o muro da casa de dona Umbertina e, da porta da frente, saía cheiro nauseabundo. Logo, várias pessoas se juntaram, dando palpites sobre o que fazer, até que seu Germano, com a autoridade de sargento aposentado, deu a decisão:- “vou entrar pelo fundos e não quero  ninguém atrás de mim”. Como autoridade é autoridade, todos obedeceram, apesar dos resmungos de dona Matilde, que era a melhor amiga de Umbertina, que tinha prioridade, que Germano mal falava com a dita cuja. Passados poucos minutos, o ilustre representante das forças armadas saiu pela porta da frente. Estava lívido, com um pedaço de papel na mão. Encontrara dona Umbertina morta, um copo de formicida ao lado. No pedaço de papel, deixara sua despedida: “sem poder falar, melhor morrer.”

quarta-feira, 13 de junho de 2018

Nosso idioma, ontem e hoje


De tempos longevos, vem-me à memória o purismo do professor Soares Amora, a pretender afastar de nosso idioma todas as palavras usurpadas de idiomas estrangeiros. Luta, bravamente, contra  os galicismos e anglicismos, luta perdida, pois o idioma, qualquer idioma, em sua evolução dinâmica, sofre a influência de culturas mais sedimentadas. O Português, que se fala e se escreve por aqui, até o final da segunda grande guerra, assimilou palavras e expressões francesas, até porque Paris era o destino dos fazendeiros de café que, até então, dominavam a economia brasileira. Com o passar do tempo, palavras como “chauffer”, “abât-jour” foram “traduzidas” e incorporadas a nosso vernáculo, como chofer e abajur. Após 1945, principalmente pelo massacre a que nos impôs Hollywood, os Estados Unidos passaram a ser nossa Meca cultural e as novas gerações, na música, no vestir e até no comportamento passaram a gravitar em torno daquele País. Hoje, qualquer garoto de 10 anos, pelo menos, arranha o Inglês, até porque, se não o fizer, fica fora do mundo dos “games”, o que é fatal. A diferença é que nem se dão ao trabalho de traduzir palavras cibernéticas.  Usam-nas, no original e vida que segue... menos para analfabetos, como eu. Conto, sem pudor, que certa feita, uma de minhas noras enviou-me mensagem, convidando-me a participar de seu “linkedin”. Não respondi, porque não tinha a menor ideia do significado daquela palavra, com jeito de  mineirês”, nós que falamos “docim”, “brinquedim” e até tempos  cidade chamada “Betim”. Continuo desconhecendo o sentido desse palavreado, que faz com que chame computador de Vossa Excelência. Não navego na internet, ando de canoa, o que já está pra lá de bom.
Considero absolutamente normal estas incorporações a nosso idioma, de palavras e expressões estrangeiras, a ponto de a geração, que nasceu com a informática, ter criado vocabulário próprio, repleto de catacreses, palavra que emprego só para me exibir. O que,  realmente, me provoca arrepios é o uso de expressões que, de tempo em tempo, são usadas até por gente metida a intelectual. Houve uma época em que a moda  era empregar a expressão “via de regra”, que abria e fechava qualquer diálogo. Caiu em desuso ( o que foi oportuno, porque, ao pé da letra, significa o trajeto do fluxo menstrual), sendo substituída por outra, mais tenebrosa:  a nível de” que, rigorosamente, nada significa a não ser que quem a usa é pernóstico e ignorante. De uns tempos prá cá, está todo mundo “colocando opinião”, ao invés de, simplesmente opinar. Ontem, mesmo, no jornal da “Globonews”, o  jornalista Camarote ‘colocou”, à vontade, sobre o encontro de Trump com o norte-coreano. O saudoso Otto Lara Rezende, em uma de suas crônicas, chamava de bestialógicas essas expressões, sem conexão com a realidade semântica e que, de repente, incorporam-se ao linguajar cotidiano.
Quando tiver um “tempim”, vou pesquisar para descobrir como essas cretinices entraram no vocabulário, contaminando, inclusive, ilustres jornalistas, como o acima citado.

sexta-feira, 8 de junho de 2018

Pequena e boa história


Antigamente, na  Borgonha, os lobos viviam às soltas. Rondavam pelas florestas e, em tempo de escassez, erravam pelas ruas de cidades e aldeias. Consta que, no século X, suas alcateias eram tão grandes e selvagens que forçaram os duques da Borgonha a trocar Auxerre, sua capital fustigada pelo vento, pelo clima mais resguardado de Dijon. Era a maldição dos lobos, declararam os duques; o infortúnio se emboscava onde quer que as feras fossem encontradas.
Hoje em dia, muitos zombam dessas histórias, mas os velhos juram que são verdadeiras. Monsieur Le Brun, que viveu em Auxerre pouco antes da Segunda Guerra Mundial, contou: “Os lobos  costumavam nos importunar um bocado. Sempre foi assim nas regiões de vinicultura. Como os animais selvagens aprendem a comer tudo que encontram, tínhamos de vigiar as uvas.”
Isso era especialmente verdadeiro em tempos de escassez. Ao longo dos séculos, as regiões pedregosas em que a uva é cultivada na França, cujo solo é impróprio para outros tipos de cultura, foram com frequência assoladas pela fome e tornaram-se uma atração irresistível para lobos esfaimados que sobreviviam comendo uvas. Mas as pessoas notavam algo de estranho. Segundo Monsieur Le Brun, as uvas tinham um efeito euforizante sobre os lobos. “suspeito que o estômago do lobo é formado de tal modo que a fermentação  dos sucos da fruta tem lugar rapidamente depois que o animal come as uvas. Seja como for, o resultado é frequentemente a embriaguez.”
Cenas como essas são raramente vistas hoje, já qu e a maior parte dos lobos foi exterminada, mas Monsieur Le Brun conta que se lembra de ter visto uma alcateia bêbada correndo junto à sua casa. “Entraram exatamente por esta rua”, disse ele, apontando a ruela calçada de pedras que corria pelo meio da cidade. “Poucos dos que viram a cena irão esquecê-la.”
“Os lobos estavam todos embriagados. Era isso, para começar, que os fazia entrar na cidade, e era também o que salvava os moradores depois que entravam. Estavam bêbados demais para lembrar que eram lobos.”
Os moradores, encolhidos em suas cabanas, espreitavam aparvalhados os animais que corriam pelas ruas, uivando e babando, antes de cair em letargia.
“Eles simplesmente se deitavam na rua, estuporados de bêbados”, disse Monsieur Le Brun.
Obs: extraído do Livro “Vinho & Guerra” de “Don e Petie Klasdtrup