sexta-feira, 9 de março de 2018

Por causa do Evangelho de hoje


Como já alardeei, sou católico, apostólico, romano, onde estiver, não perco missa de  preceito e até, em outros tempos, fui Ministro Extraordinário da Eucaristia, o que não é pouca coisa para pecador contumaz. Procuro solidificar minha fé, lendo e aprendendo com quem a teve e tem, mais sólida do que a minha. Todavia, muita vez, vacilo. O evangelho de hoje (Marcos 12, 28b-34) nos dá conta de que, indagado qual seria o primeiro mandamento, Jesus respondeu: “Ouve, Israel! O Senhor nosso Deus é um só. Amarás o Senhor, de todo o coração, com toda sua alma, com todo o teu entendimento e com toda a tua força.” E o segundo mandamento é “Amarás teu próximo como a ti mesmo. Não existe outro mandamento maior do que este...”
Certa vez, discutindo o tema com queridíssimo amigo, absolutamente ateu, ponderou-me ele: “como posso amar a Deus, ente abstrato, mais do que amo minha esposa e filhos e como amar ao próximo, que nem conheço, inclusive aqueles sem qualquer resquício de moralidade, que são capazes de matar para roubar mísero celular?” Respondi-lhe que há grande equívoco na interpretação desse mandamento. Jesus não nos manda amar a Deus acima de esposa, filhos e pais. São amores diferentes, que não se excluem, nem se hierarquizam. Como ensinou Jesus, no evangelho de hoje: o amor a Deus se estrutura na convicção firme, na fé absoluta de que nele está todo “poder e glória”.
Quanto ao “amor ao próximo”, não se trata do amor físico ou abstrato, mas, sim, em exteriorizar esse amor: respeitar o próximo, independentemente de sua condição sócio-econômica, inclusive, sendo, com ele, misericordioso, se for o caso.
Jesus, ao longo de toda sua peregrinação ensinou que, ao contrário do contido no antigo testamento, agradar a Deus não é se dar holocausto ou  sacrifício. Agradar a Deus é “servir”, sem esperar ou exigir nada em troca.
“Mostra-me tua fé, sem as tuas obras, que eu te mostrarei a minha fé pelas minhas obras” ensinava São Tiago.

quinta-feira, 8 de março de 2018

Rodolfo, eu e o dia internacional da mulher


11 da noite, ruas desertas, saio a passear com Rodolfo, meu politizado pastor alemão. Nara, minha doce e vetusta “sem raça definida”, recusou-se a sair conosco, alegando a hora tardia e o cansaço do dia. E lá fomos, eu e Rodolfo, a bater pernas, sem destino definido. Sabendo que seria passeio peripatético, fui logo advertindo: “não quero falar sobre o julgamento de Lula, pelo STJ. Continuo achando que se estuprou a Constituição, ao permitir a prisão do Réu, já em 2ª instância e, neste raciocínio, estou muito bem acompanhado, pelo Ministro Celso de Mello, de longe, a melhor cabeça da Corte Suprema”. Rodolfo parou, olhou-me com ar de espanto e exclamou: “mas eu não tinha intenção em falar disto. Nestas horas de noite solitária, o papo tem que ser leve. Por exemplo: amanhã é o dia internacional da mulher! Porque não há “dia internacional do  homem?" – Explico-lhe que, provavelmente, a motivação de se criar tal data foi o fato de a mulher, ao longo dos tempos, ter sido vítima de discriminalização, as mais diversas e cito, como exemplo, o direito de votar, só concedido às mulheres, no começo dos anos 30. “Veja a questão da violência doméstica: - explico -  maridos e companheiros, agredindo, covardemente, esposas e companheiras.” Andando uns bons 50 metros, Rodolfo, em silêncio, sinal que o diálogo não estava encerrado: - “e você – perguntou ele – como trata as mulheres?” Retruco: “Você, que faz parte da família há 05 anos, o que acha? – “Bem, acho você respeitoso e cheio de cuidados. Às vezes até exagera.” – “Pois assim entendo que deva ser, até porque considero a mulher muito mais inteligente do que o homem, principalmente pela capacidade de nos manipular. Ensinava falecido professor de direito penal (tinha que ser falecido mesmo, pois, se vivo estivesse, estaria com 150 anos) que o homem mata “por barra de ouro ou barra de saia” e, mesmo quando é por “barra de ouro” é para usá-la com “barra de saia”.” Sempre soube que esta tal  “superioridade masculina” foi criada pela própria mulher, espécie de areia movediça, colocada sob nossa vaidade e ela, a mulher, ao longo dos séculos, foi a eminência parda das decisões do homem. E, pessoalmente, acho bom e justo que assim seja. Fisicamente, ela é muito mais bem acabada do que o homem. Nela tudo é harmônico, não há pelos, espalhados pelo corpo, a genitália é embutida, não é essa cosa ridícula do homem, tudo exposto, balançando de um lado para o outro. Sempre tive extrema dificuldade em entender o homossexualismo masculino, não por preconceito, mas por motivos puramente estéticos e de entrosamento de corpos. E mais: na presença de mulher, somos, nós homens, mais gentis, comedidos nas palavras. Sem mulher, enfim, para o bem ou para o mal, o mundo  não resistiria mais do que um mês. E do ponto-de-vista moral, a mulher é bem mais dotada, quase inacessível a oferta de propina. Examine as operações policiais, realizadas pela “lava-jato”: há, no máximo, 05 mulheres envolvidas, enquanto homens, contam-se a dezenas.”  Rodolfo parou, fazendo-me parar também e, vacilante, indagou: “Mas e os crimes que os homens cometem por causa das mulheres, não conta?” Respondo: “claro que não! Esses crimes devem ser debitados à nossa fragilidade, incapazes, que somos, de ouvir um “não”, ou  sermos preteridos. Você já se imaginou parindo um filho, carregando, dentro de si, uma cria, que torna o deitar difícil, o caminhar insuportável? Por tudo isto, a viuvez, na mulher, a rejuvenesce, enquanto, no homem, o destrói. Para encerrar nosso papo: veja você, Rodolfo, jovem, forte, raça pura, mas a dominante é Nara, nos estertores da vida, sem raça definida, como explica isto?” Rodolfo parou, novamente, pensou por alguns segundos e arrematou: “é, você tem razão. Quando cheguei em sua casa, ela me acolheu com carinho, ensinou-me todas as coisas, foi, pouco a pouco, fazendo-me dependente dela.”
Já entrando em casa, abraçamo-nos e, em brinde fictício, saudamos todas as mulheres, causa, da qual somos mero efeito.

quarta-feira, 7 de março de 2018

As eleições indefinidas


No programa “Roda Viva” da última segunda-feira, o ex-Prefeito e hoje Ministro, Gilberto Kassab, deixou claro que, em coligação PSDB/PSD, o governador Geraldo Alckmin, será candidato à Presidência da República. Temos, assim, definido o quadro sucessório: à esquerda, Lula ou um “poste” indicado por ele, ao centro, Alckmin e, à direita, Jair Bolsonaro. É certo que, correndo pelo meio, há quase uma dezena de candidatos, muitos pleiteando a herança do Lula. Todavia, a meu juízo, ficarão pelo caminho, com inexpressiva votação que, somada, não chegará a 30% dos sufrágios. Assim, a decisão, em segundo turno, fica entre os nomes citados. Se Lula for o candidato, ganha, fácil, tanto de Alckmin, quanto de Bolsonaro. Talvez seja por isto que a mídia impressa venha, reiteradamente, “pressionando”, através de matérias, altamente tendenciosas, o Poder Judiciário, para que se decrete a prisão do dito cujo. Em fevereiro de 2016, estuprando texto expresso de nossa Constituição e mitigando o “princípio da presunção da inocência”, o falecido Ministro Teori Zavascki, conseguiu que o Supremo Tribunal Federal admitisse a prisão, já em segunda instância (Tribunais Regionais). Todavia, este tema voltará ao Supremo para apreciação e, ao que se aufere, haverá retorno à interpretação literal da norma constitucional que, em respeito àquele princípio, considera “coisa julgada” aquela contra a qual não cabe qualquer espécie de recurso. Em acontecendo tal mudança, Lula poderá recorrer, em liberdade, se  candidatar-se, vez que lei ordinária (lei da “ficha limpa) não pode se sobrepor à Carta Magna. Na hipótese de Lula não sair candidato, o segundo turno será travado entre Alckmin e Bolsonaro e aí fica incógnita com muitas variáveis. O PT e seus partidos satélites se disporiam a apoiar o atual Governador de São Paulo? Escapará ele, imune, das investigações de pagamentos de propina, em obras estaduais? Segundo pesquisas recentes, mais de 50% da população concorda com a assertiva de que “bandido bom é bandido morto”, repetida, à exaustão, por Bolsonaro. Apesar de 06 mandatos consecutivos de deputado federal, fora do Estado do Rio de Janeiro, tem ele pouco brilho.
Vê-se, pois, que o “fator Lula” será a bússola para as eleições presidenciais. É de se registrar como o Brasil não foi capaz de gerar líder, com capacidade para  atrair a população, em todos os diferentes segmentos sócio-econômicos.
“O que será que será?”

quinta-feira, 1 de março de 2018

A solução final


Ele se chamava, digamos, Manoel e  eu o conhecia, porque era zelador do prédio, onde, à época dos fatos, que serão contados, eu lá tinha escritório. Mais ou menos, uns 50 anos, casado, dois filhos, um de 05, outro de 07 anos. Tínhamos relações cordiais: ele trocava lâmpadas queimadas, limpava os aparelhos de ar condicionado, favores que eu retribuía com digno pagamento. Era homem de comportamento rude, rudeza adquirida de quem vivera, até os 18 anos, no agreste pernambucano, filho único, com a morte do pai, a mãe mudara para Recife, a trabalhar de empregada doméstica e ele veio para São Paulo, morar com um tio, lá para as bandas do Grajaú. Semi-analfabeto, braços fortes, como todo nordestino chegante, em semelhantes condições, virou servente de pedreiro, e, finalmente mestre de obra. Uma noite, em um “bailão” frequentado, predominantemente, por “gente  que veio do norte pra cidade grande”, como cantava Belchior, conheceu Matilde, mulata sacodida, seios empinados, gargalhada frouxa, corpo sempre em brasas. Seis meses depois estavam casados, tiveram filhos, Manoel, em alegria constante. Virara zelador do meu prédio, em cuja construção trabalhara. Era verdadeiro xerife: comandava os funcionários (faxineiros, manobristas, porteiros) com mão-de-ferro e estava sempre disposto a “sair na mão”, que não era homem de levar desaforo para casa. Numa segunda-feira, como de hábito, chego ao escritório às 8 horas e, ainda fazendo as orações, antes de começar o trabalho, escuto a campainha e, minutos depois, a secretaria avisa-me, pelo interfone, que Manoel queria falar-me. Recebi-o, com a cordialidade de sempre, acomodo-o na poltrona a minha frente, ofereço café, que ele recusa e sua fisionomia, entre fechada e abatida, dizia-me que algo grave acontecera. Ele demorou para dizer a que veio e, quando começou a falar, voz embargada, seus olhos umedeceram: “sabe, doutor, o senhor me conhece a um tempão. Saio de casa às 05 da manhã para chegar aqui às 7 e só saio, quando não tem mais ninguém, lá pelas oito da noite. Tem o Inácio, mas é um preguiçoso e não confio nele. Chego em casa às 10 da noite, muitas vezes as crianças estão dormindo. Amo minha mulher e juro que nem olhar pra outra eu olho. Minha vida é minha família. Pois não é que já faz um mês que estou desconfiado que Matilde está me corneando, com perdão da má palavra? Aí eu vim me aconselhar com o senhor. Que que eu faço?” Dou prolongado gole d’agua, para escolher as palavras certas: “Olha Manoel, isto que você está dizendo é muito grave e você não pode tomar decisão precipitada. Primeiro, você não pode desconfiar, mas ter certeza que ela lhe trai. E somente quando tiver certeza, é que pode tomar uma decisão, sem violência, que você tem dois filhos para criar. A solução é o divórcio que, é claro, eu faço para você.” – “E o que eu faço da minha vida, doutor, longe de minha mulher e meus filhos, que são tudo que tenho? Melhor me matar.”, disse-me ele, já aos prantos. Procurei acalmá-lo, que, primeiro, ele deveria ter certeza da traição e, mesmo que fosse verdade, o divórcio não lhe tiraria o direito de ver e estar com os filhos. Da maneira mais simples possível, expliquei-lhe o que era e como funcionava a guarda compartilhada. Manoel saiu de meu escritório, deixando-me  preocupado. Para homens rudes, que suportaram  terríveis adversidades, honra não se lava com simples divórcio. No dia seguinte, uma sexta-feira, ao passar pela portaria, perguntei ao Manoel como andavam as coisas. – “Agora tenho certeza do chifre que a desinfeliz me botou”, disse-me ele, com indisfarçável ódio na voz:- “Hoje vou estar fora, Manoel. Não faça nenhuma bobagem e, na segunda feira, conversaremos. Porque você não passa o fim-de-semana na casa de seu tio?”, sugeri-lhe. Na segunda-feira, chego ao prédio, tremendo alvoroço na portaria. Manoel havia matado os filhos e se matara, na frente da esposa infiel. Subi para o escritório, sem condições de trabalhar. Manoel escolhera a mais absurda forma de vingança: a mulher carregaria, pelo resto da vida, a indescritível culpa pela morte dele e dos filhos. Covarde, não tive coragem de ir ao enterro.

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Os refugiados chegam ao Brasil. E agora?

O governo Temer, lutando contra tudo e contra todos, principalmente, contra a grande mídia, que abraça a tese do “quanto pior, melhor”, conseguiu, com sua política econômica, gerar mais de 01 milhão de empregos formais. Agora, começamos a enfrentar o problema dos auto-exilados da Venezuela, que, por falta de condições mínimas de  sobrevivência, deixam aquele País e, buscando melhor sorte, ingressam no Brasil. A questão dos refugiados mereceu acirrados debates, na Europa: deveriam ser acolhidos, por razões humanitárias, diziam uns; deveriam ser contidos, porque colocam em risco a economia do País, diziam outros. Agora, chegou a vez do Brasil debruçar-se sobre tão complexo problema. Faz uns 10 anos, conheci Boavista. Mal comparando, corresponde a uma das cidades do nosso “Vale da Ribeira”: quase nada de indústria, vivendo da extração (quase sempre clandestina) da madeira. Acorreram àquela cidade cerca de 30 mil venezuelanos e tal maciça presença trouxe profundos reflexos, na qualidade de vida dos nativos, já que representa 10% da população local. E a situação se agrava, vez que são esperados, em curto lapso de tempo, mais 100 mil venezuelanos e outros mais virão, à medida que mais aguda for a crise econômica na Venezuela, cujo índice de desemprego alcança 70% da população. Como solução provisória (e não há, em estudo, solução definitiva) o Governo Federal resolveu distribuir os refugiados venezuelanos entre os Estados da Federação. Não é exagerado admitir que precisarão eles morar, comer, utilizar serviços de saúde, educar seus filhos e, por óbvio, todo esse uso de equipamentos públicos, trará reflexos na vida econômico-social do Brasil. São  diários os casos de bolivianos, utilizados como mão-de-obra escrava. Seguirão os venezuelanos o mesmo caminho? Haitianos, que aqui se refugiaram, trabalham em sub empregos, aviltando o preço da mão-obra-nacional. A Venezuela é barril de pólvora, prestes a explodir. Possui população de 32 milhões de habitantes. Imaginemos – mesmo por simples hipótese – que, com o acirramento da crise, 10% da população daquele País, isto é, 3,2 milhões de pessoas busquem refugio no Brasil. Estaremos “importando” um caos, que anulará todos os avanços, promovidos pelo atual governo, inviabilizando, ainda, o próximo.
Percorro, por dever de ofício, o centro velho de São Paulo e, sem esforço, deparo, cotidianamente, com centenas de moradores de rua que, sabemos, nossa Capital, a maior cidade da América do Sul, não tem abrigos suficientes para acolherem a todos.

Assim, a questão dos refugiados, que nos parecia distante, entra, obrigatoriamente, na agenda dos presidenciáveis.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Por uma leitura obrigatória

Nasci e vivi, até os 15 anos, em cidade do interior de Minas Gerais, onde, quando a temperatura chegava aos 25 graus, colocava-se pesadas roupas de frio. Morando no Rio, certa feita, sobrinha pra lá de querida, em mês de julho, convida-me para saborear um “fondue”. O frio ausente exigiu que o ar condicionado fosse ligado. Conto isto para dizer que sempre fui, essencialmente, bebedor de cerveja. Hábito que cultivo em domingos veranicos, tomando sol, no quintal, cercado de cachorro, merecendo destacar que dois deles, Olavo e Clóvis, são ávidos consumidores do “suco de cevada”. Vinho mesmo, só me habituei a apreciar, quando após 12 anos de Rio de Janeiro, retornei, para sempre a São Paulo. Aprecio os chilenos, argentinos e espanhóis, ao alcance do meu bolso e, quantos aos franceses, aventuro-me ao “Chateauneuf du Pape”. Aprendi com Derivan, um dos maiores “barman” de nossa Paulicéia, que vinho francês barato – menos que 01 mil reais – é inferior a qualquer “Cassillero del Diablo”. Apenas bebo vinho e acho frescura demais o cara frequentar um desses cursos e ficar estalando os lábios, a discorrer sobre os componentes do vinho.
Sabedor de meu gosto por vinhos e de minha predileção por livros  sobre a 2ª guerra mundial, ancestral cliente que se transformou em amigo fraterno, presenteou-me (ele pensa que me emprestou) com o livro “Vinho e Guerra”, que narra as artimanhas empregadas pelos principais produtores franceses para impedirem que os nazistas se apoderassem de mais nobres vinhos. É um passeio emocionante pelas maiores regiões viníferas francesas – Borgonha, Bordeaux, Champagne, Vale de Loire – de onde foram desviadas cerca de 500 mil garrafas das melhores safras para a adega de Göring e mais de 01 milhão para o “Ninho das Águias”,  retiro de Hitler nos Alpes bávaros.  Transcrevo deliciosa lição contida no livro:
“o vinho foi um dos primeiros indícios de civilização a aparecer na vida dos seres humanos. Está na Bíblia, está em Homero, fulgura através de todas as páginas da história, participando do destino de homens de talento. Ele dá espírito aos que sabem como saboreá-lo e pune os que o bebem sem comedimento”.

“Vinho e Guerra” é um livro de história, de resistência ao opressor e, acima de tudo, de amor do povo francês a seu maior tesouro.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Por conta do Evangelho de hoje

Como já alardeei aqui, não começo o trabalho, antes, até, do primeiro cafezinho, sem ler e refletir sobre o “Evangelho do dia”. No de hoje, cognominado “Evangelho do perdão”, (Mateus, 5, 20-26), Jesus assevera: “quando estiveres levando tua oferenda ao altar e ali te lembrares que teu irmão tem algo contra ti, deixa tua oferenda diante do altar e vai primeiro reconciliar-se com seu irmão.”

Quanto mais persisto na leitura do Evangelho, sinto não ter a menor possibilidade de passar, nem mesmo pelas imediações do céu e já me darei por satisfeito se tiver uma vaga no purgatório e o Evangelho de hoje consolida esta convicção. Não armazeno ódio ou ressentimento, a não ser por um árbitro de futebol, que legitimou um gol do Fluminense, roubando do Botafogo o título de campeão carioca de 1971. Não consegui, até hoje, esquecer o nome dele, José Marçal Filho. Afora esse caso isolado, quando me indisponho com uma pessoa, simplesmente, tiro-a de minha vida, nem mesmo repito o nome dela. É como se ela não existisse e, se não existe, não me pode ser objeto de ódio ou ressentimento. Como, então, reconciliar-me com quem não existe? Na mesma passagem do Evangelho, Jesus determina: “não cometerás homicídio”. E esse “homicídio”, que não pode ser cometido, não se limita à morte física: “todo aquele que tratar o irmão com raiva, deverá responder no tribunal”. Posso argumentar que tirar alguém de minha vida, não caracteriza ato de raiva, por isso torno-me inimputável. Todavia, sabemos, Jesus não se deixa enganar com sofisma de advogado “mequetrefe”, porque ele exige “reconciliação”. É como se ele dissesse para mim: “desenterre as pessoas que enterrou vivas, reconcilie com elas e, somente depois disto, será digno de meu perdão”. Ai fica difícil, porque teria, além de superar o orgulho, convencer-me a mim mesmo, que estava errado, quando promovi o enterro. Então fica assim mesmo, como está: transformar os desafetos em inexistentes, é menos grave que odiá-los e espero merecer a complacência divina, na hora de meu julgamento.