quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Acalma meu passo, Senhor!

“Em meio às confusões do dia,
Dá-me a tranquilidade das montanhas.
 Retira a tensão dos meus músculos e nervos
Com a música tranquilizante dos rios de águas constantes
Que vivem em minhas lembranças.
Ajuda-me a conhecer o poder reparador do sono.
Ensina-me a arte de tirar pequenas férias,
Reduzir meu ritmo para contemplar uma flor,
Papear com um amigo, afagar uma criança, ler algo que
Me faça bem, ouvir a minha música preferida.

Acalma meu passo, Senhor,
Para que eu possa perceber
No meio do incessante labor cotidiano dos ruídos,
Lutas, alegrias, cansaços ou desalentos,
A tua presença constante no meu coração.

Acalma meu passo, Senhor,
Renova em mim a esperança,
Ensina-me a calar para que eu possa escutar tua voz.

Acalma meu passo, Senhor,
E inspira-me a enterrar minhas raízes
No solo dos valores duradouros da vida,
Para que eu possa crescer até as estrelas
Do meu destino maior.

Obrigado Senhor,
Pelo dia de hoje, pela família, pelo meu trabalho,
Pelos meus amigos e,

Sobretudo, pela tua  presença na minha vida.”

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

O Supremo de cócoras

A mídia, que quer a cabeça do Lula, a qualquer preço, já pressiona o Supremo Tribunal Federal para não julgar a questão, referente à prisão em segunda instância. Como é largamente sabida, a Corte, em fevereiro de 2016, mais uma vez, usurpando atribuições exclusivas do Poder legislativo, modificou a literal redação do inciso LVII do artigo 5º de nossa Carta Magna e passou a admitir a prisão do réu, cuja condenação fora confirmada pelo respectivo Tribunal Regional (2ª instância). Tal decisão foi inominável desrespeito à Constituição Federal, vez que o citado dispositivo constitucional assevera: “ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória”. Por “trânsito em julgado”, entenda-se a sentença sobre a qual não mais pende qualquer recurso. É o princípio da “presunção da inocência”, abrigado nas Constituições espanhola e italiana e remonta à brasileira de 1946, tendo sido mantido, mesmo durante o regime militar. É claro que tal norma pode ser alterada, desde que tal alteração decorra de emenda constitucional, oriunda do Poder Legislativo. Sabemos que a atual composição do Supremo é pífia, no que tange ao saber jurídico, com honrosas exceções e, na atual conjuntura, “joga pra torcida”, impulsionado pela mídia. Alguns Ministros já se manifestaram, no sentido de reexaminar aquela esdrúxula decisão de fevereiro de 2016, recompondo a correta interpretação da norma constitucional. Este reexame já estava previsto antes do julgamento de Lula, pelo Tribunal Regional Federal. Com o julgamento, a mídia que quer a cabeça de Lula, a qualquer preço, vem pressionando o Supremo para não levar a julgamento a revisão da matéria e, pelas últimas informações, a Presidente Carmen Lúcia, jogando pela janela a independência da Corte, submeteu-se àquela pressão. Por mim, cuja aversão ao lulopetismo já contei em verso e prosa, não se trata de Lula, mas de restaurar a legalidade, antes do julgamento de Lula, pelo Tribunal Regional Federal de Porto Alegre. Agora, a Presidente Carmen Lúcia já declara que aquele reexame não é prioritário. É claro que essa “desnecessidade” decorre do fato de que, se o Supremo restaurar o entendimento tradicional, que espelha a literalidade daquele dispositivo constitucional, como não há “trânsito em julgado”, Lula poderá recorrer em liberdade, o que a mídia repudia. O Supremo, que se apequena a cada decisão, precisa ter coragem para enfrentar a questão, que envolve o interesse de milhares de brasileiros, em situação idêntica a de Lula. O Juiz, o verdadeiro Juiz, o Juiz independente deve julgar com a lei na mão e os olhos vendados, como simbolizado em Themis, a deusa da justiça. Pobre do país, em que o Poder Judiciário é guiado pelas mãos da mídia.
Repudio Lula e o lulopetismo, todavia com mais intensidade, repudio uma Corte que, ao invés de defender a Constituição, submete-se a pressões, para interpretá-la a favor de interesses estranhos à justiça.



segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Uma leitura obrigatória

Apesar de minha definitiva formação ideológica, não perco a oportunidade de aprender, com os que me são culturalmente superiores, mesmo de posições contrárias. Certa feita, dileto amigo, que me visitava, ao percorrer minha biblioteca, observou, entre surpresa e ironia: “quem não o conhece e o avaliasse pelos seus livros, não teria dúvida, em afirmar que você quase pertence à esquerda”. Se eu tivesse que indicar obras importantes da literatura mundial, com certeza, incluiria “Germinal”, de Emile Zola e “Quarup”, de Antonio Callado e que longe estão de se situarem na margem direita do rio.
Fiz toda essa introdução para comentar – e recomendar – que atravessei a madrugada, lendo as “Cartas da Prisão”, de Frei Betto. Frei Betto pertenceu a um grupo de padres dominicanos, liderados por Carlos Marighella, que realizaram ações subversivas, principalmente, a partir de 1968. A principal função de Frei Betto, era coordenar a fuga de companheiros, a partir de Porto Alegre, com destino ao Uruguai e Argentina. Preso, em 1969, passou por vários presídios, até ser libertado, ao final de 1973. Em suas “Cartas”, escritas a parentes e amigos, demonstra serenidade e fé, mas, acima de tudo, apresenta sua visão pessoal dos textos bíblicos e da imperiosa necessidade de a Igreja Católica aproximar-se das comunidades carentes. Discordo, frontalmente de Frei Betto, que prega o socialismo, como forma de o Estado e a própria Igreja se conduzirem, mas concordo, quando afirma “que muitos cristãos tenham uma visão estática da missa, apenas uma cerimônia dominical, sem nenhuma repercussão em suas vidas concretas”. Esta era, também, a visão do Papa Bento XVI, e que, através das “pastorais” deu dinamismo à Igreja Católica..
Como Frei Betto assinala, na “introdução”, “este livro retrata as duras provocações a que foram submetidas os presos políticos”, fato que já era do conhecimento de todos que viveram aquela época. Apesar da angústia da prisão,  Frei Betto não claudicou na fé e manteve a esperança utópica de que, com a ascensão da classe operária ao Poder, o Brasil viveria “tempo de socialismo”. Essa esperança fê-lo se aproximar de Lula e do PT, que abandonou, depois de constatar que ambos tinham um projeto pessoal de governo e onde o pobre entrava apenas como massa de manobra.

O livro merece ser lido, não só como documento histórico, mas também, para os católicos, como reflexão de relevantes temas de nossa religião.

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

O dia da recriação

Deus, imerso na solidão do “eu sozinho”, não podia escapar de alguns equívocos cometidos, na “semana da criação”. E, aqui pra nós, mesmo para Deus, 06 dias é muito pouco tempo, para tanto fazer. Por certo, cada um de nós, se lá estivesse, teria várias sugestões a dar, de modo a melhorar a composição estética do universo ou mesmo seu funcionamento. De minha parte não tenho nenhuma restrição mais relevante a fazer: encanta-me as nuances do verde, o ritmo das ondas e a beleza estonteante do por-do-sol, principalmente quando acontece, lá longe, onde o mar acaba. O que realmente me incomoda, é o processo de degradação física e mental que, muita vez, retira a dignidade do ser humano, antes da partida definitiva. Já vi este melancólico fenômeno atingir várias pessoas, inclusive da minha família. Em revista semanal recente, lá estava Pelé, magro, olhar vazio, apoiado em “andador”. Lembrei-me de que cheguei a São Paulo, no início dos anos 60 e ir ao Pacaembu, ver Pelé jogar, era quase ritual. Podia-se ser torcedor de qualquer time, mas o Santos de Pelé era de todos, acima do bem e do mal. O tempo passou, levando todas as minhas idades. Tudo bem, afinal, entre perdas e ganhos, estou no lucro. Mas, destroçar Pelé, a ponto de receber um beijo de misericórdia do Maradona, é humilhação a que não  merecia ele ser exposto. A mesma coisa digo em relação a João Gilberto, absolutamente senil, vivendo em penúria moral e material, inerte ante à ação destruidora de seus próprios filhos. João Gilberto “mudou” o gosto musical de várias gerações e eu estava lá, naquele barzinho do “beco das garrafas”, onde ele mostrava sua “batida diferente”, para gente que ainda lhe torcia o nariz, porque preferia os dramalhões de Lupicínio Rodrigues e Antonio Maria, nas vozes de Maísa e Dolores Duram. João Gilberto correu mundo, gravou com Stan Getz e Sinatra e não merecia acabar, em tosco e mal cheiroso apartamento alugado.

É aqui que meto o meu bedelho! Se tivesse ao lado do Pai Eterno, no formidável momento da criação, sugeriria que ele poupasse os gênios da senilidade. Que eles fossem, de repente, não mais que de repente, de preferência ao romper de sol de verão.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Lula: o dia seguinte

Confesso que fiquei desapontado com as consequências do resultado do julgamento de Lula. Afora trôpegas manifestações, de júbilo ou tristeza, aqui e ali, a população manteve-se alheia, ao que deveria ser o grande acontecimento do ano iniciante. Tal reação asséptica foi boa ou ruim? Difícil fazer avaliação, principalmente em nossa Capital, em véspera de feriado “imprensado”, com as pessoas,  apressadas, em busca das praias ou das montanhas. Mesmo em Porto Alegre, o aparato de guerra montado, mostrou-se exagerado. Na verdade, a própria mídia supervalorizou o julgamento, cujo resultado até Nara, minha anciã cadela, que detesta política, já conhecia. O sistema Financeiro foi o único, a demonstrar euforia, com a bolsa subindo e o dólar despencando. Mas desconfio que tenha sido para especulação. Os “embargos de declaração” passavam a ser a expressão mais utilizada pelos jornalistas. Na verdade, trata-se de recurso de nenhuma importância e  que já deveria ter sido extinto, pois servem apenas para adiar, por curto lapso de tempo, a eficácia da sentença. No caso de Lula, aposto os 10 dedos das mãos que serão rejeitados. Como o Supremo Tribunal Federal, em sua mais melancólica composição, tornou-se órgão político, aposto os 10 dedos dos pés que até a publicação do resultado dos embargos, a Corte (?) já reviu aquela decisão, de fevereiro de 2016, que admitia a prisão do réu, cuja sentença condenatória é confirmada pelo Tribunal Regional. Então, ficará Lula condenado, mas aguardando, em liberdade, o julgamento de outros recursos, o que pode se arrastar por vários anos. A bola, então, vai para os pés da Justiça Eleitoral, que decidirá se Lula poderá disputar a presidência. Como nada mais tenho a apostar, que tenha valor extrínseco, fico na encolha, mesmo achando que o radicalismo se exacerbará. Lula, candidato ou não, estará nos palanques, vitimizando-se e, mais do que nunca, propondo a instalação de uma “República proletária”. É, no mínimo, precipitado afirmar que a condenação de Lula viabilizou a vitória de candidato do “centro”. Necessariamente, o caminho do lulopetismo será uma guinada à extrema esquerda, ao qual se oporá, via de consequência, um candidato de extrema direita, no caso, Jair Bolsonaro. Por enquanto, por mais lúgubre que seja este é o quadro político, no momento, desenhado para nosso melancólico país.

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

A difícil opção pelo direito

Linda manhã de domingo, chego da missa e Rodolfo aguarda-me para nosso passeio ao parque. Nara, alegando excesso de calor, preferiu ficar em casa. É o peso da idade, ela já chegando aos 80. Rodolfo convidou-me a andar por entre as árvores – podíamos conversar, à vontade. Eu já antevia o assunto, por isso não me surpreendi, quando ele foi direto ao ponto:
- “O que você acha do julgamento do Lula, na próxima quarta feira?”.
 Respondo-lhe que é jogo de cartas marcadas, que sua condenação já estava definida, antes mesmo do processo começar. Rodolfo estanca quase me derrubando:
- “Ué, você bandeou para o lado do Lula, não estou entendendo!”
Procuro um banco, acomodo-me, para melhor expor meu pensamento:

- “Sabe, Rodolfo, sempre procurei manter minha coerência, principalmente em política. Quando jovem, fui lacerdista, depois, estive ao lado do Movimento Cívico – Militar de 1964, a meu juízo, o melhor momento da nossa historia, em termos de desenvolvimento econômico, de seriedade, na condução da coisa pública. Alguns amigos me consideram “de direita”            e meu queridíssimo amigo, José Paulo de Andrade, define-me como da “direita progressista”, expressão que, a meu sentir, coaduna-se mais com minha maneira de pensar e agir. Assim, como “animal político, anseio pela condenação do Lula, como artífice do “petrolão”. Todavia, por outro lado, sou advogado, por convicção, sonho            que acalentei desde a pós meninice, quando abdicava do futebol ou do banho de rio, para acompanhar as sessões do júri, em minha pequena cidade. Completei 50 anos de estrada e nela pretendo morrer. Aprendi – e gravei – a lição do saudoso Hermínio Alberto Marques Porto, honra e glória do Ministério Público Paulista, com quem fiz meu primeiro júri e que me honrou com sua amizade, segundo a qual, absolver ou condenar deve resultar, exclusivamente, da prova dos autos. Então, lembrando mestre Hermínio, não consigo ver nesse malfadado processo do “triplex” do Guarujá, nenhuma prova robusta de que Lula o tenha recebido, sob forma de propina. O apartamento continua em nome da Construtora e a prova produzida contra Lula reduz-se a delações premiadas, que se fragilizam, pelo simples fato de virem de delatores, a esperarem o premio, sob forma de redução de pena. Imaginemos, só pelo amor ao debate, que Lula e a Construtora tenham cogitado em fazer a “tenebrosa transação”. Todavia, não a fizeram, pois não se conhece um único documento, formalizando-a e, como sabemos, na sistemática de nosso direito penal, não se pune a chamada “cogilatio mentis”, isto é, não há crime, enquanto este apenas habita a mente do eventual criminoso. Assim, dentro deste prisma, tecnicamente jurídico, Lula deveria ser absolvido. Confesso, Rodolfo, que, como advogado, sentira um grande alivio se assim acontecesse. Entretanto, não acredito que assim será, vez que o julgamento é, acima de tudo, político e a condenação é exigência do “sistema”, cuja mão estendida é a grande “mídia”, que quer Lula fora da disputa presidencial. Por outro lado, as lideranças petistas cometeram o pecado mortal de insuflar seus correligionários contra os magistrados, que irão julgar Lula. Juiz não admite ser pressionado e muito menos ser ameaçado. Em resumo, Rodolfo, respondendo a sua pergunta: acho que Lula vai ser condenado, mesmo inexistindo prova concreta contra ele, o que será um desserviço à justiça. Condenado, Lula se tornará cadáver insepulto e, dentro da lógica absurda da política brasileira, elegerá qualquer um , que indicar. Para enterrá-lo, de vez, só há um jeito: batê-lo nas urnas... se for este o real desejo do povo brasileiro.      

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Crônica do amor interrompido

Era um acordo tácito: quando queria transar, ela o esperava, banho tomado, usando “L’air du temps”, o perfume preferido dele. Ele chegava, preparava uísque para dois e, quando retornava à sala, a voz quente e rouca de Louis Armstrong ou a suavidade de Françoise Hardy completavam o clima. Dançavam um pouco e, como em balé mágico, deixavam-se levar até o quarto. Tudo com muita calma, como se cada um precisasse descobrir cada parte do outro.  Assim fora durante 20 anos, desde quando se descobriram no “roof” do Hotel Miramar, ela debruçada sobre a murada, contemplando, extasiada, a orla de Copacabana, mais iluminada, naquela noite, pelo brilho da lua cheia que ornamentava o céu. – “Venho aqui, com frequência, e não me canso desta vista, de tirar o fôlego” – disse-lhe ele, como se não tivesse outra intenção, senão puxar conversa. Mas tinha: observava-a, já fazia alguns minutos, ela, morena, alta, pele dourada pelo sol, blusa despretensiosamente amarrada sobre inexistente barriga, saia suficientemente curta, permitindo o surgimento de exuberante par de coxas. Devia ter, no máximo, 30 anos e de seu sorriso brotaram duas quase imperceptíveis covas, quando ele perguntou: - “incomodo você ou alguém que esteja com você?” – “claro que não! Estou com amigos, esta é a primeira vez que venho a esse lugar e estou deslumbrada.” – “O Rio possuí lugares – emendou ele a conversa -, fora da rota de turismo, que surpreendem pela beleza.  Você não quer sentar comigo, naquela mesa de canto, com vista para este mar todo?”. Antes que ela respondesse, ele a tomou pela mão  e a guiou, como o faria pelo resto da vida. Luiz Carlos era profissional bem sucedido, engenheiro de larga linhagem de construtores, que auxiliaram a poluir a paisagem com dezenas de edifícios, espalhados pela orla e mais recentemente, pela Barra. Luiz Carlos não era o que se pode chamar de “homem bonito", mas, aos 40 anos, conservava o corpo de surfista, nascido e criado na beira da praia. Realizado em tudo, menos no amor, do qual se declarava definitivamente mendigo. Gastava todo seu estoque com Maria Clara, paixão de seus 20 anos e que um dia, ou melhor, numa melancólica noite de chuva, apenas lhe disse: - “acabou, Luis Carlos, não quero mais!” Depois de várias e inúteis tentativas de recuperá-la, foi curtir sua tristeza, surfando no Havaí e, ao voltar, quase dois anos depois, encontrou-a gravidíssima, acompanhada do autor da façanha. Refugiou-se no estudo e no trabalho, para alegria do pai. Quando este morreu, vítima de bala perdida, em “arrastão”, no túnel Rebouças, ele assumiu a Construtora. Com esta consolidada, no mercado imobiliário, ele, chegando aos 40 achou que precisava dar um tempo para a vida pessoal. E foi esse  “tempo” que o  levou àquele bar, pequeno, íntimo, situado no último andar do “Miramar”. Aquele local era, para ele, espécie de refúgio: quando o peito apertava, como em doença, subia até lá, pedia uma garrafa de “old parr” -  o uísque preferido do pai – e se deixava olhar Copacabana, vista de cima, alheio às pessoas entorno. Pois naquela noite, de  ela onde surgira, sem qualquer pretensão, não mais que de repente, viu a mulher das coxas torneadas (sempre fora obcecado por coxas). Chama-se Camila, morava em Goiânia e estava de férias, no Rio. Um ano depois, com várias idas a Goiânia, Luiz Carlos convenceu Camila a morarem juntos, no Rio. Uma espécie de “teste drive”,  se se adaptassem um ao outro, formalizariam a relação. O tempo foi passando e, como não tiveram filhos, ficou apenas a relação, cada vez mais intensa, movida, principalmente, pelo sexo, que ardia entre os dois. Aquela noite de segunda-feira, todavia, seria diferente. Luiz Carlos chegou por volta das 10 da noite e, como de hábito, encontrou Camila, banho tomado, rescendendo a perfume, recostada no sofá, coxas maravilhosamente expostas. Luiz Carlos limitou-se a abaixar a vista e se dirigir a seu quarto, trancando a porta. Camila, absolutamente surpresa, aguardou infindáveis minutos, até bater à porta do quarto, de onde saiu Luiz Carlos, com um revólver na mão. Olhando fixo nos olhos dela perguntou: “É verdade que você tem um caso com o salva-vidas da praia do Arpoador?” Camila queria gritar, dizer que era mentira, ou que foram meros encontros de carne, sem amor... mas a voz calou-se na garganta e duas lágrimas dos olhos lhe rolaram. Luiz Carlos, em sepulcral silêncio, foi até a janela, que trazia o mar para dentro da sala, colocou o revólver na boca e acionou o gatilho, espalhando miolos e manchando de vermelho o tapete branco.