segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

As Instituições submetidas



Em qualquer País dito desenvolvido, a Suprema Corte se mantém afastada das contendas políticas e somente é chamada a intervir para dirimir questões jurídicas de alta indagação, envolvendo preservação de direitos, esculpidos na respectiva Constituição. Os magistrados, que integram o mais alto Colegiado, são conhecidos apenas de quem habita o mundo jurídico e nem mesmo a mídia se interessa por eles, a não ser quando temas de relevante importância vêm a debate. Constitui entendimento harmonioso que o juiz deve ser discreto e “falar apenas nos autos”. No Brasil, todavia, o Supremo Tribunal Federal passou a ser verdadeira Corte Política, convidado, até, para se manifestar sobre indicação de Ministro e aplicação do regimento interno da Câmara dos Deputados. Com isto, o princípio da tripartição dos poderes transforma-se em letra apagada, com visível prejuízo para a democracia. É, no mínimo, constrangedor assistirmos ao Dr. Alexandre Moraes percorrer gabinetes de senadores, “cambalachando” votos, como o faz vereador, em campanha, pela periferia. Cabe ao Senado aprovar o nome do candidato, indicado pelo Presidente da República, levando em conta os dois requisitos, estabelecidos pela Lei Maior: notório saber jurídico e ilibada reputação. Todavia, como nossa suprema Corte transformou-se em órgão político, o candidato será avaliado em função de suas posições ideológicas. Os prognósticos feitos pelos jornalistas políticos indicam que Dr. Alexandre terá os votos dos partidos que integram a base do governo e, via de conseqüência, sofrerá o repudio da oposição. “Simples, assim”, como diria Eike Baptista. Se ele, Dr. Alexandre, tem sólida formação jurídica, se escreveu importantes obras sobre temas constitucionais, se possui doutorado pela mais consagrada Universidade do país, nada disto importa. Importa mesmo é saber se ele servirá ou não aos interesses do Planalto, se ele, com a preciosa caneta na mão,   validará ou mandará ao lixo as decisões da “lava jato”. Vimos, no julgamento do impeachment da ex-presidente Dilma, um Ministro da Corte, para favorecê-la, dar à norma constitucional, interpretação que reprovaria desatento estudante de Direito. Não que o Ministro fosse ignorante, mas porque, naquele momento, lá estava como agente político. Essa deturpação das funções do Supremo vem trazendo irreparável prejuízo para o próprio Poder Judiciário, que já não usufrui da confiabilidade do passado. Agora mesmo, discute-se se Moreira Franco pode ou não ser nomeado Ministro, se sua nomeação não seria farsa, para livrá-lo de Sergio Moro. Se o Ministro Celso de Melo decidir pela validade da investidura, por certo será considerado a serviço do Planalto. Poucos questionam se o Supremo tem competência legal para decidir atribuição exclusiva do Presidente da República, que, por isso mesmo, não pode ser usurpada. Ao contrário do que se diz, não considero que a democracia seja “frágil flor que precisa ser constantemente regada”. Na verdade, ela é feita frágil pelos interesses escusos daqueles que têm a função de protegê-la. Ela não é frágil nos Estados Unidos, como não o é na França, apenas para citar dois países, dentre tantas democracias, envolvidas em sangrentos conflitos. Quando se concebeu a “Praça dos 3  Poderes”, pretendeu-se colocá-los no mesmo patamar, próximos, mas ao mesmo tempo, independentes, entre si. Nos governos autoritários, prevalecia o Executivo e, hoje, como efeito nefasto da “lava-jato”, o Judiciário adquiriu supremacia e o magistrado já não tem tempo para “falar nos autos”, porque prefere falar para a Imprensa. Simples, assim!

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Rodolfo, a chuva e meu aniversário



Ontem, Rodolfo me levou às lagrimas. (É o “alemão” se instalando, vaticinou minha esposa). Chego em casa, à noite e a chuva, que caia copiosamente, impede-me de sair do carro. Do lado de dentro, Rodolfo abandonava o conforto de seu abrigo e se posta ao portão, debaixo da chuva, esperando-me entrar. Faço gestos para que ele se recolha, mas ele se limita a olhar-me. Desisto, saio do carro e divido com ele o aguaceiro. Ele, alegre, molha-me o terno, recém-chegado da lavanderia. Eu o abraço também. Carinho tanto, quem pode negar. Hoje na saída, ele me cumprimenta e, indiscretamente, quer saber quantos anos faço e o que ainda pretendo da vida. Respondo-lhe que todos temos 03 idades: a da carteira da identidade, a que imaginamos ter e a que os outros nos atribuem. Mando que ele escolha e guarde a resposta, em silêncio. Quanto ao que pretendo, como estou apressado, digo-lhe que vou pensar no assunto e, depois, conversaremos. Aproveito o espaço do almoço (luto, ingloriamente, para perder uns quilos) para esta reflexão. Na minha sala de trabalho, encontro a resposta. Nela, em forma de retratos, está tudo que valeu a pena viver: a família, solidamente constituída, muito mais pelos méritos de Renata, companheira de uma vida inteira. A fotografia de eu menino, lembrança da infância, quando, voltando do grupo escolar, atirava a pasta no pé de tamarindo, para saborear o azedo fruto. E, aqui ao lado, o nosso time de futebol, todos jovens, sonhadores... e magros e uma saudade enorme do Nelson, amigo desde o primeiro ano que morreu, primeiro, quando se lhe foi a filha adolescente. E a galeria se completa, mostrando o que também de bom tive, meus cachorros, companheiros e confidentes. Enfileirados, de ambos os lados, meus santos protetores, que afastam os perigos e vicissitudes e apascentam minhas angústias, nesta profissão em que se vive a angústia alheia. Descubro, assim, que tenho mais do que esperava ter. Concluo que combati o combate. Se o fiz bem ou mal, aguardarei o julgamento divino. Se não espero o céu – tantos pecados  cometidos, sem arrependimento -, pretensiosamente acho que não mereço o inferno. Talvez um estágio no purgatório. Eis ai, Rodolfo, o que pretendo da vida: encerrá-la da forma a mais digna possível, contando com a misericórdia divina e com o “lobby” de meus santos protetores.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Por causa da Sra. Marisa Letícia Lula da Silva



Como é de notória sabença, pelos que me honram, acompanhando estas mal traçadas linhas, tenho total desapreço pelo lulopetismo, nódoa indelével em nossa melancólica história. Todavia, desapreço ideológico não significa indiscriminado ódio pessoal, sentimento que desconheço, até pela minha formação religiosa. Tantos são amigos, que tenho, dentro do PT, a começar pelo meu irmão, que aqui não haveria espaço para nominá-los. Limito-me a ser dono de “minha verdade” que, até ela, não é definitiva. Definitiva, sim é minha servidão ao Direito que, malgrado infortúnios, é de onde tiro o pão de cada dia. Faço de todos os réus meus clientes e, mesmo tendo chegado à idade provecta, revolto-me, quando constato que o ordenamento jurídico está sendo violado, principalmente quando o é pelos que tem o dever de preservá-lo. Lula é o chefe da “gang”, perseguida pela “lava-jato”? Tem tudo para ser e até acho que seja. Mas, e a prova material do locupletamento ilícito, quando será exibida? Até lá, são meros indícios, a o envolverem a ele e a sua família. Apenas por mera suposição, foram explícitos  o abatimento, a tristeza ininterrupta da esposa e mãe, ao ver o marido e filhos enxovalhados, sempre na iminência  de serem presos, sem culpa formada. Vivemos dias de preocupação para a liberdade. O povo,  impaciente na arquibancada, torce para que o leão vença, porque ele, o povo, se alimenta de sangue. A mídia torce para que o leão vença, porque sangue dá audiência. Entre os torcedores, deles não os há que perguntem se é justo que o lutador seja jogado às feras. Até os juízes que, em nome desta coisa etérea, chamada liberdade e da justiça, que a torna possível, mesmo eles, camuflados em suas honoráveis togas, omitem-se, porque, assim agindo, tornam-se respeitáveis, na visão da turba. Quantas vezes já vimos cena igual e, fingindo-nos cegos, permitimos que esse  melancólico circo de horrores volte a se exibir, tornando-nos, cada dia, menos dignos. “Liberdade, liberdade, para que vos quero” perguntava o poeta. Eu, cá de mim, trôpego assistente dessa ópera bufa, quero-a para que meus filhos e netos vivam em um País, onde haja segurança jurídica, bem tão precioso quanto a própria vida, segurança que foi negada a Dª.  Marisa, esposa e mãe, transformada na primeira vítima fatal do arbítrio. A turba queria um cadáver. Ei-lo, podem aplaudir! Eu, com todo o meu anti-petismo, sinto vergonha e rezo para que ela descanse em paz.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Reflexões Roldofianas em melancólica noite de chuva



Rodolfo anda meio deprimido, nos últimos dias. É que as constantes chuvas, que caem, ao brotar a noite, impedem nossos diários passeios. E, quando ele fica assim, recolhe-se a um canto e, apenas por obrigação, cumprimenta-me, quando chego. Ontem, após o jantar, resolvi procurá-lo para conversar, tirá-lo daquele estado de quase desânimo. Afinal, amizade não é só para verânicos dias de sol. Caia chuva fina, por isso sentei-me na cadeira de vime, embaixo da escada, onde estaríamos, eu e ele, protegidos. Ele se postou a meu lado, ambos em silêncio, eu lhe acariciando o pelo macio. Eternos minutos se passaram, a chuva, como tênue cortina, derramando-se sobre a luz do poste defronte. Seu suspirar mais forte – sinal que aprendi a reconhecer -, indicava que ele começaria a falar. Não deu outra: “sabe,   meu caro, qual é a maior característica de vocês, seres humanos? A hipocrisia, coisa que nós, considerados irracionais, desconhecemos. Eu, por exemplo, não escondo minha preferência, quase amor, pela Nara, que me acolheu, quando cheguei aqui, já lá vão 5 anos. Dos cachorros do fundo, suporto o Clóvis, apesar de ser muito chato, late sem causa. Por outro lado, detesto o Romeu e o Olavo, especialmente este último que, por mais que você queira esconder, é seu preferido. Não me importo com esta preferência, porque sei e reconheço seu carinho por mim, só não divido espaço com eles que, se vierem por aqui, vão levar pau. Sou transparente!” – “você está me chamando de hipócrita, Rodolfo?” – “não exatamente, estou apenas exemplificando. Na verdade, minha reflexão sobre hipocrisia nada tem a ver com você, especificamente, se bem que o vejo contraditório, em relação à “lava-jato”: para uso externo, fazendo o gênero “politicamente correto”, você a aplaude, mas, no particular, você a critica, considera-a revestida de interesses políticos, com ações arbitrarias etc. Todavia, o que quero destacar é o episódio da prisão do Eike Batista. O cara saiu daqui, antes da decretação de sua prisão, saiu normalmente, com passaporte alemão. Se, ao invés de ter ido para os Estados Unidos, tivesse ido para a Alemanha, lá ficaria, livre e solto, porque tem cidadania alemã. Mas o cara voltou, de livre e espontânea vontade, dizendo que queria colaborar com a justiça. No aeroporto de Nova York, foi cercado por brasileiros sorridentes, tirando “selfie” com ele. Quando desembarcou aqui e foi conduzido para o presídio, na periferia do Rio, lá estava o pessoal do “pobrismo” (expressão do filósofo Luiz Felipe Pondé, que é ótima), a vaiá-lo, chamá-lo de ladrão e outras coisas. Ora, se ele podia fugir para a Alemanha, lá ficar, confortavelmente, sem risco de ser preso, mas, mesmo assim, resolveu voltar, precisaria ser preso, ter a cabeça raspada? Você não acha que, no fundo, é essa  aversão que a sociedade tem pelo rico? Quem não gostaria de ter sido casado com a Luma de Oliveira e ter uma “lamborghini!”? Como não conseguem nem uma coisa, nem outra, o “pobrismo” tem orgasmos múltiplos ao ver um rico, como Eike Batista, ser humilhado. Não digo que ele não deva ser punido, se cometeu crimes, mas não podia responder ao processo em liberdade, ou, na pior das hipóteses, em prisão domiciliar, pagando polpuda fiança? Veja como estas coisas funcionam em países desenvolvidos:  o nosso José Maria Marin responde a um processo, movido pela justiça norte-americana, mas está preso, enquanto corre o processo, em seu apartamento na “Trump Tower”, com tornozeleira eletrônica, de onde só pode sair, em condições especialíssimas. Lá, ao contrário daqui, a “presunção da inocência” não fica só no papel. Com certeza, no meio daquele “pobrismo”, que vaiou o Eike Batista, tem traficante, ladrão que furta celular, tudo “pé-de´chinelo”, que nem mesmo sabe porque está se manifestando. E esse “pobrismo” chega até a mídia, principalmente naquela dominada pela esquerda que, derrotada pela história, quer, a todo custo, passar a imagem de que o capitalismo está podre e nosso empresariado, sem exceção, sobrevive pela utilização de métodos escusos. Esquecem, ou melhor, omitem que quem gera a corrupção – eu até diria a necessidade de corromper – é o Estado, que cria emaranhado de regras, nós que, para serem  desatados, só na base da propina. Todos sabemos disto, todos, nas mais diversas  circunstâncias, já tivemos que estender um “pixulé” a um agente público, para resolver ou facilitar a resolução de situação, tornada difícil pela burocracia pública. Agora, fica todo mundo, hipocritamente, fazendo ar de vestal, transformando Sergio Moro em herói nacional e fingindo acreditar que a “lava-jato” vai inaugurar um “novo tempo”. Prenderam empresários, quebraram construtoras, gerado milhares de desemprego, tudo isto em nome da honra nacional, mas o que, na verdade, fizeram foi institucionalizar esta coisa repugnante, chamada “dedurismo”, que, a meu canino juízo, é o câncer moral do ser humano. Arre,  como vocês são desprezíveis!” Ouvi, em silêncio, o discurso do Rodolfo e, como a chuva tivesse dado trégua, soltei-o na rua, para que ele espairecesse um pouco. Depois, entrei, liguei a televisão e fiquei sabendo do novo presidente do Senado, eleito até com o apoio do PT e que Renan tinha se tornado líder do PMDB. Espero que Rodolfo não tenha, ainda, tomado conhecimento da noticia. Na dúvida, evitarei me encontrar com ele, pelos menos até amanhã.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

O sorriso da vingança



Apenas para contar a história, dei a ela o nome de Isabel. Fazia o tipo “mignon”, já passava dos 50, um pouco judiada pelas agruras da vida. Contava-me estar casada, há 25 anos com,  digamos, Maurício. Não tinham filhos, o que, nas circunstâncias atuais, era grande vantagem. O casamento nunca fora uma fogueira e, nos últimos 5 anos, resumia-se a um “bom dia”, “boa noite”, trocados entre duas pessoas que, de comum, só tinham o fato de morarem na mesma casa. Ela trabalhava em uma gráfica e ele ocupava cargo público, no Estado. Nem financeiramente, um dependia do outro. A casa, modesta, era própria e, como jamais saíam, o que ganhavam era mais do que suficiente para tocar a vida. E tocar a vida era o que eles vinham fazendo desde dois anos atrás, quando Maurício teve repentina mudança de comportamento: passou a reclamar de tudo, que a comida estava fria, a roupa mal passada... No princípio, chegou a suspeitar que ele arranjara outra, o que, para ela, nada significava. Quando o questionou sobre isto, ele lhe deu um tapa no rosto, “que ela não ousasse duvidar do caráter dele!”. Outras agressões, a pretexto de nada, se sucederam e, nessas ocasiões, ela ia chorar, trancada no banheiro. Uma colega do trabalho sugeriu-lhe procurar a Delegacia do bairro, ideia logo afastada. Seria colocar mais lenha na fogueira. Dentro dela brotou um sentimento novo, que germinava, com mais intensidade, cada vez que sofria nova agressão: passou a sentir ódio por aquele homem, a quem entregara todos os anos de sua vida e nada recebera em troca, nem mesmo um filho, - “não  quero saber de criança, bagunçando a casa. Só serve pra dar despesas” – ele repetia sempre que ela vinha com a proposta. Um dia, arrumando gavetas, ela descobriu um exame, diagnosticando-o como estéril. Nunca mais tocou no assunto e o sexo foi sepultado por eles. Agora, o que a alimentava era o ódio e a vontade incontida de se vingar dele, dessas vinganças que jamais seriam esquecidas. Certa madrugada,  acordara assustada, como se tivesse recebido mensagem do além. Era sua vingança, perfeita e acabada sem chance para ele, que passaria o resto de sua vida, lembrando-se dela! No dia seguinte, aproveitando o horário do almoço, correu à Delegacia. Foi atendida pela Dra. Ana, lindíssima, educada que, com 20 anos de profissão, tinha percorrido vários distritos policiais, da periferia aos bairros nobres da Capital. Já no terceiro casamento e, apesar das adversidades enfrentadas, era apaixonada pela vida e conhecia as mazelas do ser humano. Ana recebeu Isabel em sua sala, bem arrumada, o retrato da filha – linda – a um canto e, no móvel encostado à parede, uma enorme imagem de São Miguel Arcanjo. Dra. Ana, com habilidade e carinho, acalmou Isabel e, somente após alguns minutos, pediu-lhe que relatasse a razão de sua presença.  – “sabe, doutora, sou casada há 25 anos, não temos filhos,    mas vivemos bem, ou melhor, vivíamos bem. Nos últimos tempos, meu marido ficou agressivo, me bate e repete que vai me matar. Resolvi fazer uma queixa contra ele, porque estou com medo. Ontem, ele falou que tem um plano de me envenenar, vão achar que foi suicídio e ele vai sair limpo!” – “A senhora tem alguma marca de agressão? Podemos instaurar agora mesmo, inquérito contra ele. A senhora já ouviu falar na Lei Maria da Penha?” – “Desculpe, doutora, mas só quero fazer a queixa de ameaça, até porque não tenho nenhuma marca de agressão.” A delegada chamou o escrivão, determinando que se lavrasse o boletim de ocorrência, que reproduziu a história, contada por Isabel. Pela sua experiência concluiu que era mais uma briga de marido e mulher, que seria superada com o tempo. De qualquer maneira, deixaria passar uns dias e intimaria o tal Maurício para prestar esclarecimentos. Na verdade, acabou se esquecendo de Isabel, tantos os casos cabeludos que se sucederam: apreensão de grande quantidade de drogas, pedofilia, 3 roubos, estouro de caixa de banco, tudo isto exigiu esforço concentrado da Delegada e sua equipe. Era uma segunda-feira, começo de expediente, Dra. Ana despachava com o escrivão-chefe, quando o investigador Rui entrou na sala: “desculpe interromper, doutora, mas tem um senhor, bastante nervoso, ao telefone, dizendo que a esposa amanheceu morta. Ana deu um pulo e mandou que a ligação lhe fosse transferida. Quando entrou na linha fez apenas duas perguntas: “qual é  o seu nome e como se chama sua esposa?” Ouviu a resposta que não queria ouvir: “eu me chamo Maurício e minha esposa Isabel”. Com o coração batendo forte, Ana deu-lhe ordem para não ligar para mais ninguém, não mexer em nada, que, em poucos minutos ela chegaria lá, como realmente chegou, ela e o investigador Rui, pessoa de irrestrita confiança, que se tornara seu amigo ou, como dizia a lenda, mais do que seu amigo. A casa, sobrado geminado, estava às escuras e, quando Dra. Ana tocou a campainha, a porta foi aberta por um homem, aspecto físico deplorável, barba por fazer, ainda vestindo surrado pijama: era Maurício, que guiou a Delegada e o investigador escada acima, até o quarto do casal, a recém-morta, barriga para cima, os braços estendidos ao longo do corpo, com indecente sorriso no rosto. – “você mexeu nela ou em alguma coisa?”, perguntou a Delegada. “apenas fechei-lhe os olhos”, respondeu Maurício. Ana conduziu Maurício para o andar abaixo, deixando ao investigador a tarefa de recolher evidências que pudessem elucidar a morte de Isabel. A competência era da Delegacia de Homicídio, mas só a chamaria, depois de conversar com Maurício, a quem pediu que contasse os fatos, sem não antes adverti-lo: “por enquanto, o senhor não é oficialmente suspeito, mas tudo que disser  estarei gravando. Por isso, se quiser se manter em silêncio, é direito seu” – “Não tenho nada para esconder doutora! Eu e Isabel já não vivíamos bem e, nos últimos dias ela andava depressiva. Ontem, depois que cheguei do trabalho, tivemos uma discussão feia, por causa de bobagem, nem jantei, tomei banho, fui deitar e ela ficou na sala, nem vi a hora que foi para o quarto. Quando acordei, hoje cedo, chamei por ela, que não se mexeu, estava fria, escutei o coração, nada. Foi aí que liguei para a Delegacia, desesperado.” A Delegada esperou, sem interromper, a explicação de Maurício e, só então, perguntou: - “nestas brigas constantes, que vocês tiveram, conforme o senhor mesmo está contando, alguma vez o senhor a agrediu?”  - “Que que isto, doutora, sou da paz! Eram brigas, com muitos gritos, mas sem agressão.” – “O senhor tem ou teve outras mulheres, durante o casamento, seu Maurício?”, quis saber a delegada. Absurdamente constrangido, voz trêmula, ele respondeu: “sabe doutora, faz muito tempo, pelo menos uns dois anos ou mais, que eu e  Isabel não tínhamos relações sexuais. No princípio, eu a procurava e ela sempre me afastava, com uma desculpa qualquer. Estou com 55 anos, ainda tenho minhas necessidades. Então, faz alguns meses comecei a sair com uma colega de trabalho, estamos nos gostando. Estava esperando o momento certo para conversar com Isabel, a gente se separar, não fazia sentido continuar juntos se odiando, se magoando...” De repente, o investigador Rui, descendo as escadas e carregando um pequeno saco, com alguns objetos, chamou a Delegada, em particular. Dentro do saco, a meio alguns pertences da falecida, havia 3 caixas vazias de “lexotan” 6 mg e um copo. A Delegada recolheu tudo, telefonou providenciando a remoção do corpo para o IML e, após a saída do mesmo, levou Maurício para a Delegacia, a fim de prestar depoimento formal, que, quase por inteiro, reproduziu a conversa gravada. A Dra. Ana apenas quis saber se Isabel tomava remédio para dormir, o que foi negado por Maurício, recomendado a não sair da cidade, sem conhecimento da Delegada. Uma semana depois chegou o resultado da autópsia: Isabel tinha morrido, após ingerir 30 comprimidos de “lexotan”, que tinham sido dissolvidos em meio copo d’agua. A perícia, realizada no copo, indicava a presença das impressões digitais de Maurício. E, para completar, a receita, com que o “tarja preta” foi comprado,  estava em nome de Maurício Antunes dos Santos. Era uma ensolarada manhã de sábado. Como de costume, Maurício abriu a porta de casa para ir à padaria, quando foi abordado  e algemado pela Delegada Ana, que lhe exibiu mandado de prisão preventiva. Estava sendo acusado de ter matado a mulher. Gritou, chorou, dizendo-se inocente, que nunca matara, nem mesmo barata. Ficou preso 3 meses, até terminar o Inquérito. Foi denunciado por homicídio, triplamente qualificado: motivo torpe (queria se livrar da esposa para ficar com a amante), emprego de veneno e com recurso que impossibilitou a defesa da vitima. A pena podia chegar a 30 anos de reclusão. Os vizinhos depuseram contra ele, dizendo ouvir discussões, sempre os gritos dele e choro de mulher. Nem seu advogado acreditava nele e dizia que ia lutar para que a pena não fosse alta, mas que ele não esperasse menos de 15 anos de prisão. Foi-lhe concedido direito de esperar o julgamento, em liberdade. Ele, somente ele, sabia ser inocente. Revoltado, mudou de bairro. Os vizinhos o desprezavam, olhavam-no, como se fosse um verme. Na repartição, fora colocado a um canto, transformado em inútil. Tirou férias e depois licença premio. Numa segunda-feira, jogado no sofá, vendo televisão seu advogado liga para avisar que o julgamento estava marcado: seria em 02 meses. O inferno, que havia se amainado, voltou a arder com intensidade. Seria jogado em prisão fétida, onde passaria talvez, o resto de sua vida, por crime que não cometera. Saiu, andando sem rumo, quando de repente, viu-se à porta do “Copan”, um dos edifícios mais altos da cidade. Subiu até a cobertura e, ao lado de um casal de namorados que, entre carinhos, contemplava a paisagem, subiu na sacada e voou em direção à liberdade.
Corta para o dia anterior à morte de Isabel: Maurício, de vez em quando, tomava remédio para dormir. Ela encontrou, na gaveta onde ele guardava documentos, um receituário de 3 caixas de “lexotan”, 6 mg, já preenchido, que foi comprado, em farmácia do centro, pelo motoboy da empresa. Seu plano de vingança surgiu, pronto. À
 noite, ela e Maurício tiveram áspero bate-boca, porque a salada, segundo ele, estava sem gosto. Ele, deixando a mesa sem comer, saiu xingando em direção ao quarto, cuja porta bateu com força. Ela ficou na sala, olhando a televisão, sem ver. Sua cabeça girava em torno do plano de vingança. Notou que sobre a mesa, a meio à comida mal tocada, Maurício deixara o copo d’agua, bebido pela metade. O plano de vingança se completava: cuidadosamente, segurou o copo, usando um guardanapo e o levou para a copa. Derreteu todos os comprimidos na água, bebendo seu conteúdo de um único gole. Adormeceu com doce sorriso nos lábios... o sorriso da vingança.