Em qualquer País dito desenvolvido, a Suprema Corte se mantém
afastada das contendas políticas e somente é chamada a intervir para dirimir
questões jurídicas de alta indagação, envolvendo preservação de direitos,
esculpidos na respectiva Constituição. Os magistrados, que integram o mais alto
Colegiado, são conhecidos apenas de quem habita o mundo jurídico e nem mesmo a
mídia se interessa por eles, a não ser quando temas de relevante importância
vêm a debate. Constitui entendimento harmonioso que o juiz deve ser discreto e
“falar apenas nos autos”. No Brasil, todavia,
o Supremo Tribunal Federal passou a ser verdadeira Corte Política, convidado,
até, para se manifestar sobre indicação de Ministro e aplicação do regimento
interno da Câmara dos Deputados. Com isto, o princípio da tripartição dos
poderes transforma-se em letra apagada, com visível prejuízo para a democracia.
É, no mínimo, constrangedor assistirmos ao Dr. Alexandre Moraes percorrer
gabinetes de senadores, “cambalachando”
votos, como o faz vereador, em campanha, pela periferia. Cabe ao Senado aprovar
o nome do candidato, indicado pelo Presidente da República, levando em conta os
dois requisitos, estabelecidos pela Lei Maior: notório saber jurídico e ilibada
reputação. Todavia, como nossa suprema Corte transformou-se em órgão político,
o candidato será avaliado em função de suas posições ideológicas. Os
prognósticos feitos pelos jornalistas políticos indicam que Dr. Alexandre terá
os votos dos partidos que integram a base do governo e, via de conseqüência,
sofrerá o repudio da oposição. “Simples,
assim”, como diria Eike Baptista. Se ele, Dr. Alexandre, tem sólida
formação jurídica, se escreveu importantes obras sobre temas constitucionais,
se possui doutorado pela mais consagrada Universidade do país, nada disto
importa. Importa mesmo é saber se ele servirá ou não aos interesses do
Planalto, se ele, com a preciosa caneta na mão, validará ou mandará ao lixo as decisões da “lava jato”. Vimos, no julgamento do
impeachment da ex-presidente Dilma, um Ministro da Corte, para favorecê-la, dar
à norma constitucional, interpretação que reprovaria desatento estudante de
Direito. Não que o Ministro fosse ignorante, mas porque, naquele momento, lá
estava como agente político. Essa deturpação das funções do Supremo vem
trazendo irreparável prejuízo para o próprio Poder Judiciário, que já não
usufrui da confiabilidade do passado. Agora mesmo, discute-se se Moreira Franco
pode ou não ser nomeado Ministro, se sua nomeação não seria farsa, para
livrá-lo de Sergio Moro. Se o Ministro Celso de Melo decidir pela validade da
investidura, por certo será considerado a serviço do Planalto. Poucos
questionam se o Supremo tem competência legal para decidir atribuição exclusiva
do Presidente da República, que, por isso mesmo, não pode ser usurpada. Ao
contrário do que se diz, não considero que a democracia seja “frágil flor que precisa ser constantemente
regada”. Na verdade, ela é feita frágil pelos interesses escusos daqueles
que têm a função de protegê-la. Ela não é frágil nos Estados Unidos, como não o
é na França, apenas para citar dois países, dentre tantas democracias,
envolvidas em sangrentos conflitos. Quando se concebeu a “Praça dos 3 Poderes”, pretendeu-se colocá-los no mesmo
patamar, próximos, mas ao mesmo tempo, independentes, entre si. Nos governos
autoritários, prevalecia o Executivo e, hoje, como efeito nefasto da “lava-jato”, o Judiciário adquiriu
supremacia e o magistrado já não tem tempo para “falar nos autos”, porque prefere falar para a Imprensa. Simples,
assim!
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017
terça-feira, 7 de fevereiro de 2017
Rodolfo, a chuva e meu aniversário
Ontem, Rodolfo me levou às lagrimas. (É o “alemão” se instalando, vaticinou minha
esposa). Chego em casa, à noite e a chuva, que caia copiosamente, impede-me de
sair do carro. Do lado de dentro, Rodolfo abandonava o conforto de seu abrigo e
se posta ao portão, debaixo da chuva, esperando-me entrar. Faço gestos para que
ele se recolha, mas ele se limita a olhar-me. Desisto, saio do carro e divido
com ele o aguaceiro. Ele, alegre, molha-me o terno, recém-chegado da
lavanderia. Eu o abraço também. Carinho tanto, quem pode negar. Hoje na saída,
ele me cumprimenta e, indiscretamente, quer saber quantos anos faço e o que
ainda pretendo da vida. Respondo-lhe que todos temos 03 idades: a da carteira
da identidade, a que imaginamos ter e a que os outros nos atribuem. Mando que
ele escolha e guarde a resposta, em silêncio. Quanto ao que pretendo, como
estou apressado, digo-lhe que vou pensar no assunto e, depois, conversaremos.
Aproveito o espaço do almoço (luto, ingloriamente, para perder uns quilos) para
esta reflexão. Na minha sala de trabalho, encontro a resposta. Nela, em forma
de retratos, está tudo que valeu a pena viver: a família, solidamente
constituída, muito mais pelos méritos de Renata, companheira de uma vida
inteira. A fotografia de eu menino, lembrança da infância, quando, voltando do
grupo escolar, atirava a pasta no pé de tamarindo, para saborear o azedo fruto.
E, aqui ao lado, o nosso time de futebol, todos jovens, sonhadores... e magros
e uma saudade enorme do Nelson, amigo desde o primeiro ano que morreu,
primeiro, quando se lhe foi a filha adolescente. E a galeria se completa,
mostrando o que também de bom tive, meus cachorros, companheiros e confidentes.
Enfileirados, de ambos os lados, meus santos protetores, que afastam os perigos
e vicissitudes e apascentam minhas angústias, nesta profissão em que se vive a
angústia alheia. Descubro, assim, que tenho mais do que esperava ter. Concluo
que combati o combate. Se o fiz bem ou mal, aguardarei o julgamento divino. Se
não espero o céu – tantos pecados cometidos,
sem arrependimento -, pretensiosamente acho que não mereço o inferno. Talvez um
estágio no purgatório. Eis ai, Rodolfo, o que pretendo da vida: encerrá-la da
forma a mais digna possível, contando com a misericórdia divina e com o “lobby” de meus santos protetores.
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017
Por causa da Sra. Marisa Letícia Lula da Silva
Como é de notória sabença, pelos que me honram, acompanhando
estas mal traçadas linhas, tenho total desapreço pelo lulopetismo, nódoa
indelével em nossa melancólica história. Todavia, desapreço ideológico não
significa indiscriminado ódio pessoal, sentimento que desconheço, até pela
minha formação religiosa. Tantos são amigos, que tenho, dentro do PT, a começar
pelo meu irmão, que aqui não haveria espaço para nominá-los. Limito-me a ser
dono de “minha verdade” que, até ela,
não é definitiva. Definitiva, sim é minha servidão ao Direito que, malgrado
infortúnios, é de onde tiro o pão de cada dia. Faço de todos os réus meus
clientes e, mesmo tendo chegado à idade provecta, revolto-me, quando constato
que o ordenamento jurídico está sendo violado, principalmente quando o é pelos
que tem o dever de preservá-lo. Lula é o chefe da “gang”, perseguida pela “lava-jato”? Tem tudo para ser e até acho
que seja. Mas, e a prova material do locupletamento ilícito, quando será exibida?
Até lá, são meros indícios, a o envolverem a ele e a sua família. Apenas por
mera suposição, foram explícitos o
abatimento, a tristeza ininterrupta da esposa e mãe, ao ver o marido e filhos
enxovalhados, sempre na iminência de
serem presos, sem culpa formada. Vivemos dias de preocupação para a liberdade.
O povo, impaciente na arquibancada,
torce para que o leão vença, porque ele, o povo, se alimenta de sangue. A mídia
torce para que o leão vença, porque sangue dá audiência. Entre os torcedores, deles
não os há que perguntem se é justo que o lutador seja jogado às feras. Até os
juízes que, em nome desta coisa etérea, chamada liberdade e da justiça, que a
torna possível, mesmo eles, camuflados em suas honoráveis togas, omitem-se,
porque, assim agindo, tornam-se respeitáveis, na visão da turba. Quantas vezes já
vimos cena igual e, fingindo-nos cegos, permitimos que esse melancólico circo de horrores volte a se
exibir, tornando-nos, cada dia, menos dignos. “Liberdade, liberdade, para que vos quero” perguntava o poeta. Eu,
cá de mim, trôpego assistente dessa ópera bufa, quero-a para que meus filhos e
netos vivam em um País, onde haja segurança jurídica, bem tão precioso quanto a
própria vida, segurança que foi negada a Dª.
Marisa, esposa e mãe, transformada na primeira vítima fatal do arbítrio.
A turba queria um cadáver. Ei-lo, podem aplaudir! Eu, com todo o meu
anti-petismo, sinto vergonha e rezo para que ela descanse em paz.
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017
Reflexões Roldofianas em melancólica noite de chuva
Rodolfo anda meio deprimido, nos últimos dias. É que as
constantes chuvas, que caem, ao brotar a noite, impedem nossos diários
passeios. E, quando ele fica assim, recolhe-se a um canto e, apenas por
obrigação, cumprimenta-me, quando chego. Ontem, após o jantar, resolvi
procurá-lo para conversar, tirá-lo daquele estado de quase desânimo. Afinal,
amizade não é só para verânicos dias de sol. Caia chuva fina, por isso
sentei-me na cadeira de vime, embaixo da escada, onde estaríamos, eu e ele,
protegidos. Ele se postou a meu lado, ambos em silêncio, eu lhe acariciando o
pelo macio. Eternos minutos se passaram, a chuva, como tênue cortina,
derramando-se sobre a luz do poste defronte. Seu suspirar mais forte – sinal
que aprendi a reconhecer -, indicava que ele começaria a falar. Não deu outra:
“sabe, meu caro, qual é a maior característica de
vocês, seres humanos? A hipocrisia, coisa que nós, considerados irracionais,
desconhecemos. Eu, por exemplo, não escondo minha preferência, quase amor, pela
Nara, que me acolheu, quando cheguei aqui, já lá vão 5 anos. Dos cachorros do
fundo, suporto o Clóvis, apesar de ser muito chato, late sem causa. Por outro
lado, detesto o Romeu e o Olavo, especialmente este último que, por mais que
você queira esconder, é seu preferido. Não me importo com esta preferência,
porque sei e reconheço seu carinho por mim, só não divido espaço com eles que,
se vierem por aqui, vão levar pau. Sou transparente!” – “você está me chamando de hipócrita, Rodolfo?”
– “não exatamente, estou apenas
exemplificando. Na verdade, minha reflexão sobre hipocrisia nada tem a ver com
você, especificamente, se bem que o vejo contraditório, em relação à
“lava-jato”: para uso externo, fazendo o gênero “politicamente correto”, você a
aplaude, mas, no particular, você a critica, considera-a revestida de
interesses políticos, com ações arbitrarias etc. Todavia, o que quero destacar
é o episódio da prisão do Eike Batista. O cara saiu daqui, antes da decretação
de sua prisão, saiu normalmente, com passaporte alemão. Se, ao invés de ter ido
para os Estados Unidos, tivesse ido para a Alemanha, lá ficaria, livre e solto,
porque tem cidadania alemã. Mas o cara voltou, de livre e espontânea vontade,
dizendo que queria colaborar com a justiça. No aeroporto de Nova York, foi
cercado por brasileiros sorridentes, tirando “selfie” com ele. Quando
desembarcou aqui e foi conduzido para o presídio, na periferia do Rio, lá
estava o pessoal do “pobrismo” (expressão do filósofo Luiz Felipe Pondé, que é
ótima), a vaiá-lo, chamá-lo de ladrão e outras coisas. Ora, se ele podia fugir
para a Alemanha, lá ficar, confortavelmente, sem risco de ser preso, mas, mesmo
assim, resolveu voltar, precisaria ser preso, ter a cabeça raspada? Você não
acha que, no fundo, é essa aversão que a
sociedade tem pelo rico? Quem não gostaria de ter sido casado com a Luma de
Oliveira e ter uma “lamborghini!”? Como não conseguem nem uma coisa, nem outra,
o “pobrismo” tem orgasmos múltiplos ao ver um rico, como Eike Batista, ser
humilhado. Não digo que ele não deva ser punido, se cometeu crimes, mas não
podia responder ao processo em liberdade, ou, na pior das hipóteses, em prisão
domiciliar, pagando polpuda fiança? Veja como estas coisas funcionam em países
desenvolvidos: o nosso José Maria Marin
responde a um processo, movido pela justiça norte-americana, mas está preso,
enquanto corre o processo, em seu apartamento na “Trump Tower”, com
tornozeleira eletrônica, de onde só pode sair, em condições especialíssimas.
Lá, ao contrário daqui, a “presunção da inocência” não fica só no papel. Com
certeza, no meio daquele “pobrismo”, que vaiou o Eike Batista, tem traficante,
ladrão que furta celular, tudo “pé-de´chinelo”, que nem mesmo sabe porque está
se manifestando. E esse “pobrismo” chega até a mídia, principalmente naquela
dominada pela esquerda que, derrotada pela história, quer, a todo custo, passar
a imagem de que o capitalismo está podre e nosso empresariado, sem exceção,
sobrevive pela utilização de métodos escusos. Esquecem, ou melhor, omitem que
quem gera a corrupção – eu até diria a necessidade de corromper – é o Estado,
que cria emaranhado de regras, nós que, para serem desatados, só na base da propina. Todos
sabemos disto, todos, nas mais diversas
circunstâncias, já tivemos que estender um “pixulé” a um agente público,
para resolver ou facilitar a resolução de situação, tornada difícil pela
burocracia pública. Agora, fica todo mundo, hipocritamente, fazendo ar de
vestal, transformando Sergio Moro em herói nacional e fingindo acreditar que a
“lava-jato” vai inaugurar um “novo tempo”. Prenderam empresários, quebraram
construtoras, gerado milhares de desemprego, tudo isto em nome da honra
nacional, mas o que, na verdade, fizeram foi institucionalizar esta coisa
repugnante, chamada “dedurismo”, que, a meu canino juízo, é o câncer moral do
ser humano. Arre, como vocês são
desprezíveis!” Ouvi, em silêncio, o discurso do Rodolfo e, como a chuva
tivesse dado trégua, soltei-o na rua, para que ele espairecesse um pouco.
Depois, entrei, liguei a televisão e fiquei sabendo do novo presidente do
Senado, eleito até com o apoio do PT e que Renan tinha se tornado líder do
PMDB. Espero que Rodolfo não tenha, ainda, tomado conhecimento da noticia. Na
dúvida, evitarei me encontrar com ele, pelos menos até amanhã.
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017
O sorriso da vingança
Apenas para contar a história, dei a ela o nome de Isabel.
Fazia o tipo “mignon”, já passava dos
50, um pouco judiada pelas agruras da vida. Contava-me estar casada, há 25 anos
com, digamos, Maurício. Não tinham
filhos, o que, nas circunstâncias atuais, era grande vantagem. O casamento
nunca fora uma fogueira e, nos últimos 5 anos, resumia-se a um “bom dia”, “boa noite”, trocados entre duas pessoas que, de comum, só tinham o
fato de morarem na mesma casa. Ela trabalhava em uma gráfica e ele ocupava
cargo público, no Estado. Nem financeiramente, um dependia do outro. A casa,
modesta, era própria e, como jamais saíam, o que ganhavam era mais do que
suficiente para tocar a vida. E tocar a vida era o que eles vinham fazendo
desde dois anos atrás, quando Maurício teve repentina mudança de comportamento:
passou a reclamar de tudo, que a comida estava fria, a roupa mal passada... No
princípio, chegou a suspeitar que ele arranjara outra, o que, para ela, nada
significava. Quando o questionou sobre isto, ele lhe deu um tapa no rosto, “que ela não ousasse duvidar do caráter dele!”.
Outras agressões, a pretexto de nada, se sucederam e, nessas ocasiões, ela ia
chorar, trancada no banheiro. Uma colega do trabalho sugeriu-lhe procurar a
Delegacia do bairro, ideia logo afastada. Seria colocar mais lenha na fogueira.
Dentro dela brotou um sentimento novo, que germinava, com mais intensidade,
cada vez que sofria nova agressão: passou a sentir ódio por aquele homem, a
quem entregara todos os anos de sua vida e nada recebera em troca, nem mesmo um
filho, - “não quero saber de criança, bagunçando a casa. Só
serve pra dar despesas” – ele repetia sempre que ela vinha com a proposta.
Um dia, arrumando gavetas, ela descobriu um exame, diagnosticando-o como
estéril. Nunca mais tocou no assunto e o sexo foi sepultado por eles. Agora, o
que a alimentava era o ódio e a vontade incontida de se vingar dele, dessas
vinganças que jamais seriam esquecidas. Certa madrugada, acordara assustada, como se tivesse recebido
mensagem do além. Era sua vingança, perfeita e acabada sem chance para ele, que
passaria o resto de sua vida, lembrando-se dela! No dia seguinte, aproveitando
o horário do almoço, correu à Delegacia. Foi atendida pela Dra. Ana,
lindíssima, educada que, com 20 anos de profissão, tinha percorrido vários
distritos policiais, da periferia aos bairros nobres da Capital. Já no terceiro
casamento e, apesar das adversidades enfrentadas, era apaixonada pela vida e
conhecia as mazelas do ser humano. Ana recebeu Isabel em sua sala, bem
arrumada, o retrato da filha – linda – a um canto e, no móvel encostado à
parede, uma enorme imagem de São Miguel Arcanjo. Dra. Ana, com habilidade e
carinho, acalmou Isabel e, somente após alguns minutos, pediu-lhe que relatasse
a razão de sua presença. – “sabe, doutora, sou casada há 25 anos, não
temos filhos, mas
vivemos bem, ou melhor, vivíamos bem. Nos últimos tempos, meu marido ficou
agressivo, me bate e repete que vai me matar. Resolvi fazer uma queixa contra
ele, porque estou com medo. Ontem, ele falou que tem um plano de me envenenar,
vão achar que foi suicídio e ele vai sair limpo!” – “A senhora tem alguma marca de agressão? Podemos instaurar agora mesmo,
inquérito contra ele. A senhora já ouviu falar na Lei Maria da Penha?” – “Desculpe, doutora, mas só quero fazer a
queixa de ameaça, até porque não tenho nenhuma marca de agressão.” A
delegada chamou o escrivão, determinando que se lavrasse o boletim de
ocorrência, que reproduziu a história, contada por Isabel. Pela sua experiência
concluiu que era mais uma briga de marido e mulher, que seria superada com o
tempo. De qualquer maneira, deixaria passar uns dias e intimaria o tal Maurício
para prestar esclarecimentos. Na verdade, acabou se esquecendo de Isabel,
tantos os casos cabeludos que se sucederam: apreensão de grande quantidade de
drogas, pedofilia, 3 roubos, estouro de caixa de banco, tudo isto exigiu
esforço concentrado da Delegada e sua equipe. Era uma segunda-feira, começo de
expediente, Dra. Ana despachava com o escrivão-chefe, quando o investigador Rui
entrou na sala: “desculpe interromper, doutora, mas tem um senhor, bastante
nervoso, ao telefone, dizendo que a esposa amanheceu morta. Ana deu um pulo e
mandou que a ligação lhe fosse transferida. Quando entrou na linha fez apenas
duas perguntas: “qual é o seu nome e como se chama sua esposa?”
Ouviu a resposta que não queria ouvir: “eu
me chamo Maurício e minha esposa Isabel”. Com o coração batendo forte, Ana
deu-lhe ordem para não ligar para mais ninguém, não mexer em nada, que, em
poucos minutos ela chegaria lá, como realmente chegou, ela e o investigador
Rui, pessoa de irrestrita confiança, que se tornara seu amigo ou, como dizia a
lenda, mais do que seu amigo. A casa, sobrado geminado, estava às escuras e,
quando Dra. Ana tocou a campainha, a porta foi aberta por um homem, aspecto
físico deplorável, barba por fazer, ainda vestindo surrado pijama: era Maurício,
que guiou a Delegada e o investigador escada acima, até o quarto do casal, a
recém-morta, barriga para cima, os braços estendidos ao longo do corpo, com
indecente sorriso no rosto. – “você mexeu
nela ou em alguma coisa?”, perguntou a Delegada. “apenas fechei-lhe os olhos”, respondeu Maurício. Ana conduziu
Maurício para o andar abaixo, deixando ao investigador a tarefa de recolher
evidências que pudessem elucidar a morte de Isabel. A competência era da
Delegacia de Homicídio, mas só a chamaria, depois de conversar com Maurício, a
quem pediu que contasse os fatos, sem não antes adverti-lo: “por enquanto, o
senhor não é oficialmente suspeito, mas tudo que disser estarei gravando. Por isso, se quiser se
manter em silêncio, é direito seu” – “Não
tenho nada para esconder doutora! Eu e Isabel já não vivíamos bem e, nos
últimos dias ela andava depressiva. Ontem, depois que cheguei do trabalho,
tivemos uma discussão feia, por causa de bobagem, nem jantei, tomei banho, fui
deitar e ela ficou na sala, nem vi a hora que foi para o quarto. Quando
acordei, hoje cedo, chamei por ela, que não se mexeu, estava fria, escutei o
coração, nada. Foi aí que liguei para a Delegacia, desesperado.” A Delegada
esperou, sem interromper, a explicação de Maurício e, só então, perguntou: - “nestas brigas constantes, que vocês tiveram,
conforme o senhor mesmo está contando, alguma vez o senhor a agrediu?” - “Que
que isto, doutora, sou da paz! Eram brigas, com muitos gritos, mas sem agressão.”
– “O senhor tem ou teve outras mulheres,
durante o casamento, seu Maurício?”, quis saber a delegada. Absurdamente
constrangido, voz trêmula, ele respondeu: “sabe
doutora, faz muito tempo, pelo menos uns dois anos ou mais, que eu e Isabel não tínhamos relações sexuais. No
princípio, eu a procurava e ela sempre me afastava, com uma desculpa qualquer.
Estou com 55 anos, ainda tenho minhas necessidades. Então, faz alguns meses
comecei a sair com uma colega de trabalho, estamos nos gostando. Estava esperando
o momento certo para conversar com Isabel, a gente se separar, não fazia
sentido continuar juntos se odiando, se magoando...” De repente, o
investigador Rui, descendo as escadas e carregando um pequeno saco, com alguns
objetos, chamou a Delegada, em particular. Dentro do saco, a meio alguns
pertences da falecida, havia 3 caixas vazias de “lexotan” 6 mg e um copo. A Delegada recolheu tudo, telefonou
providenciando a remoção do corpo para o IML e, após a saída do mesmo, levou
Maurício para a Delegacia, a fim de prestar depoimento formal, que, quase por
inteiro, reproduziu a conversa gravada. A Dra. Ana apenas quis saber se Isabel
tomava remédio para dormir, o que foi negado por Maurício, recomendado a não
sair da cidade, sem conhecimento da Delegada. Uma semana depois chegou o
resultado da autópsia: Isabel tinha morrido, após ingerir 30 comprimidos de “lexotan”, que tinham sido dissolvidos em
meio copo d’agua. A perícia, realizada no copo, indicava a presença das
impressões digitais de Maurício. E, para completar, a receita, com que o “tarja preta” foi comprado, estava em nome de Maurício Antunes dos
Santos. Era uma ensolarada manhã de sábado. Como de costume, Maurício abriu a
porta de casa para ir à padaria, quando foi abordado e algemado pela Delegada Ana, que lhe exibiu
mandado de prisão preventiva. Estava sendo acusado de ter matado a mulher.
Gritou, chorou, dizendo-se inocente, que nunca matara, nem mesmo barata. Ficou preso
3 meses, até terminar o Inquérito. Foi denunciado por homicídio, triplamente
qualificado: motivo torpe (queria se livrar da esposa para ficar com a amante),
emprego de veneno e com recurso que impossibilitou a defesa da vitima. A pena
podia chegar a 30 anos de reclusão. Os vizinhos depuseram contra ele, dizendo
ouvir discussões, sempre os gritos dele e choro de mulher. Nem seu advogado
acreditava nele e dizia que ia lutar para que a pena não fosse alta, mas que
ele não esperasse menos de 15 anos de prisão. Foi-lhe concedido direito de
esperar o julgamento, em liberdade. Ele, somente ele, sabia ser inocente.
Revoltado, mudou de bairro. Os vizinhos o desprezavam, olhavam-no, como se
fosse um verme. Na repartição, fora colocado a um canto, transformado em
inútil. Tirou férias e depois licença premio. Numa segunda-feira, jogado no
sofá, vendo televisão seu advogado liga para avisar que o julgamento estava
marcado: seria em 02 meses. O inferno, que havia se amainado, voltou a arder
com intensidade. Seria jogado em prisão fétida, onde passaria talvez, o resto
de sua vida, por crime que não cometera. Saiu, andando sem rumo, quando de
repente, viu-se à porta do “Copan”,
um dos edifícios mais altos da cidade. Subiu até a cobertura e, ao lado de um
casal de namorados que, entre carinhos, contemplava a paisagem, subiu na sacada
e voou em direção à liberdade.
Corta para o dia
anterior à morte de Isabel: Maurício, de vez em quando, tomava remédio para dormir. Ela encontrou,
na gaveta onde ele guardava documentos, um receituário de 3 caixas de “lexotan”, 6 mg, já preenchido, que foi
comprado, em farmácia do centro, pelo motoboy da empresa. Seu plano de vingança
surgiu, pronto. À
noite, ela e Maurício
tiveram áspero bate-boca, porque a salada, segundo ele, estava sem gosto. Ele,
deixando a mesa sem comer, saiu xingando em direção ao quarto, cuja porta bateu
com força. Ela ficou na sala, olhando a televisão, sem ver. Sua cabeça girava
em torno do plano de vingança. Notou que sobre a mesa, a meio à comida mal tocada,
Maurício deixara o copo d’agua, bebido pela metade. O plano de vingança se
completava: cuidadosamente, segurou o copo, usando um guardanapo e o levou para
a copa. Derreteu todos os comprimidos na água, bebendo seu conteúdo de um único
gole. Adormeceu com doce sorriso nos lábios... o sorriso da vingança.
Assinar:
Postagens (Atom)