Apesar de não ser economista e ter dificuldade para gerir as
próprias finanças, arrisco-me a tecer considerações sobre as reformas,
propostas pelo Presidente Temer, para tirar o País do atoleiro, em que o
petismo nos enfiou. Ninguém duvida que a retomada do crescimento, em
circunstâncias tão adversas, exigirá sacrifício de todos os segmentos sociais
e, neste sentido, ouso dizer que as reformas propostas foram tímidas. Como o
próprio Temer declarou, em entrevista ao ‘’Fantástico’’,
já que não pretende ele ser candidato em 2018, pode se dar ao luxo de ser
impopular, desde que, é claro, essa impopularidade decorra de medidas, que
reequilibre a economia do Brasil. Assim, por que não apresentar um pacote de
privatização de empresas públicas que, além de reduzir o custo da máquina
administrativa, captaria recursos para os cofres públicos? Não seria hora, por
exemplo, de Pedro Parente, com sua incontestável competência, avaliar a
possibilidade de fatiar a Petrobrás, alienando subsidiarias, sem que isto
implique na quebra do monopólio estatal? Não seria o momento de, através de
concessões, juridicamente seguras, transferir à iniciativa privada a exploração
dos portos e aeroportos? No que concerne às reformas, limitou-se o plano à da
previdência, esquecendo-se de que a flexibilização das relações de trabalho,
talvez seja o caminho mais rápido para a geração de empregos. Qualquer
empresário sabe que o ‘’custo
trabalhista’’ é o maior óbice para novos investimentos. O Brasil é campeão
mundial em reclamações trabalhistas, em grande numero forjadas, em suas
reivindicações, transformadas em verdadeira indústria, por advogados
inescrupulosos e por uma justiça especializada que, 70 anos passados da edição
da CLT, ainda considera o empregador, meliante e o empregado, ‘’hipossuficiente’’. Não seria a
oportunidade de, tal qual acontece nos países desenvolvidos, transferir para os
respectivos sindicatos, patronal e laboral, a definição das relações de
trabalho, que passariam a ter força de lei, insuscetível de serem remetidas ao
Poder Judiciário Trabalhista? É absurdamente ilógico que uma rescisão de
contrato de trabalho, homologada em sindicato, ou na própria unidade local do
Ministério do Trabalho, ainda possa ser submetida, com novas reivindicações, à
Justiça Laboral. A essa excrescência dá-se o nome – e outro não há – de
insegurança jurídica. De larga data, não mais advogo naquele ramo do Direito,
mas, quando lá atuei, orientava meus clientes a só pagarem verbas rescisórias,
nas decorrentes reclamações trabalhistas. Podia ser injusto para o empregado
dispensado, mas era caminho seguro, a impedir surpresas, que geravam custos não
previstos. Também seria o momento de se propor uma reforma tributária que, de
forma justa, alimentasse o caixa do Estado. Por que não a CPMF, o mais
democrático dos tributos, porque trata desigualmente os desiguais, de modo que
quem movimenta mais ativos financeiros, paga mais e quem movimenta menos, paga
menos? Por que não aumentar a alíquota de produtos supérfluos, como cigarro,
bebida, artigos de luxo e reduzir a de produtos de consumo popular? Não é hora
de meias medidas, que não vão trazer resultados eficazes e de curto prazo. O
BNDES vai devolver 100 bilhões ao Tesouro Nacional? Ótimo, mas de onde vai sair
essa dinheirama e em que prazo vai ocorrer tal devolução? O governo Temer tem
prazo de validade pré-fixado: 180 dias e nem o mais horripilante pesadelo nos
faz imaginar ter Dilma e sua gangue de volta. Melhor, até, fora sonhar que
estamos na Venezuela.
quarta-feira, 25 de maio de 2016
segunda-feira, 23 de maio de 2016
Brasil: hora de superação das dificuldades
O presidente Temer começa a enfrentar dificuldades para
colocar o País nos eixos, depois de 13 anos de incompetência e
irresponsabilidade petista. Revelado o real tamanho do rombo – 170 bilhões -,
duas soluções se impõem, com absoluta urgência: enxugamento da maquina
administração e efetivação de algumas reformas, como, por exemplo, a da
previdência, reformas estas que nunca saíram do discurso. Pois o Presidente
começou por reduzir o numero de Ministérios, alguns aliás, que sequer mereciam
existir. O Brasil atravessou séculos tendo um Ministério da Educação e Cultura.
Como se precisava acolher os apaniguados, cindiu-se aquela Pasta, criando-se um
inútil Ministério da Cultura, para servir um bando de intelectualóides, que
recebiam polpudas verbas para fazer filmes e encenar peças, as quais ninguém
assistia. A Lei Rouanet atendia àqueles que tinham alguma coisa de relevante a
oferecer e funciona muito bem. Pois bem, foi só o Ministério da Cultura voltar
a se reintegrar ao Ministério da Educação, sob forma de Secretaria, para
aqueles intelectualóides, membros de uma esquerda carcomida, saírem esperneando
pelas ruas. Afinal, o que é mais importante: ter uma política, bem estruturada,
voltada pra a cultura, em todos os seus matizes, ou o status do Órgão?
Lamentavelmente, Temer recuou e voltamos a ter um inútil Ministério da Cultura.
Se pensa o Presidente que, com tal recuo, ganhará o apoio ou, pelo menos, a
simpatia desses intelectualóides, está redondamente enganado. Pertencem eles
àquela classe, acostumada a viver pendurada nas tetas do Estado e, por isso, o
lulopetismo soube servir-se deles. A maioria, na verdade, passa longe de ser
intelectual, como a atriz Sonia Braga, que fez sucesso em novelas da Globo e,
agora, no ostracismo de final de carreira, não perde a oportunidade para
aparecer.
Outra questão, que vai dar muito pano pra manga, é a reforma
da Previdência Social, cujo déficit cresce em progressão geométrica, enquanto a
arrecadação cresce em progressão aritmética. A razão é simples: aumentou-se,
substancialmente, a expectativa de vida do brasileiro, o que exige que se fixe
idade mínima para se aposentar, independentemente do tempo de contribuição.
Todos sabemos disto, como única solução, mas, quando se propõe tal solução, o
corporativismo fala mais alto e tome boicote à proposta. Finalmente, merecem
algumas linhas sobre o provável aumento de impostos ou criação de novos. Como
fazemos, em nossa vida pessoal, quando nosso faturamento é inferior as nossas
despesas? Simples: ou reduzimos tais despesas, adequando-as àquele faturamento
ou tratamos de faturar mais. No caso do Governo, esta equação é mais
complicada, porque sua receita advêm dos impostos arrecadados. Assim, as duas
soluções devem ser conjugadas. Como o ‘’Estado
- Empresário’’ é anacronismo administrativo, algumas empresas públicas
podem e devem ser privatizadas e, por outro lado, o retorno da CPMF surge como
um mal necessário. A melancólica realidade é que fomos jogados em um buraco
negro, do qual, para sairmos, todos temos que dar cota de sacrifício, para a retomada
do desenvolvimento e, com esse, a volta do emprego e da tranquilidade social.
Os organismos internacionais já acenam, com otimismo para o Brasil e não
podemos perder esta oportunidade de reconstruir o País. Como Temer não é
mágico, é missão de todos nós. Afinal, a ‘’guerra’’acabou,
com o afastamento da Presidente Dilma e agora é trabalhar para reconstruir o
Brasil.
sexta-feira, 20 de maio de 2016
Por causa desta Sexta-Feira
Sexta-feira fria e chuvosa, pessoas de semblante fechado,
trânsito amarrado, atrasando ou cancelando compromissos, tudo isto leva-nos a
pequenas e passageiras depressões, lembrando o verão que se foi, junto com a
idade que se teve e que consagrava, em todo o seu esplendor, o direito de ir e
vir, hoje limitado, pelo tempo, como fenômeno meteorológico e como todos os
anos decorridos. Reconforta-nos constatar que faz, exatamente, 8 dias que Dilma
e seu bando se foram e a guerrilha, que eles preconizaram, não aconteceu. Há certas
solidariedades que só vão até o ferimento leve, como dizia o saudoso Abelardo
Jurema. Aliás, solidariedade é substantivo que, dia a dia, torna-se mais
rarefeito, cada qual tendo que enfrentar seus leões, que o mar não está pra
peixe. Deus, quando fez o homem – e a mulher, em momento de precipitação,
desculpe, Chefe, - fê-lo a sua imagem e semelhança. Equivocou-se – desculpe,
outra vez, Chefe – querendo o dotou de livre arbítrio, porque aí nasceu o
‘’pega pra capar’’ ou o ‘’salve-se quem puder’’, as guerras, individuais e
coletivas. Ao constatar que o homem se tornara um desvairado, diz o ‘’livro do
Genesis’’ que ‘’O Senhor arrependeu-se de ter feito o ser humano na terra’’ (Gn
6,6). Apesar disto, Ele resolveu nos dar outra oportunidade, destruindo tudo e
todos, para começar tudo de novo, porisso preservou Noé, único puro e sua prole
e os animais que ele escolheu. Adiantou? Coisa nenhuma, porque a maldade, ao
contrario do que imaginava Rousseau, está impregnada no ser humano, desde o
momento da concepção. Deus, que é persistente, ainda mandou seu Filho, para nos
ministrar lição de amor ao próximo. E o que esse Filho trabalhou, não teve prá
ninguém. Percorreu centenas de quilômetros, pregando a paz e a fraternidade,
curou doentes, expulsou demônios, ressuscitou mortos, enfrentou os poderosos e,
por fim, sacrifício supremo, deixou-se imolar. Adiantou? A meu modestíssimo
juízo, não. Mal ascendeu ele ao céu, o pau voltou a comer, aqui embaixo e até
inventaram uma expressão equivocada: ‘’o homem é o lobo do homem’’. Equivocada
sim, porque lobo não come lobo. Ao contrario, a alcatéia se une, para se auto
proteger, enquanto o ser humano trucida seu semelhante, seja para lhe tomar o
território, seja para subtrair-lhe um misero celular. Vejam-nos, a nós, os
católicos praticantes: pelo menos uma vez por ano, por ocasião da Páscoa,
evento maior da Cristandade, nós nos confessamos e, seguindo o ritual,
assumimos o compromisso de não reincidir nos mesmos erros confessados.
Cumprimos o compromisso assumido? Qual o que! Já na saída da Igreja, cobiçamos
a mulher do próximo, que passa com suas coxas torneadas e nos mordemos de
inveja da BMW, tinindo de nova, estacionada à frente de nosso carro, a pedir
aposentadoria. A ultima vez que me confessei, meu confessor de 5 ou mais anos,
nem mesmo me determinou uma penitencia. Provavelmente, conhecendo-me bem, tinha
certeza que, dá próxima vez, eu voltaria contando os mesmos pecados. Como se
trata de Sacerdote de refinada cultura e excelente papo, penso que, quando lá
voltar, vou apenas para jogar conversa fora e, quanto aos pecados, apenas
direi: ‘’vide os da vez anterior, os quais ratifico, em seu inteiro teor e
forma.’’
Desculpem-me, mas é o que tenho para uma melancólica
sexta-feira sem previsão de melhorar, no resto do fim-de-semana.
quinta-feira, 19 de maio de 2016
Considerações sobre o denuncismo
Em entrevista concedida à revista ‘’Veja’’, edição do último
fim-de-semana, importante socióloga norte-americana faz apologia do denuncismo
ou ‘’dedurismo’’, em linguagem
popular, para reduzir a criminalidade. Em determinado ponto da entrevista, a
socióloga afirma ‘’não importa a motivação de quem denuncia’’. De larga data, a
Polícia instituiu o ‘’disque denuncia’’, garantindo o anonimato do denunciante.
Venho de longínqua geração, tendo aprendido cedo que o dedurismo é deformação
de caráter. Conto marcante episódio: cursava eu o 5º ano primário – hoje, 1º
grau – e era aluno de uma tia, brava e rigorosa que, inclusive, morava com
nossa família. Certa feita, um colega, punido por qualquer razão, aproveitando
que ela se virara, disse-lhe, baixo, um palavrão e eu me julguei, como
sobrinho, no direito ou obrigação de denunciá-lo, o que lhe provocou nova
punição. À noite, durante o jantar, meu pai à cabeceira da mesa, a tia narrou o
acontecido e não me recordo dos comentários. Recordo-me, sim, que, encerrado o
jantar, meu pai convocou-me a seu quarto que era, para nós, filhos, ‘’fortaleza inexpugnável’’, onde me fez
ver que meu ato fora fraqueza de caráter, que jamais poderia ser repetido. Veio
a Revolução de 31 de Março de 1964, da qual fui e ainda sou adepto, por tudo
que dela resultou de positivo para o Brasil. À época, morava eu com meu
cunhado, que era comandante da Varig e membro atuante do ‘’Sindicato dos Aeronautas’’ que trabalhava, junto ao Governo João
Goulart para a criação da ‘’Aerobrás’’,
cujo objetivo era estatizar a aviação, no Brasil. Com a Revolução, tal projeto
não só ‘’foi para o espaço’’, mas
também alguns diretores do Sindicato tiveram suas prisões decretadas e dois,
que eu já conhecia, foram se homiziar lá em casa. Tínhamos, eu e eles, acirradas
discussões e jamais cogitei em dedurá-los, tranqüilidade que sempre tiveram.
Assim, ao longo de minha vida, consolidei meu total desprezo pelo delator, seja
aquele que delata, ‘’sem motivação’’,
seja o que delata ‘’com motivação’’.
Não é por outra razão que torço o nariz para a ‘’delação premiada’’, tal qual vem sendo ela utilizada na operação ‘’lava jato’’: prende-se o averiguado e
condiciona-se sua liberdade – o premio – às denuncias de terceiros, que ele
fizer. Pode ser legal, mas, sem dúvida, rompe os limites da moralidade. Quanto
à denuncia anônima, considero-a incontestável excrescência jurídica, pois, se
falsa for ela, incorrerá o denunciante no crime de ‘’denunciação caluniosa’’ e se sujeitará à ação indenizatória, para
ressarcir o denunciado pelos prejuízos, morais e materiais, decorrentes da
denuncia falsa. Mas, se anônima for ela, como responsabilizar o denunciante? Na
verdade, o denuncismo retrocede-nos à época do nazismo e do stalinismo, onde
filho denunciava pai, vizinho denunciava vizinho, com ou sem motivação.
Continuo, como Brecht, achando que há, no ser humano, um mínimo de dignidade da
qual não pode ele abrir mão, e o denuncismo ultrapassa esse limite mínimo.
quarta-feira, 18 de maio de 2016
A Violência, hoje e ontem
Pela internet chega-me a noticia de jovem assaltante, preso
em flagrante por populares, que o amarraram a um poste e o surraram, até a
chegada de uma viatura policial que, a tempo, impediu-lhe a morte. Já na semana
passada, em jogo de futebol, torcedores de um clube agrediram, com incomum
agressividade, um único simpatizante do time adversário, desferindo-lhe socos,
pontapés e até pauladas, tendo o rapaz agredido sido removido, inconsciente, em
maca. Provavelmente a Psicologia explique porque pessoas, isoladamente
pacíficas, quando reunidas, sejam capazes de praticar atos de barbárie. Os
fatos acima remetem-me a minha interiorana cidade, eu com meus 10 anos. Uma
jovem da sociedade local fora estuprada morta e abandonada, em terreno baldio,
localizado na periferia da cidade. O crime provocou enorme comoção popular, não
só pela sua inusitada natureza, mas também por envolver moça de uma das mais
proeminentes famílias de uma cidade que, à época, não teria mais do que 30 mil
habitantes e onde todos se conheciam e mantinham estreitas e afetuosas
relações, freqüentando o mesmo clube, indo ao único cinema e aos poucos – dois
ou três – restaurantes e sorveterias. É claro que, quando falo ‘’todos’’, refiro-me àquela minoria
privilegiada, que constituía a ‘’nata’’
da população. O certo, porém, é que, identificado o assassino, dias após o
sepultamento da vítima, seus familiares e amigos realizaram verdadeira caçada
para localizá-lo. Encontraram-no, dormindo, em modestíssima casa, em um bairro
pobre, distante, cerca de um quilometro do centro da cidade. Era um mulato
forte, de uns 30 anos, que não esboçou qualquer reação ao ser amarrado e
arrastado, sob pancadas, até a praça principal, onde foi linchado por dezenas
de pessoas, algumas, até, que nem mesmo conheciam a vítima. Eu, sentado em uma
mureta defronte, a tudo assisti e, mais de meio século depois, ainda vejo o
semblante horrorizado do criminoso – Haroldo, era seu nome – que se deixou
imolar, sem qualquer gesto de defesa. Muitos de seus agressores – comerciantes,
profissionais liberais – eu os conhecia, cumprimentava-os, no dia a dia, e
sabia serem pessoas pacatas que, inclusive, freqüentavam a missa dominical.
Fico a me perguntar que vírus da fúria incontrolada é neles inoculado para que,
quando reunidos em grupo, sejam transformados em bestas-feras. O linchamento de
Haroldo, ocorrido há mais de 50 anos, em uma pequena cidade do interior,
repete-se, com a mesma fúria, por motivos de menor relevância, na maior cidade
do Brasil. Até quando o homem continuará a ser o lobo do homem?
terça-feira, 17 de maio de 2016
Reflexões sobre a morte e suas causas
Já começo a sentir falta de Dª Dilma e do PT, não por eles, é
claro. Já foram tarde, mas é que eles sempre rendiam assunto para estas ‘’mal traçadas’’. Agora, tenho que beber
em outras fontes e as minhas são de pouca água. Mas, vamos lá: hoje vou falar,
sem drama, da morte e da maneira mais conveniente de dar-lhe as mãos. Lá do
interior, de onde vim, distinguia-se duas espécies de morte: a ‘’morte morrida’’ e a ‘’morte matada’’. A primeira decorrida de
causa natural – as doenças e a segunda resultava do homicídio ou suicídio.
Disputas por terras e garimpos ou questões políticas, sempre geravam ‘’morte matada’’. Aos que afirmam que,
nos tempos atuais, o País está dividido é porque não viveram, no interior, lá
pelos anos 50. Conto episodio caseiro, só para exemplificar: meu pai era pessoa
pacifica, gostava de reunir os amigos para boa conversa e beber ‘’Old Parr’’,
seu uísque preferido. Era partidário do antigo PSD, de Benedito Valadares e
Juscelino. Tinha saúde frágil, atormentado por pressão alta que, em seus picos,
obrigava-nos, a nós, seus filhos, saírem correndo (o telefone ainda não chegara
à cidade), em busca de médico, para socorrê-lo. Certa feita, o único localizado
era o Prefeito da cidade, Dr. Petrônio Mendes de Souza, competente, mas que
tinha intransponível defeito: era membro do PR- Partido Republicano, o mais
figadal adversário do PSD. Petrônio era um homem generoso e não se recusou a
atender meu pai. Só que este era ‘’turrão’’
e se recusou a ser atendido pelo seu maior adversário político. Ficou
aquela situação constrangedora: Petrônio, na sala, tomando café, preparado pela
minha doce mãe e meu pai, trancado no quarto. No dia das eleições, era comum
verem homens portando, acintosamente, armas. Não se levava desaforos para casa,
daí o aumento de ‘’morte matada’’,
naquelas ocasiões. Meu pai morreria, de ‘’morte
morrida’’, aos 56 anos, vitima de um ‘’AVC’’,
doença que me aterroriza, porque, antes de matar, tira a dignidade do ser
humano, fazendo-o dependente de terceiras pessoas, até em suas necessidades
fisiológicas. Ultimamente, ando preocupado com o ‘’Alzheimer’’, vulgarmente conhecido como ‘’alemão’’. Outro dia, reli um livro, leitura fácil que se faz,
ouvindo música e batucando no computador e, para meu quase desespero, não me
lembrava do enredo, sendo cada página uma surpresa. Quase um pânico, levei o
problema a minha esposa que, com muita acuidade, observou que, com certeza,
exatamente por ser livro de leitura fácil, não arquivara o enredo na memória.
Acalmei-me, até porque ainda sou capaz de recitar, de cor, pelo menos os dois
primeiros ‘’cantos’’ dos ‘’Lusíadas’’, dois discursos de Cícero e
vários poemas, principalmente de Castro Alves e Fernando Pessoa. Não me engano
e sei que isto nada significa, porque me lembro de excelente ator, já falecido
em idade avançada, que, ao longo de sua vida, decorou centenas de falas e, ao
final, foi tomado pelo ‘’alemão’’. Na
minha ignorância, vou de raciocínio lógico: se os músculos envelhecem, os ossos
envelhecem, os órgãos – principalmente ‘’aquele’’
– envelhecem, por que o cérebro não envelheceria? É doença atroz, para doente,
que sai do mundo real e viaja para o mundo imaginário e para os parentes e
amigos, que têm que conviver e se preocupar com a perda de lucidez.
Pensando bem: prefiro morrer de ‘’morte matada’’. É rápida e traz um pouco de gloria e mistério.
segunda-feira, 16 de maio de 2016
Considerações sobre o aborto
De quando em vez, ressurge debate sobre o aborto, muitos
defendendo a tese de ser direito da mulher interromper a gravidez, quando e se
lhe convier, daí a necessidade de descriminalizar tal prática. Por outra banda corrente
diversa – na qual me incluo – entende que nosso Código Penal já estabelece, com
muita clareza, as hipóteses em que o aborto não será punido: a) “se não há outro meio de salvar a vida da
gestante”; b)”se a gravidez resulta
de estupro e o aborto é precedido de consentimento da gestante”. Os que
defendem a descriminalização do aborto, sob o fragil argumento de que a mulher
tem o direito de dispor do próprio corpo, esbarram no entendimento de que, a
partir da fecundação, já existe vida e, extirpá-la, não configura direito
próprio, mas obrigação de preservá-la. Não é por outra razão que nosso Código
Penal insere o aborto – arts. 124 / 128 – no capítulo I do titulo I, que versa
“dos crimes contra a vida” e o Código
Civil preserva o direito do nascituro.
Também tem sido objeto de acirradas criticas o projeto de lei
5.069/13 ao exigir que os casos de estupro sejam, obrigatoriamente, levados a
conhecimento da autoridade policial competente e a mulher violentada passe por
exame de corpo de delito. Sustentam os críticos que, por gerar constrangimento,
muitas mulheres, vitimas de estupro, deixarão de procurar os meios adequados
para fazerem o aborto, submetendo-se a “curiosos”
que lhes colocarão em risco a saúde e até mesmo a própria vida. Nos termos do
art. 213 do Código Penal, o estupro consiste em “constranger mulher à conjunção carnal, mediante violência ou grave
ameaça”. Diz-se, em Direito, que se trata de crime de “ação pública”, o que significa que o principal interessado na sua
apuração e punição é o Estado. Assim, o aludido projeto de lei, quase nada
inova, vez que, se a mulher, por si ou por seu representante legal, não levar o
fato ao conhecimento da autoridade policial competente, não há como apurar sua
autoria e punir o culpado. Quanto ao exame de corpo delito, é ele
imprescindível para fazer a prova da violência, a que a vitima foi submetida.
Só a palavra dessa, mesmo sendo considerada relevante, é prova acessória que,
sozinha, não é suficiente para estabelecer a autoria e a materialidade do
crime, daí emergindo a necessidade da prova policial. A jurisprudência tem
convergido no sentido de aceitar a chamada “prova
indireta”, aquela produzida através de outros elementos, como testemunhas
idôneas, antecedentes do agente, relação de dependência entre autor e vitima,
etc. O que importa destacar é que, para se considerar o estupro “justa causa” para o aborto, é preciso
que fique ele, o estupro, inequivocamente provado. Lamentavelmente, quando se
debate a questão do aborto, é ele focado, quase exclusivamente, nos interesses
da mulher, sem se considerar o ser, que já pulsa dentro dela, que não pediu
para estar ali e que tem o direito de vir ao mundo.
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