sexta-feira, 20 de maio de 2016

Por causa desta Sexta-Feira



Sexta-feira fria e chuvosa, pessoas de semblante fechado, trânsito amarrado, atrasando ou cancelando compromissos, tudo isto leva-nos a pequenas e passageiras depressões, lembrando o verão que se foi, junto com a idade que se teve e que consagrava, em todo o seu esplendor, o direito de ir e vir, hoje limitado, pelo tempo, como fenômeno meteorológico e como todos os anos decorridos. Reconforta-nos constatar que faz, exatamente, 8 dias que Dilma e seu bando se foram e a guerrilha, que eles preconizaram, não aconteceu. Há certas solidariedades que só vão até o ferimento leve, como dizia o saudoso Abelardo Jurema. Aliás, solidariedade é substantivo que, dia a dia, torna-se mais rarefeito, cada qual tendo que enfrentar seus leões, que o mar não está pra peixe. Deus, quando fez o homem – e a mulher, em momento de precipitação, desculpe, Chefe, - fê-lo a sua imagem e semelhança. Equivocou-se – desculpe, outra vez, Chefe – querendo o dotou de livre arbítrio, porque aí nasceu o ‘’pega pra capar’’ ou o ‘’salve-se quem puder’’, as guerras, individuais e coletivas. Ao constatar que o homem se tornara um desvairado, diz o ‘’livro do Genesis’’ que ‘’O Senhor arrependeu-se de ter feito o ser humano na terra’’ (Gn 6,6). Apesar disto, Ele resolveu nos dar outra oportunidade, destruindo tudo e todos, para começar tudo de novo, porisso preservou Noé, único puro e sua prole e os animais que ele escolheu. Adiantou? Coisa nenhuma, porque a maldade, ao contrario do que imaginava Rousseau, está impregnada no ser humano, desde o momento da concepção. Deus, que é persistente, ainda mandou seu Filho, para nos ministrar lição de amor ao próximo. E o que esse Filho trabalhou, não teve prá ninguém. Percorreu centenas de quilômetros, pregando a paz e a fraternidade, curou doentes, expulsou demônios, ressuscitou mortos, enfrentou os poderosos e, por fim, sacrifício supremo, deixou-se imolar. Adiantou? A meu modestíssimo juízo, não. Mal ascendeu ele ao céu, o pau voltou a comer, aqui embaixo e até inventaram uma expressão equivocada: ‘’o homem é o lobo do homem’’. Equivocada sim, porque lobo não come lobo. Ao contrario, a alcatéia se une, para se auto proteger, enquanto o ser humano trucida seu semelhante, seja para lhe tomar o território, seja para subtrair-lhe um misero celular. Vejam-nos, a nós, os católicos praticantes: pelo menos uma vez por ano, por ocasião da Páscoa, evento maior da Cristandade, nós nos confessamos e, seguindo o ritual, assumimos o compromisso de não reincidir nos mesmos erros confessados. Cumprimos o compromisso assumido? Qual o que! Já na saída da Igreja, cobiçamos a mulher do próximo, que passa com suas coxas torneadas e nos mordemos de inveja da BMW, tinindo de nova, estacionada à frente de nosso carro, a pedir aposentadoria. A ultima vez que me confessei, meu confessor de 5 ou mais anos, nem mesmo me determinou uma penitencia. Provavelmente, conhecendo-me bem, tinha certeza que, dá próxima vez, eu voltaria contando os mesmos pecados. Como se trata de Sacerdote de refinada cultura e excelente papo, penso que, quando lá voltar, vou apenas para jogar conversa fora e, quanto aos pecados, apenas direi: ‘’vide os da vez anterior, os quais ratifico, em seu inteiro teor e forma.’’
Desculpem-me, mas é o que tenho para uma melancólica sexta-feira sem previsão de melhorar, no resto do fim-de-semana. 

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Considerações sobre o denuncismo




Em entrevista concedida à revista ‘’Veja’’, edição do último fim-de-semana, importante socióloga norte-americana faz apologia do denuncismo ou ‘’dedurismo’’, em linguagem popular, para reduzir a criminalidade. Em determinado ponto da entrevista, a socióloga afirma ‘’não importa a motivação de quem denuncia’’. De larga data, a Polícia instituiu o ‘’disque denuncia’’, garantindo o anonimato do denunciante. Venho de longínqua geração, tendo aprendido cedo que o dedurismo é deformação de caráter. Conto marcante episódio: cursava eu o 5º ano primário – hoje, 1º grau – e era aluno de uma tia, brava e rigorosa que, inclusive, morava com nossa família. Certa feita, um colega, punido por qualquer razão, aproveitando que ela se virara, disse-lhe, baixo, um palavrão e eu me julguei, como sobrinho, no direito ou obrigação de denunciá-lo, o que lhe provocou nova punição. À noite, durante o jantar, meu pai à cabeceira da mesa, a tia narrou o acontecido e não me recordo dos comentários. Recordo-me, sim, que, encerrado o jantar, meu pai convocou-me a seu quarto que era, para nós, filhos, ‘’fortaleza inexpugnável’’, onde me fez ver que meu ato fora fraqueza de caráter, que jamais poderia ser repetido. Veio a Revolução de 31 de Março de 1964, da qual fui e ainda sou adepto, por tudo que dela resultou de positivo para o Brasil. À época, morava eu com meu cunhado, que era comandante da Varig e membro atuante do ‘’Sindicato dos Aeronautas’’ que trabalhava, junto ao Governo João Goulart para a criação da ‘’Aerobrás’’, cujo objetivo era estatizar a aviação, no Brasil. Com a Revolução, tal projeto não só ‘’foi para o espaço’’, mas também alguns diretores do Sindicato tiveram suas prisões decretadas e dois, que eu já conhecia, foram se homiziar lá em casa. Tínhamos, eu e eles, acirradas discussões e jamais cogitei em dedurá-los, tranqüilidade que sempre tiveram. Assim, ao longo de minha vida, consolidei meu total desprezo pelo delator, seja aquele que delata, ‘’sem motivação’’, seja o que delata ‘’com motivação’’. Não é por outra razão que torço o nariz para a ‘’delação premiada’’, tal qual vem sendo ela utilizada na operação ‘’lava jato’’: prende-se o averiguado e condiciona-se sua liberdade – o premio – às denuncias de terceiros, que ele fizer. Pode ser legal, mas, sem dúvida, rompe os limites da moralidade. Quanto à denuncia anônima, considero-a incontestável excrescência jurídica, pois, se falsa for ela, incorrerá o denunciante no crime de ‘’denunciação caluniosa’’ e se sujeitará à ação indenizatória, para ressarcir o denunciado pelos prejuízos, morais e materiais, decorrentes da denuncia falsa. Mas, se anônima for ela, como responsabilizar o denunciante? Na verdade, o denuncismo retrocede-nos à época do nazismo e do stalinismo, onde filho denunciava pai, vizinho denunciava vizinho, com ou sem motivação. Continuo, como Brecht, achando que há, no ser humano, um mínimo de dignidade da qual não pode ele abrir mão, e o denuncismo ultrapassa esse limite mínimo. 

quarta-feira, 18 de maio de 2016

A Violência, hoje e ontem



Pela internet chega-me a noticia de jovem assaltante, preso em flagrante por populares, que o amarraram a um poste e o surraram, até a chegada de uma viatura policial que, a tempo, impediu-lhe a morte. Já na semana passada, em jogo de futebol, torcedores de um clube agrediram, com incomum agressividade, um único simpatizante do time adversário, desferindo-lhe socos, pontapés e até pauladas, tendo o rapaz agredido sido removido, inconsciente, em maca. Provavelmente a Psicologia explique porque pessoas, isoladamente pacíficas, quando reunidas, sejam capazes de praticar atos de barbárie. Os fatos acima remetem-me a minha interiorana cidade, eu com meus 10 anos. Uma jovem da sociedade local fora estuprada morta e abandonada, em terreno baldio, localizado na periferia da cidade. O crime provocou enorme comoção popular, não só pela sua inusitada natureza, mas também por envolver moça de uma das mais proeminentes famílias de uma cidade que, à época, não teria mais do que 30 mil habitantes e onde todos se conheciam e mantinham estreitas e afetuosas relações, freqüentando o mesmo clube, indo ao único cinema e aos poucos – dois ou três – restaurantes e sorveterias. É claro que, quando falo ‘’todos’’, refiro-me àquela minoria privilegiada, que constituía a ‘’nata’’ da população. O certo, porém, é que, identificado o assassino, dias após o sepultamento da vítima, seus familiares e amigos realizaram verdadeira caçada para localizá-lo. Encontraram-no, dormindo, em modestíssima casa, em um bairro pobre, distante, cerca de um quilometro do centro da cidade. Era um mulato forte, de uns 30 anos, que não esboçou qualquer reação ao ser amarrado e arrastado, sob pancadas, até a praça principal, onde foi linchado por dezenas de pessoas, algumas, até, que nem mesmo conheciam a vítima. Eu, sentado em uma mureta defronte, a tudo assisti e, mais de meio século depois, ainda vejo o semblante horrorizado do criminoso – Haroldo, era seu nome – que se deixou imolar, sem qualquer gesto de defesa. Muitos de seus agressores – comerciantes, profissionais liberais – eu os conhecia, cumprimentava-os, no dia a dia, e sabia serem pessoas pacatas que, inclusive, freqüentavam a missa dominical. Fico a me perguntar que vírus da fúria incontrolada é neles inoculado para que, quando reunidos em grupo, sejam transformados em bestas-feras. O linchamento de Haroldo, ocorrido há mais de 50 anos, em uma pequena cidade do interior, repete-se, com a mesma fúria, por motivos de menor relevância, na maior cidade do Brasil. Até quando o homem continuará a ser o lobo do homem?

terça-feira, 17 de maio de 2016

Reflexões sobre a morte e suas causas

Já começo a sentir falta de Dª Dilma e do PT, não por eles, é claro. Já foram tarde, mas é que eles sempre rendiam assunto para estas ‘’mal traçadas’’. Agora, tenho que beber em outras fontes e as minhas são de pouca água. Mas, vamos lá: hoje vou falar, sem drama, da morte e da maneira mais conveniente de dar-lhe as mãos. Lá do interior, de onde vim, distinguia-se duas espécies de morte: a ‘’morte morrida’’ e a ‘’morte matada’’. A primeira decorrida de causa natural – as doenças e a segunda resultava do homicídio ou suicídio. Disputas por terras e garimpos ou questões políticas, sempre geravam ‘’morte matada’’. Aos que afirmam que, nos tempos atuais, o País está dividido é porque não viveram, no interior, lá pelos anos 50. Conto episodio caseiro, só para exemplificar: meu pai era pessoa pacifica, gostava de reunir os amigos para boa conversa e beber ‘’Old Parr’’, seu uísque preferido. Era partidário do antigo PSD, de Benedito Valadares e Juscelino. Tinha saúde frágil, atormentado por pressão alta que, em seus picos, obrigava-nos, a nós, seus filhos, saírem correndo (o telefone ainda não chegara à cidade), em busca de médico, para socorrê-lo. Certa feita, o único localizado era o Prefeito da cidade, Dr. Petrônio Mendes de Souza, competente, mas que tinha intransponível defeito: era membro do PR- Partido Republicano, o mais figadal adversário do PSD. Petrônio era um homem generoso e não se recusou a atender meu pai. Só que este era ‘’turrão’’ e se recusou a ser atendido pelo seu maior adversário político. Ficou aquela situação constrangedora: Petrônio, na sala, tomando café, preparado pela minha doce mãe e meu pai, trancado no quarto. No dia das eleições, era comum verem homens portando, acintosamente, armas. Não se levava desaforos para casa, daí o aumento de ‘’morte matada’’, naquelas ocasiões. Meu pai morreria, de ‘’morte morrida’’, aos 56 anos, vitima de um ‘’AVC’’, doença que me aterroriza, porque, antes de matar, tira a dignidade do ser humano, fazendo-o dependente de terceiras pessoas, até em suas necessidades fisiológicas. Ultimamente, ando preocupado com o ‘’Alzheimer’’, vulgarmente conhecido como ‘’alemão’’. Outro dia, reli um livro, leitura fácil que se faz, ouvindo música e batucando no computador e, para meu quase desespero, não me lembrava do enredo, sendo cada página uma surpresa. Quase um pânico, levei o problema a minha esposa que, com muita acuidade, observou que, com certeza, exatamente por ser livro de leitura fácil, não arquivara o enredo na memória. Acalmei-me, até porque ainda sou capaz de recitar, de cor, pelo menos os dois primeiros ‘’cantos’’ dos ‘’Lusíadas’’, dois discursos de Cícero e vários poemas, principalmente de Castro Alves e Fernando Pessoa. Não me engano e sei que isto nada significa, porque me lembro de excelente ator, já falecido em idade avançada, que, ao longo de sua vida, decorou centenas de falas e, ao final, foi tomado pelo ‘’alemão’’. Na minha ignorância, vou de raciocínio lógico: se os músculos envelhecem, os ossos envelhecem, os órgãos – principalmente ‘’aquele’’ – envelhecem, por que o cérebro não envelheceria? É doença atroz, para doente, que sai do mundo real e viaja para o mundo imaginário e para os parentes e amigos, que têm que conviver e se preocupar com a perda de lucidez.
Pensando bem: prefiro morrer de ‘’morte matada’’. É rápida e traz um pouco de gloria e mistério.


segunda-feira, 16 de maio de 2016

Considerações sobre o aborto

De quando em vez, ressurge debate sobre o aborto, muitos defendendo a tese de ser direito da mulher interromper a gravidez, quando e se lhe convier, daí a necessidade de descriminalizar tal prática. Por outra banda corrente diversa – na qual me incluo – entende que nosso Código Penal já estabelece, com muita clareza, as hipóteses em que o aborto não será punido: a) “se não há outro meio de salvar a vida da gestante”; b)”se a gravidez resulta de estupro e o aborto é precedido de consentimento da gestante”. Os que defendem a descriminalização do aborto, sob o fragil argumento de que a mulher tem o direito de dispor do próprio corpo, esbarram no entendimento de que, a partir da fecundação, já existe vida e, extirpá-la, não configura direito próprio, mas obrigação de preservá-la. Não é por outra razão que nosso Código Penal insere o aborto – arts. 124 / 128 – no capítulo I do titulo I, que versa “dos crimes contra a vida” e o Código Civil preserva o direito do nascituro.
Também tem sido objeto de acirradas criticas o projeto de lei 5.069/13 ao exigir que os casos de estupro sejam, obrigatoriamente, levados a conhecimento da autoridade policial competente e a mulher violentada passe por exame de corpo de delito. Sustentam os críticos que, por gerar constrangimento, muitas mulheres, vitimas de estupro, deixarão de procurar os meios adequados para fazerem o aborto, submetendo-se a “curiosos” que lhes colocarão em risco a saúde e até mesmo a própria vida. Nos termos do art. 213 do Código Penal, o estupro consiste em “constranger mulher à conjunção carnal, mediante violência ou grave ameaça”. Diz-se, em Direito, que se trata de crime de “ação pública”, o que significa que o principal interessado na sua apuração e punição é o Estado. Assim, o aludido projeto de lei, quase nada inova, vez que, se a mulher, por si ou por seu representante legal, não levar o fato ao conhecimento da autoridade policial competente, não há como apurar sua autoria e punir o culpado. Quanto ao exame de corpo delito, é ele imprescindível para fazer a prova da violência, a que a vitima foi submetida. Só a palavra dessa, mesmo sendo considerada relevante, é prova acessória que, sozinha, não é suficiente para estabelecer a autoria e a materialidade do crime, daí emergindo a necessidade da prova policial. A jurisprudência tem convergido no sentido de aceitar a chamada “prova indireta”, aquela produzida através de outros elementos, como testemunhas idôneas, antecedentes do agente, relação de dependência entre autor e vitima, etc. O que importa destacar é que, para se considerar o estupro “justa causa” para o aborto, é preciso que fique ele, o estupro, inequivocamente provado. Lamentavelmente, quando se debate a questão do aborto, é ele focado, quase exclusivamente, nos interesses da mulher, sem se considerar o ser, que já pulsa dentro dela, que não pediu para estar ali e que tem o direito de vir ao mundo.


sexta-feira, 13 de maio de 2016

A Hora do Comedimento

Constitui sabedoria popular que, mesmo dos piores momentos, podemos tirar resultados positivos. O Brasil vive a mais grave crise econômica de sua história que, na verdade, foi a força propulsora do impeachment da Presidente Dilma e, se o novo Governo, cuja legitimidade é, pelo menos discutível, não minimizar, em curto prazo, os efeitos dessa crise, também não se sustentará. Mas, não falarei de política e, sim, como conseqüência positiva, o reaprendizado a que cada qual deve se submeter, não só como método de sobrevivência, mas também em respeito aos menos afortunados, desprovidos de necessidades básicas, seja em razão de desemprego, seja em razão de achatamento salarial. Impõe-se mudança de atitudes, ações concretas. Se as vendas estão em queda livre, que tal os comerciantes reduzirem suas margens de lucro? Viajar para o exterior, principalmente agora, que o verão, lá chegará, em uma mês, é ótimo. Levar as crianças à ‘’Disney’’, ou viajar pela França e Itália, bebendo bons vinhos. Passeios, que um casal, sem grandes luxos, consome, em 15 dias, não menos do que 50 mil reais. Que tal deixar a viagem programada para o próximo ano? Estou a fazer estas reflexões, em razão de duas diferentes matérias, lidas na última ‘’Vejinha’’. Na primeira, recomenda-se um restaurante que sugere um prato contendo polvo, acompanhado de ‘’risoto de brie com passas’’, ao preço de 68 reais. A fotografia do prato nos mostra 4 pequenos pedaços de polvo, 3 passas e uma porção de arroz que, com muito boa vontade, atinge 100 gramas. Se considerarmos que, na feira-livre, compra-se polvo a 50 reais o quilo e arroz, tipo 1 “a”, no máximo, a 5 reais, é de concluir que, com todos os agregados (aluguel, luz, água, salários, etc), o custo de tal prato não ultrapassa a 20 reais e, assim, oferecê-lo a 68, além de se constitui abuso, é correr o risco de vê-lo ‘’encalhar’’. Quantos restaurantes cerraram suas portas, neste último ano, em razão da retração do consumidor? Conheço muita gente abonada, de dinheiro e bom senso, que, nestes tempos bicudos, prefere reunir os amigos, ao pé de um bom vinho e canapés caseiros, para um ‘’bate-papo’’, sobre todas as coisas, o que, convenhamos, é muito mais agradável do que ficar sentado, a meio de pessoas estranhas. Ou o tal restaurante revê seus preços ou corre o risco de viver dias amargos. A segunda noticia, extraída da mesma ‘’Vejinha’’ e que tem, como titulo ‘’casamento dobrado’’, informa que milionário casal, para comemorar sua feliz união, dará duas recepções uma, em São Paulo, menos suntuosa e outra, na ilha de ‘’Sain Barths’’, para 300 convidados, onde ‘’o casal fechou o hotel mais sofisticado da ilha, o Le Sereno. Todas as 36 suítes e três vilas estarão à sua disposição.’’ Faço as contas, com a cabeça de classe média e concluo que a festança vai passar de 01 milhão de dólares, ou seja, cerca de 04 milhões de reais. Será isto realmente necessário, em um momento que 11 milhões de desempregados não sabem como vão alimentar e vestir suas famílias? É claro que cada um gasta o que tem, como bem lhe apraz, mas um pouco de comedimento é sempre recomendável. Certa feita, tive o privilegio de conversar com o Dr. Antonio Ermírio de Moraes, então considerado o homem mais rico do Brasil. Depois de algumas garrafas de vinho (‘’a bebida é a sacarrolha da verdade’’, ensinava, como advertência, minha falecida mãe), ousei perguntar-lhe sobre sua quase folclórica simplicidade de vida, apesar de sua maravilhosa residência e excelência de seus vinhos. Justificou ele dizendo que os mais ricos tinham que dar o exemplo que o dinheiro, por ser conseqüência do trabalho, tinha que ser valorizado, em seu uso. Fica a lição para o jovem casal e que sejam felizes para sempre.... mesmo que os ventos soprem ao contrário. 

quarta-feira, 11 de maio de 2016

O amor e a chantagem

Cena 01
Ela se chamava Ana Lucia. Morena, mais de 1,70m,olhos absurdamente pretos, pele bronzeada. Aos 26 anos, começara a trabalhar em um escritório de arquitetura, depois de mais de um ano de formada, sem conseguir emprego. Sabia de seu potencial, porisso não iria se aviltar, como tantos colegas, transformando-se em decoradora: Após várias entrevistas, fora contratada pelo escritório ‘’RS2 – Arquitetos Associados Ltda.’’. Os ‘’arquitetos associados’’ eram, na verdade, marido e mulher, especializados em projetar residências de alto padrão. Pelo menos, era um começo. Casara aos 23 anos, muito mais para se livrar da opressão do pai do que por amor a Glauco, bonzinho, mas de quase nenhuma cultura e ambição. Era gerente de supermercado e, para ele, isto bastava, apesar do baixo salário. Exatamente por essas duas razões – nenhuma cultura e falta de ambição – o casamento já estava em crise. Dinheiro pouco, morando na periferia, sexo, só raramente, ele sempre cansado e cheirando à cerveja. Foi quando Ana Lucia conheceu Marcos, o engenheiro responsável pela reforma da mansão dos Almeida de Castro, no Morumbi, cujo projeto era do escritório e sob sua supervisão. Marcos estava chegando aos 40, casado, com dois filhos adolescentes. Educado, elegante, jamais alterava a voz, fosse para discutir detalhe técnico, fosse para dar a bronca em um peão de obra. Mas o que chamou a atenção Ana Lucia, quando o conheceu, foram as mãos de Marcos, longas, fortes, unhas sempre impecáveis. Ele a convidou para almoçar e ela aceitou. Conversa trivial, sobre trabalho, o achatamento do mercado etc. Mas ela reparou que ele, de quando em vez, tentando disfarçar, lançava olhares pedintes para as coxas dela... e ela gostava. Era uma insuportavelmente quente tarde de verão e Ana Lucia já se imaginava sufocada, em um transito que se arrastava, mais de uma hora em seu velho ‘’Fiat Uno’’, sem ar condicionado, presente ganho do pai, quando entrou na faculdade, quase 7 anos atrás. Porisso quase perdeu o fôlego, quando seu celular tocou. Era Marcos:
- ‘’Oi, tudo bem? Que tal um ‘’happy hour’’, até o trânsito aliviar?’’
Ela, quase sem pensar, aceitou o convite. Encontraram-se em um simpático barzinho, perto do escritório, falaram da vida, seus ganhos e perdas e, quando secavam a segunda garrafa de vinho branco gelado, ele aproximou sua cadeira da dela, tomou-lhe as mãos, beijou-lhe, superficialmente os lábios e, como não encontrou resistência, colaram as bocas, numa demora sucção, enquanto ele percorria as coxas macias, sentindo a leve plumagem, que a revestia. Nascia, ali, frenética relação onde predominava o sexo, cujos limites foram sendo ultrapassados, com o tempo. Às sextas-feiras, como se fora ritual, saiam, sem retorno, em direção à Barra Funda, onde se situava o ‘’Afrodite’’, motel classe ‘’A’’, onde se amavam, almoçavam, voltavam a se amar, até que a tarde começasse a esmaecer. Iam, quase sempre, no carro dela, porque ele, morando nas ‘’Perdizes’’, ali ao lado, não podia expor a ambos.
Cena 02
Salustiano, agora com 30, chegara a São Paulo, aos 15, vindo do interior de Sergipe, deixando para trás uma vida de misérias, trazendo consigo a esperança de ‘’ganhar a cidade grande, como dizia seu tio, com quem foi morar, no bairro do ‘’Tucuruvi’’. No começo, trabalhava como ‘’office boy’’, no centro da cidade e estudava à noite. Completado, às duras penas, o primeiro grau, constatou que ele e o estudo tinham completa incompatibilidade. Aos 20 anos fez um curso de segurança e foi trabalhar em uma empresa, a ‘’Total Serviços de Vigilância Ltda.’’ O tio, solteiro, sem filhos, morrera e ele herdara o minúsculo apartamento do Tucuruvi. O salário era pouco, mas dava para as despesas básicas, inclusive o ‘’pagodão’’ de fim-de-semana. Depois de pular ‘’de galho em galho’’, conhecera Deusminda – Minda, para os íntimos – morena, quase mulata, tipo ‘’mignon’’, por quem se apaixonou e ela por ele. Levou-a para o apartamento, ela, cuidadora de uma senhora idosa, ajudava nas despesas. Ambos sonhavam sonhos poucos, um fim-de-semana na praia, roupas melhores, um carrinho, mesmo de idade longeva. Sonhos, que o dinheiro pouco não permitia realizar. Salustiano fora trabalhar como segurança de uma grande concessionária de veículos, que ficava defronte ao motel ‘’Afrodite’’ e se impressionava com o movimento, principalmente na hora do almoço e, com mais intensidade às sextas-feiras. Comentou o fato com seu amigo Francisco, cabo da Policia Militar que, lhe disse serem os freqüentadores amantes ou homens com garotas de programa. O raciocínio de Francisco era tão simples quanto verdadeiro: que casal, marido e mulher, freqüentava motel, durante a semana e justamente na hora do almoço? Dias depois, Francisco ligou para Salustiano. Tinha tido uma idéia genial para levantarem boa grana: ele, Salustiano, muito discretamente, fotografava a placa dos carros, entrando no motel, naquele dia e horário e ele, Francisco, através do sistema da Policia Militar, identificaria o proprietário ou proprietária do carro e respectivo endereço e, depois, era mandar um bilhete, pedindo uma grana – 3 mil para carro comum e 5 mil para carro de luxo -, sob a ameaça de mandar a fotografia para a esposa ou esposo. Em um primeiro momento, Salustiano relutou, que não era nenhum santo, mas não queria acabar na cadeia, ainda mais agora, que estava de amor novo. Pouco a pouco, sua resistência foi baixando, ele, mesmo sem querer, fazendo conta: um carro comum e um de luxo por semana, renderiam 4 mil para cada um, 16 mil por mês, mais do que 3 vezes seu salário. Topou: ele fotografava, Francisco levantava os dados e mandava o bilhete para a “vitima”. Alguns cuidados essenciais: o local da entrega do dinheiro tinha que ser distante do local de trabalho de ambos e o ‘’bilhete’’, curto e grosso, tinha que ser colocado na agencia central do correio. A dupla começou a agir e, em 06 meses, cada um já tinha faturado 50 mil. Salustiano e Minda passavam fim-de-semana, em hotel em Santos, depois de ele ter comprado um ‘’gol bolinha’’, 1983. Minda perguntava de onde estava saindo o dinheiro e ele explicava que estava fazendo segurança pessoal para um ‘’bacana’’ e faturando boa grana, por fora e Minda, inteligência curta, engoliu a historia, até porque estava desfrutando mordomias, que nunca tivera.
Cena 03
- ‘’Marcos, é Ana Lucia, preciso, urgentemente, falar com você e pelo telefone não dá.’’
- ‘’Tudo bem, amor, podemos almoçar juntos.’’
Ana Lucia, voz de pânico: ‘’Você não está entendendo! Aconteceu uma coisa horrível, tem que ser agora.’’
- ‘’Ok, passo aí, telefono quando estiver chegando, você desce e nós conversamos. Não posso demorar, porque tenho reunião importantíssima às 11 horas’’.
Enquanto dirigia, em direção ao escritório de Ana Lucia, Marcos tenta adivinhar o que acontecera. Em dois anos de convivência, ela, sempre serena e ponderada, nunca a vira tão estressada, histérica até. Chegou a uma única conclusão: o marido descobrira, apesar de todos os cuidados tomados. É verdade que, com o tempo, foram relaxando, chegando em casa mais tarde, trocando carinho em público. Quando Ana Lucia entrou no carro, estava, nitidamente transtornada e mal conseguia falar:
- ‘’Veja o que chegou pelo correio. A sorte é que o porteiro esqueceu de entregar ao Glauco e entregou a mim, quando cheguei. Leia e me diga o que vamos fazer. E entregou a Marcos uma folha de papel e uma cópia de fotografia. A fotografia era a traseira do carro dela, onde se podia identificar as cabeças dos dois e, no papel, estava escrito:
‘’Prezada Senhora Ana Lucia Martins,
Vi a senhora entrar muito bem acompanhada, na última sexta-feira, exatamente às 12 horas e 35 minutos, no motel ‘’Afrodite’’ e sei que seu acompanhante não era seu marido. Segue a fotografia de seu carro entrando no motel. Se a senhora não quiser que ela caia nas mãos de seu marido, na 2ª-feira, as 11 da noite ponha 3 mil reais, em um envelope e coloque dentro do cesto de lixo do posto de gasolina Petrobrás, que fica na Rua Vergueiro nº 290. Estarei vigiando, não tente bancar a esperta. Vá sozinha.’’
Marcos leu e releu o bilhete varias vezes. O dinheiro não era problema. Que decisão tomar, pagar e correr o risco de continuar a chantagem, não pagar e correr o risco da foto cair nas mãos do marido de Ana Lucia, levar o caso à Polícia e o assunto se tornar público, expondo todos, inclusive ele que, por mais que estivesse envolvido com Ana Lucia, não cogitava abandonar a família? Começavam a pagar o preço de uma felicidade fugidia.
Em tempo: os personagens são fictícios, mas os fatos são verdadeiros. Interferi, como advogado, para a melhor solução. Portanto, aos ‘’aventureiros do amor’’ recomendo cautela.