Constitui sabedoria popular que, mesmo dos piores momentos,
podemos tirar resultados positivos. O Brasil vive a mais grave crise econômica
de sua história que, na verdade, foi a força propulsora do impeachment da
Presidente Dilma e, se o novo Governo, cuja legitimidade é, pelo menos
discutível, não minimizar, em curto prazo, os efeitos dessa crise, também não
se sustentará. Mas, não falarei de política e, sim, como conseqüência positiva,
o reaprendizado a que cada qual deve se submeter, não só como método de
sobrevivência, mas também em respeito aos menos afortunados, desprovidos de
necessidades básicas, seja em razão de desemprego, seja em razão de achatamento
salarial. Impõe-se mudança de atitudes, ações concretas. Se as vendas estão em
queda livre, que tal os comerciantes reduzirem suas margens de lucro? Viajar
para o exterior, principalmente agora, que o verão, lá chegará, em uma mês, é
ótimo. Levar as crianças à ‘’Disney’’,
ou viajar pela França e Itália, bebendo bons vinhos. Passeios, que um casal,
sem grandes luxos, consome, em 15 dias, não menos do que 50 mil reais. Que tal
deixar a viagem programada para o próximo ano? Estou a fazer estas reflexões,
em razão de duas diferentes matérias, lidas na última ‘’Vejinha’’. Na primeira, recomenda-se um restaurante que sugere um
prato contendo polvo, acompanhado de ‘’risoto
de brie com passas’’, ao preço de 68 reais. A fotografia do prato nos
mostra 4 pequenos pedaços de polvo, 3 passas e uma porção de arroz que, com
muito boa vontade, atinge 100 gramas. Se considerarmos que, na feira-livre,
compra-se polvo a 50 reais o quilo e arroz, tipo 1 “a”, no máximo, a 5 reais, é
de concluir que, com todos os agregados (aluguel, luz, água, salários, etc), o custo
de tal prato não ultrapassa a 20 reais e, assim, oferecê-lo a 68, além de se
constitui abuso, é correr o risco de vê-lo ‘’encalhar’’.
Quantos restaurantes cerraram suas portas, neste último ano, em razão da
retração do consumidor? Conheço muita gente abonada, de dinheiro e bom senso,
que, nestes tempos bicudos, prefere reunir os amigos, ao pé de um bom vinho e
canapés caseiros, para um ‘’bate-papo’’,
sobre todas as coisas, o que, convenhamos, é muito mais agradável do que ficar
sentado, a meio de pessoas estranhas. Ou o tal restaurante revê seus preços ou
corre o risco de viver dias amargos. A segunda noticia, extraída da mesma ‘’Vejinha’’ e que tem, como titulo ‘’casamento dobrado’’, informa que
milionário casal, para comemorar sua feliz união, dará duas recepções uma, em
São Paulo, menos suntuosa e outra, na ilha de ‘’Sain Barths’’, para 300 convidados, onde ‘’o casal fechou o hotel mais sofisticado da ilha, o Le Sereno. Todas
as 36 suítes e três vilas estarão à sua disposição.’’ Faço as contas, com a
cabeça de classe média e concluo que a festança vai passar de 01 milhão de
dólares, ou seja, cerca de 04 milhões de reais. Será isto realmente necessário,
em um momento que 11 milhões de desempregados não sabem como vão alimentar e
vestir suas famílias? É claro que cada um gasta o que tem, como bem lhe apraz,
mas um pouco de comedimento é sempre recomendável. Certa feita, tive o
privilegio de conversar com o Dr. Antonio Ermírio de Moraes, então considerado
o homem mais rico do Brasil. Depois de algumas garrafas de vinho (‘’a bebida é a sacarrolha da verdade’’,
ensinava, como advertência, minha falecida mãe), ousei perguntar-lhe sobre sua
quase folclórica simplicidade de vida, apesar de sua maravilhosa residência e
excelência de seus vinhos. Justificou ele dizendo que os mais ricos tinham que
dar o exemplo que o dinheiro, por ser conseqüência do trabalho, tinha que ser
valorizado, em seu uso. Fica a lição para o jovem casal e que sejam felizes
para sempre.... mesmo que os ventos soprem ao contrário.
sexta-feira, 13 de maio de 2016
quarta-feira, 11 de maio de 2016
O amor e a chantagem
Cena 01
Ela se chamava Ana Lucia. Morena, mais de 1,70m,olhos absurdamente
pretos, pele bronzeada. Aos 26 anos, começara a trabalhar em um escritório de
arquitetura, depois de mais de um ano de formada, sem conseguir emprego. Sabia
de seu potencial, porisso não iria se aviltar, como tantos colegas,
transformando-se em decoradora: Após várias entrevistas, fora contratada pelo
escritório ‘’RS2 – Arquitetos Associados Ltda.’’. Os ‘’arquitetos associados’’
eram, na verdade, marido e mulher, especializados em projetar residências de
alto padrão. Pelo menos, era um começo. Casara aos 23 anos, muito mais para se
livrar da opressão do pai do que por amor a Glauco, bonzinho, mas de quase
nenhuma cultura e ambição. Era gerente de supermercado e, para ele, isto
bastava, apesar do baixo salário. Exatamente por essas duas razões – nenhuma
cultura e falta de ambição – o casamento já estava em crise. Dinheiro pouco,
morando na periferia, sexo, só raramente, ele sempre cansado e cheirando à
cerveja. Foi quando Ana Lucia conheceu Marcos, o engenheiro responsável pela
reforma da mansão dos Almeida de Castro, no Morumbi, cujo projeto era do
escritório e sob sua supervisão. Marcos estava chegando aos 40, casado, com
dois filhos adolescentes. Educado, elegante, jamais alterava a voz, fosse para
discutir detalhe técnico, fosse para dar a bronca em um peão de obra. Mas o que
chamou a atenção Ana Lucia, quando o conheceu, foram as mãos de Marcos, longas,
fortes, unhas sempre impecáveis. Ele a convidou para almoçar e ela aceitou.
Conversa trivial, sobre trabalho, o achatamento do mercado etc. Mas ela reparou
que ele, de quando em vez, tentando disfarçar, lançava olhares pedintes para as
coxas dela... e ela gostava. Era uma insuportavelmente quente tarde de verão e
Ana Lucia já se imaginava sufocada, em um transito que se arrastava, mais de
uma hora em seu velho ‘’Fiat Uno’’, sem ar condicionado, presente ganho do pai,
quando entrou na faculdade, quase 7 anos atrás. Porisso quase perdeu o fôlego,
quando seu celular tocou. Era Marcos:
- ‘’Oi, tudo bem? Que tal um ‘’happy hour’’, até o trânsito
aliviar?’’
Ela, quase sem pensar, aceitou o convite. Encontraram-se em
um simpático barzinho, perto do escritório, falaram da vida, seus ganhos e
perdas e, quando secavam a segunda garrafa de vinho branco gelado, ele
aproximou sua cadeira da dela, tomou-lhe as mãos, beijou-lhe, superficialmente
os lábios e, como não encontrou resistência, colaram as bocas, numa demora
sucção, enquanto ele percorria as coxas macias, sentindo a leve plumagem, que a
revestia. Nascia, ali, frenética relação onde predominava o sexo, cujos limites
foram sendo ultrapassados, com o tempo. Às sextas-feiras, como se fora ritual,
saiam, sem retorno, em direção à Barra Funda, onde se situava o ‘’Afrodite’’,
motel classe ‘’A’’, onde se amavam, almoçavam, voltavam a se amar, até que a
tarde começasse a esmaecer. Iam, quase sempre, no carro dela, porque ele,
morando nas ‘’Perdizes’’, ali ao lado, não podia expor a ambos.
Cena 02
Salustiano, agora com 30, chegara a São Paulo, aos 15, vindo
do interior de Sergipe, deixando para trás uma vida de misérias, trazendo
consigo a esperança de ‘’ganhar a cidade grande, como dizia seu tio, com quem
foi morar, no bairro do ‘’Tucuruvi’’. No começo, trabalhava como ‘’office
boy’’, no centro da cidade e estudava à noite. Completado, às duras penas, o
primeiro grau, constatou que ele e o estudo tinham completa incompatibilidade.
Aos 20 anos fez um curso de segurança e foi trabalhar em uma empresa, a ‘’Total
Serviços de Vigilância Ltda.’’ O tio, solteiro, sem filhos, morrera e ele
herdara o minúsculo apartamento do Tucuruvi. O salário era pouco, mas dava para
as despesas básicas, inclusive o ‘’pagodão’’ de fim-de-semana. Depois de pular
‘’de galho em galho’’, conhecera Deusminda – Minda, para os íntimos – morena,
quase mulata, tipo ‘’mignon’’, por quem se apaixonou e ela por ele. Levou-a
para o apartamento, ela, cuidadora de uma senhora idosa, ajudava nas despesas.
Ambos sonhavam sonhos poucos, um fim-de-semana na praia, roupas melhores, um
carrinho, mesmo de idade longeva. Sonhos, que o dinheiro pouco não permitia
realizar. Salustiano fora trabalhar como segurança de uma grande concessionária
de veículos, que ficava defronte ao motel ‘’Afrodite’’ e se impressionava com o
movimento, principalmente na hora do almoço e, com mais intensidade às
sextas-feiras. Comentou o fato com seu amigo Francisco, cabo da Policia Militar
que, lhe disse serem os freqüentadores amantes ou homens com garotas de
programa. O raciocínio de Francisco era tão simples quanto verdadeiro: que
casal, marido e mulher, freqüentava motel, durante a semana e justamente na
hora do almoço? Dias depois, Francisco ligou para Salustiano. Tinha tido uma
idéia genial para levantarem boa grana: ele, Salustiano, muito discretamente,
fotografava a placa dos carros, entrando no motel, naquele dia e horário e ele,
Francisco, através do sistema da Policia Militar, identificaria o proprietário
ou proprietária do carro e respectivo endereço e, depois, era mandar um
bilhete, pedindo uma grana – 3 mil para carro comum e 5 mil para carro de luxo
-, sob a ameaça de mandar a fotografia para a esposa ou esposo. Em um primeiro
momento, Salustiano relutou, que não era nenhum santo, mas não queria acabar na
cadeia, ainda mais agora, que estava de amor novo. Pouco a pouco, sua
resistência foi baixando, ele, mesmo sem querer, fazendo conta: um carro comum
e um de luxo por semana, renderiam 4 mil para cada um, 16 mil por mês, mais do
que 3 vezes seu salário. Topou: ele fotografava, Francisco levantava os dados e
mandava o bilhete para a “vitima”. Alguns cuidados essenciais: o local da
entrega do dinheiro tinha que ser distante do local de trabalho de ambos e o
‘’bilhete’’, curto e grosso, tinha que ser colocado na agencia central do
correio. A dupla começou a agir e, em 06 meses, cada um já tinha faturado 50
mil. Salustiano e Minda passavam fim-de-semana, em hotel em Santos, depois de
ele ter comprado um ‘’gol bolinha’’, 1983. Minda perguntava de onde estava
saindo o dinheiro e ele explicava que estava fazendo segurança pessoal para um
‘’bacana’’ e faturando boa grana, por fora e Minda, inteligência curta, engoliu
a historia, até porque estava desfrutando mordomias, que nunca tivera.
Cena 03
- ‘’Marcos, é Ana Lucia, preciso, urgentemente, falar com
você e pelo telefone não dá.’’
- ‘’Tudo bem, amor, podemos almoçar juntos.’’
Ana Lucia, voz de pânico: ‘’Você não está entendendo!
Aconteceu uma coisa horrível, tem que ser agora.’’
- ‘’Ok, passo aí, telefono quando estiver chegando, você
desce e nós conversamos. Não posso demorar, porque tenho reunião
importantíssima às 11 horas’’.
Enquanto dirigia, em direção ao escritório de Ana Lucia,
Marcos tenta adivinhar o que acontecera. Em dois anos de convivência, ela,
sempre serena e ponderada, nunca a vira tão estressada, histérica até. Chegou a
uma única conclusão: o marido descobrira, apesar de todos os cuidados tomados.
É verdade que, com o tempo, foram relaxando, chegando em casa mais tarde,
trocando carinho em público. Quando Ana Lucia entrou no carro, estava,
nitidamente transtornada e mal conseguia falar:
- ‘’Veja o que chegou pelo correio. A sorte é que o porteiro
esqueceu de entregar ao Glauco e entregou a mim, quando cheguei. Leia e me diga
o que vamos fazer. E entregou a Marcos uma folha de papel e uma cópia de
fotografia. A fotografia era a traseira do carro dela, onde se podia
identificar as cabeças dos dois e, no papel, estava escrito:
‘’Prezada Senhora Ana Lucia Martins,
Vi a senhora entrar muito bem acompanhada, na última
sexta-feira, exatamente às 12 horas e 35 minutos, no motel ‘’Afrodite’’ e sei
que seu acompanhante não era seu marido. Segue a fotografia de seu carro
entrando no motel. Se a senhora não quiser que ela caia nas mãos de seu marido,
na 2ª-feira, as 11 da noite ponha 3 mil reais, em um envelope e coloque dentro
do cesto de lixo do posto de gasolina Petrobrás, que fica na Rua Vergueiro nº
290. Estarei vigiando, não tente bancar a esperta. Vá sozinha.’’
Marcos leu e releu o bilhete varias vezes. O dinheiro não era
problema. Que decisão tomar, pagar e correr o risco de continuar a chantagem,
não pagar e correr o risco da foto cair nas mãos do marido de Ana Lucia, levar
o caso à Polícia e o assunto se tornar público, expondo todos, inclusive ele
que, por mais que estivesse envolvido com Ana Lucia, não cogitava abandonar a
família? Começavam a pagar o preço de uma felicidade fugidia.
Em tempo: os personagens são fictícios, mas os
fatos são verdadeiros. Interferi, como advogado, para a melhor solução.
Portanto, aos ‘’aventureiros do amor’’ recomendo cautela.
segunda-feira, 9 de maio de 2016
Para não dizer que não falei de Eduardo Cunha
Quando tive a idéia de criar meu ‘’blog’’, pretendi denominá-lo ‘’blog
do politicamente ‘’incorreto’’. E qual o por quê deste nome? Porque, ao
longo dos anos, sempre que me reunia com amigos, para jogar conversa fora,
minhas idéias e conceitos eram considerados ‘’politicamente
incorretos’’. E sigo assim, procurando manter coerência apenas comigo
mesmo. Todavia, quando pesquisei na internet, constatei que já existia blog com
aquele nome. Foi quando me lembrei de historia contada pelo falecido poeta
gaúcho, Mario Quintana: certa feita, fora ele procurado por escritor
principiante, pedindo-lhe sugestão para titulo de livro, que acabara de
escrever. Ironicamente, respondeu-lhe o poeta: ‘’seu livro fala de flautas e trombones?’’ ‘’não!’’, respondeu-lhe o noviço escritor, ao que retrucou o poeta:
‘’eis, aí, o titulo buscado por você:
‘’Nem Flautas, Nem Trombones’’. Inspirado no maior, dei nome ao menor e
sigo com esta raquítica banda, mas sem a preocupação de ser considerado ‘’politicamente incorreto;’’ Já levei
pauladas, por atacar o PT, por contar meu apreço a Carlos Lacerda, à Revolução
de 1964. Mais recentemente, alguém acusou-me de ‘’assecla da corrupção’’, porque afirmei que delação premiada, com
delator preso, caracteriza ‘’extorsão
mediante seqüestro’’. Ainda esta semana, lá de longe, recebi e-mail,
chamando-me a mim, incapaz de matar barata, (prefiro espantá-las) de torturador,
porque teria saído em defesa de Jair Bolsonaro. Tratei de curar o equivoco,
dizendo que não sou eu, mas a Constituição é que confere ao deputado, através
da imunidade parlamentar, a livre manifestação de pensamento, quando
exteriorizada, no âmbito do Congresso Nacional. Faço tão prolongada introdução,
porque quero falar do episodio ‘’Eduardo
Cunha’’, não para defendê-lo ou apoiá-lo, mas para afirmar, de forma ‘’politicamente incorreta’’, que, mais
uma vez, o Supremo Tribunal Federal rasgou a Constituição, violando duas
clausulas pétreas: a que dispõe sobre a presunção de inocência do réu e o
principio da autonomia dos Poderes. Confesso que ando meio afastado do
noticiário sobre ‘’lava jato’’ e Petrolão’’. Constrange-me, como advogado
e cidadão, constatar que os empresários, que se recusaram à delação premiada,
continuam presos e os corruptos, de todo gênero, que saíram dedurando, qual
metralhadora giratória, circulam, livremente. É a justiça às avessas. Assim,
talvez em razão de meu distanciamento da mídia, não tenha tomado conhecimento
de que Eduardo Cunha já tenha sido julgado e condenado, pelos crimes, a ele
imputados. Todavia, se ainda não há sentença condenatória, não se lhe podia
aplicar a pena de suspensão de seu mandato. Até seu afastamento da presidência
da Câmara (que se pode aceitar, como medida cautelar, pela condição de poder
vir ocupar a Presidência da República), afigura-se-me como precipitada, já que
Dª Dilma ainda não foi despejada do cargo. Por outro lado, a suspensão ou
cassação do mandato, é atribuição exclusiva do Poder Legislativo, tanto assim é
que Eduardo Cunha está sendo processado e será julgado pela Câmara Federal.
Como ficará a decisão do Supremo, se ele for absolvido pelos seus pares? A quem
tem um mínimo de bom senso, deve ser objeto de preocupação, quando o juiz, em
cujas mãos todos podemos estar, ouve mais a ‘’voz
das ruas’’ do que a ‘’voz da lei’’.
sexta-feira, 6 de maio de 2016
Carta a um irmão entristecido
Um dia, você, na sua ideologia, retirada da ‘’teoria da libertação’’, fugidia quimera
de igualdade e justiça social, filiou-se ao PT, imaginando que, com a chegada
da classe operaria ao Poder, todas as desigualdades seriam suprimidas, e
passaríamos a viver no melhor dos mundos. Eu, cá de mim, cultura pouca, mas
vivencia muita, passo longe de suas crenças. Não vou ficar de ‘’lengua-lengua’’, demonstrando que,
historicamente, nunca houve sociedade totalmente justa e que, nos países
desenvolvidos, o Estado tem funções mínimas, objetivando reduzir tais
desigualdades. A esquerda, a sua esquerda, fracassou, porque pregou a utopia e,
quando chegou ao Poder, viu que ‘’o
buraco era mais embaixo’’ e quem manda mesmo são as leis do mercado. Tenho
ciência que ‘’seu PT’’ não é este que
morre, agora, sem honra nem gloria, afogado em inusitado mar de corrupção. Por
que isto aconteceu? Quantas vezes você deve ter se perguntado isto, com o
amargo gosto da decepção. Porque – respondo eu – o exercício do Poder exige
preparo, no mais largo sentido do termo. Em algum lugar da Bíblia está gravado
‘’não é o servo maior que o senhor’’,
o que, em entendimento rasteiro, significa que quem exerce o Poder deve ser
superior, em formação cultural e moral, aos que a ele estão submetidos. É
preconceito? Pode até ser, mas é assim que a roda gira. O fundamental é que
todos tenhamos as mesmas possibilidades. A partir daí, fica por conta de cada
qual, com esforço, alcançar seus objetivos. O populismo, o Estado paternalista
acabou e seus resquícios apenas são encontrados em países subdesenvolvidos, dos
quais – espero – o Brasil esteja saindo. Estes, que agora ascendem ao Governo,
longe estão do meu ideal de governantes, todavia trazem consigo a esperança de
novos rumos. Aprendi, no exercício da profissão, confiar, desconfiando e sigo,
assim, sem grandes expectativas de que o Brasil rompa a barreira do
terceiro-mundismo, mas, se não caranguejarmos, já está muito bom. Não lhe
escrevo, depois de prolongado silencio, para tripudiar sobre o melancólico fim
de seu partido. O importante é que sirva ele de reflexão, para você coordenar
seu ideal, sem abrir mão dele, mas entendendo, com objetividade, como o jogo
político é jogado, em todo o ocidente. Sigo, como você, julgando que ‘’todos têm direito a uma vida humana digna’’
e assino embaixo de Rosseau, quando este afirma que justa é a sociedade em que
‘’nenhum cidadão seja tão rico para poder
comprar um outro, nem tão pobre para que alguém seja obrigado a vender-se’’.
Veja, assim, que, na essência, concordamos e queremos a mesma
coisa. O que nos diferencia são os meios para chegar lá.
Fica meu abraço fraterno e meu desejo que possamos retomar
nossos debates, que muito me enriqueceram.
Com carinho,
Saul
quinta-feira, 5 de maio de 2016
A sombra tenta ofuscar a luz
Tenho ancestral hábito de percorrer livrarias, em busca de
assuntos novos, independentemente de suas naturezas. A depender de meu estado
de espírito, vou da ficção à receita de bolo, passando pelos livros de
Historia, estes, meus prediletos. Nos tempos de jovem – já o fui, acreditem! –
minhas livrarias preferidas eram a ‘’Freitas Bastos’’, na XV de Novembro, a
‘’Civilização Brasileira’’ e a ‘’Livraria Francesa’’, estas últimas na Barão de
Itapetininga, que nem sei se ainda existem, tanto tempo que não vou àquelas
bandas. Atualmente, minha escolhida é a ‘’Martins Fontes’’, na esquina das
Avenidas Paulista e Brigadeiro Luiz Antonio, à direita de quem vai para o
‘’Paraíso’’. Freqüento-a, com fidelidade, há vários anos, o que me permite, com
desenvoltura, achar o que procuro, ou garimpar, sem gastar muito tempo. Não é
que, na última semana, em lá estando, deparei com um livro do Fernando Jorge,
tendo por tema a obra de Paulo Francis? Surpreendi-me, porque imaginava que o
Fernando Jorge estava morto, já que nunca mais ouvira falar nele. Fora
intelectual menor que, lá pelos anos 70, pretendeu ser um Gregório de Matos,
cognominado ‘’boca do inferno’’, pela natureza ferina de seus poemas. Todavia,
Fernando Jorge ‘’não decolou’’ e, no final dos anos 80, publicou um livro
‘’Cala a boca, Jornalista’’, falando da censura, à época do regime militar. O
livro, além de medíocre, chegava tarde, com Sarney em pleno governo e muitas
outras obras sobre o tema, desenvolvidas com mais competência. Comprei o livro
sobre o Paulo Francis, levei para casa e perdi – literalmente, perdi – algumas
horas da noite, lendo uma seqüência de ataques rasteiros. Fernando Jorge, com
incompreensível fúria, investe contra Francis, acusando-o de plagiário e
inimigo do idioma, tantos os erros gramaticais cometidos. Livro escrito com
ódio. Ou, em algum lugar do passado, Francis espinafrou Fernando Jorge, que não
o perdoou, ou é inveja mesmo, já que Fernando Jorge, de larga data mergulhado
no ostracismo, provavelmente não suportou o retumbante sucesso de Paulo
Francis, articulista dos principais jornais do Brasil e cronista habitual da
‘’Globo’’. Além disto, produziu importante obra literária, da qual destaco
‘’Cabeça de Papel’’ e ‘’Trinta Anos esta Noite’’, de leitura obrigatória.
Francis, com a acuidade que o caracterizava, denunciou, com quase 20 anos de
antecedência, os desmandos na Petrobrás.
No dia seguinte, voltei à livraria e, como sou cliente
habitual, devolvi o medíocre livro do Fernando Jorge, ou, melhor, troquei-o por
outro: ‘’O Sangue do Cordeiro’’, cujo autor, Sam Cabot, conta a historia de
importante documento, subtraído da biblioteca do Vaticano, por feroz poeta
antipapista e que, quando e se revelado, poderá abalar a estrutura da Igreja
Católica. Promete! Depois eu conto.
quarta-feira, 4 de maio de 2016
A charge e o voto
O cartunista Chico Caruso fez uma charge, publicada no jornal
‘’O Globo’’, vilipendiando a classe
dos advogados, retratada como ‘’pior do
que bandido’’, como diz o texto do desenho. A Ordem dos Advogados não se
pronunciou, em defesa da classe, mas três profissionais do Direito, sentindo-se
atingidos em sua honra e dignidade, estão movendo ações indenizatórias contra o
cartunista, o qual, em sua defesa, invoca a liberdade de expressão, amparada
por mandamento constitucional. A mim, advogado de pouco lustro, mas larga
jornada, a charge, que considero coisa chata, sem graça, despida de qualquer
valor artístico, não trouxe qualquer desconforto subjetivo. Todavia, sair dando
tiros verbais e por escrito e, depois, buscar proteção na ‘’liberdade de expressão’’ é interpretar a ordem constitucional de
modo equivocado. A ‘’liberdade’’ não
tem valor absoluto, limita-se pela liberdade do outro e quem ultrapassa esse limite,
deve responder pelo excesso. Assim o é em todos os países civilizados. Vejam a
diferença de tratamento, no caso do deputado Jair Bolsonaro que, em seu voto
pelo impeachment, rendeu homenagens a um oficial do Exercito, já falecido e
tido como torturador, à época do regime militar. É claro que Bolsonaro pode
invocar, em seu beneficio, o disposto no artigo 53 de nossa Lei Maior, que
estabelece: ‘’os Deputados e Senadores
são invioláveis por suas opiniões, palavras e votos.’’ Observo, na esteira
dos ensinamentos do eminente constitucionalista, José Afonso da Silva, que ‘’o STF firmou entendimento no sentido de
que qualquer declaração feita nas dependências do Congresso Nacional, seja na
Tribuna ou nas Comissões, é objeto de inviolabilidade parlamentar, não sendo
necessário analisar se existe ou não nexo causal entre as afirmações e o
exercício do cargo para se aplicar a inviolabilidade.’’ (Inq. 655, Relator,
Ministro Nelson Jobim). Como nos lembra o insigne jurista, a inviolabilidade
constitui, material e formalmente, verdadeira excludente penal. Ora, a matéria
é de conhecimento primário, para qualquer advogado, mas, mesmo assim,
noticia-se que a Ordem dos Advogados, que nem mesmo demonstrou desagrado pela
charge, estampada em um dos mais importantes jornais do País, ingressou com
representação, pugnando pela cassação do Deputado, pela sua inoportuna
declaração de voto. Vivemos tempo de cizânias, reconheço, mas, pelo menos os
operadores do Direito devem observar as leis, antes de saírem atirando, como se
amadores fossem.
terça-feira, 3 de maio de 2016
A estranha visita
Aquela fora uma sexta-feira para ser esquecida. O frio,
cortante, chegara pra valer, escondendo as coxas torneadas em pesadas calças
compridas e casacos, ainda cheirando a guardado. Os rostos alegres foram
substituídos por semblantes taciturnos. A ida ao fórum fora inútil: os juízes
federais, ao contrário dos estaduais, recusam-se a receber advogados. Talvez se
julguem emissários de Deus. Camuflam, na arrogância, o seu pouco saber. A
reunião, que era para ser pacifico entendimento, quase se transformou em guerra
campal. Um de seus clientes preferidos – transformado em amigo afável – lutava,
bravamente, para sobreviver, a meio a uma economia, sem rumo. Não temos
governo: um, já morto, precisa ser sepultado, para que o outro se instale. Eram
seis da tarde, quando retornou ao escritório, lembrando-se de outras
sextas-feiras, quando, instalado na Faria Lima, tirava as tardes para passear
no ‘’Shopping Iguatemi’’, ou fazer sauna e massagem relaxante (sem sacanagem).
Planejara não mais trabalhar às sextas, quando batesse os 50 anos e, por algum
tempo, conseguiu seu intento, mas, como ninguém é condutor do próprio barco, as
circunstancias passaram a exigi-lo cada vez mais. Felizmente, o dia acabara.
Era deixar aquela papelada toda, apagar as luzes e ir para casa, fazer o que
mais gostava: brincar com seus cachorros, oferecendo-lhes o rosto, para ser
lambido e os braços, para serem mordidos, com carinho. Estava perdido nestes
pensamentos, quando, já na portaria, foi avisado que um parente o aguardava.
Parente, mas que parente o procuraria, às 6 da tarde de uma sexta-feira? Sentiu
uma pontada no estomago, sinal que má noticia vinha pela frente. Entrou no
escritório e apenas de passagem, olhou para o homem, sentado na sala-de-espera.
Devia ter em torno de 40 anos, magro, estatura mediana, cabelos pretos. A
fisionomia não lhe era estranha, mas não dava para associá-lo a qualquer
parente. Sua secretaria informou que ele não dissera o nome e que já fazia uma
hora, que esperava. Quando ele entrou, encaminhou-o à mesa de reunião, o que
foi prontamente recusado:
- ‘’se você não se
importa, prefiro o sofá, é mais informal.’’
Ele torceu o nariz. Odiava ser chamado de ‘’você’’, por pessoas desconhecidas. Era
pronome de tratamento, que se conquista. Mas lá estava o homem, já instalado no
sofá, cigarro aceso entre os dedos. Puxou a cadeira, sentou-se defronte e, após
alguns segundos de sepulcral silencio, iniciou o diálogo:
- ‘’poderíamos começar
nos apresentando e, depois, o senhor me diz em que lhe posso ser útil. Afinal,
qual nossa relação de parentesco?‘’
- ‘’até aceito que você
não me reconheça, afinal, quando nos vimos, pela ultima vez, você tinha 16
anos, tinha vindo estudar em São Paulo e estava fazendo vestibular. E eu já era
mais velho do que hoje’’.
Como aquele homem, até agora um estranho, sabia detalhes
longínquos de sua vida? E como alguém podia, hoje, ser mais jovem que ontem?
- ‘’Afinal – perguntei
– quem é o senhor e o que quer de mim?’’
Ele sorriu, levantou-se, dirigiu-se até a parede, onde tinha
vários posters de familiares e, apontando ao último à direita, apenas murmurou:
- ‘’estou aqui, você
não se lembra? Foi nosso ultimo natal.’’
A voz calou-lhe na garganta, o suor empapou-lhe a camisa e o
coração ameaçava pular pela boca. Aquele homem era seu pai, que, vendo sua aflição,
afagou seus ralos cabelos, prendeu suas mãos entre as dele, massageando-as,
suavemente. Minutos depois, quando percebeu que ele recuperava um mínimo de
lucidez, sentou-o a seu lado, no sofá e, sem desprender as mãos, falou:
- ‘’fique tão calmo,
quanto possível e preste atenção: na verdade era para eu levá-lo, hoje, agora,
daqui mesmo. Mas você sabe como é sua mãe. Com aquele jeitinho dela, pediu e
repediu e ele concordou em deixar você ficar mais um tempo, não mais que um
ano. Tempo para você arrumar suas coisas, receber aquele dinheiro que vai dar
segurança a sua família, pedir desculpas a uns e outros pelos erros e
ressentimentos, preparar-se, enfim, para a viagem definitiva. Quando chegar a
hora, eu voltarei para buscá-lo.’’
Atônito, quase sem voz, perguntou:
- ‘’e pra onde o senhor
vai me levar, ou melhor, pra onde eu vou?’’
- ‘’não sei, -
respondeu ele -. Levo você até certo ponto e, depois, você segue sozinho, por
outro caminho, que não conheço, nem sei onde vai dar. Aproveite o tempo, que
sua mãe conseguiu para você, para pensar e, se possível, redimir seus
erros.Confesso que esperava mais de você, mas não estou totalmente
decepcionado... Ah, outra coisa: não fale deste nosso encontro, nem para sua
mulher. E agradeça, todos os dias, a sua mãe, por esta prorrogação que ela
conseguiu para você. Agora, eu vou embora. Até qualquer hora.’’ E saiu, com
aquele seu passo miúdo e estático, enquanto ele apenas olhava o retrato na
parede, o pai, sentado à cabeceira da mesa. Nosso último natal. Será, também, o
próximo, seu último natal?
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