quinta-feira, 15 de outubro de 2015

As incertezas do amor

Debruçado na sacada do apartamento, Eduardo via as luzes da Avenida Paulista se acenderem e o frenético corre-corre de pessoas e carros, provavelmente de volta para casa. Amava aquela avenida, com suas galerias, onde se podia achar todas as coisas, principalmente as inúteis. Amava aquele burburinho de gente apressada, no afã de resolver seus problemas, enquanto a vida passava, mais rápido, não lhes dando tempo de vivê-la. Quando desfizera seu terceiro casamento, decidira que iria morar ali, naquele prédio, quase da idade dele, mas que conservava o ‘’charme’’ de todos os tempos. Próximo aos 60, Eduardo tomara a decisão de não mais se ligar a outra mulher. Maria Clara, a primeira, fora paixão vulcânica. Conhecera-a numa choperia da moda, uma ‘’bier’’ não sei o que, lá em Moema. Três meses depois ela comunicou que estava grávida e daí foi só apressar o casamento. Tiveram uma filha, Maria Cristina, esta sim, a mulher definitiva de sua vida. Na festa de 15 anos da filha, ele com 40, conhecera Cíntia, loura, alta, olhos verdes e coxas estonteantes. Começaram a se encontrar, secretamente, até que um dia Maria Cristina revelou-lhe que o segredo já não era tão segredo assim, que ele não estava sendo digno com a mãe, que estava sendo humilhada, perante as amigas. Ele quis negar, que era apenas amizade, mas, pelo menos para a filha, não podia mentir. Na verdade, seu casamento já tinha caído na monotonia e o único elo com a esposa era a filha. Deixou o apto e a casa da praia para ela, alem de pensão alimentícia, que lhe permitia manter o mesmo padrão de vida. Foi morar com Cintia, primeiro, em um ‘’flat’’, na Alameda Lorena e depois, em um apartamento, nas Perdizes. Eduardo herdara do pai uma distribuidora de medicamentos, que ficava em Alphaville. O negocio andava sozinho, mas ele mantinha o habito de visitar clientes e fornecedores, o que lhe dava flexibilidade de horário. Cintia, por sua vez, era Procuradora do Município, cujo salário dava-lhe plena liberdade financeira. Viajavam muito. Levavam a vida como se esta fosse grande festa que, como toda festa, tem hora para acabar. E acabou, naquela tarde, em que ele conheceu Cecília, executiva de uma multinacional de medicamentos. Exuberante, no ser e no falar, seria parceira ideal nos negócios e na cama. Deixou para Cíntia o apartamento das Perdizes e foi morar com Cecília, em Alphaville, em um condomínio fechado. Cecília passou a ser a principal executiva de sua Empresa... e de seu dinheiro. Em pouco mais de dois anos, passaram a ter constantes e desgastantes discussões sobre negócios. Até que ele descobriu que ela estava desviando recursos da empresa, em atividade paralela. Demitiu-a da empresa e de sua vida. Todavia, Eduardo era obcecado por viajar, conhecer todos os lugares possíveis. Mas, viajar sozinho, sem ter alguém para trocar impressões, elogios e criticas? Nem pensar! Foi, então, que engendrou um plano inusitado: postou em seu facebook a seguinte mensagem: ‘’coroa, ainda na casa dos 50, com tudo em cima, procura companhia feminina, entre 30 e 40, para viagens nacionais e internacionais, despesas pagas, mas sem envolvimento sentimental. Marcar entrevista pelo telefone tal.’’ O telefone tal era de uma agencia de empregos, cujo proprietário, Inácio, era seu companheiro, nas ‘’peladas’’ do clube. Ele passou para o amigo as ‘’características básicas da sua eleita’’ – alta, bonita, coxas torneadas, educada, bem informada, não necessariamente culta. 15 dias depois do anuncio, Inácio ligou: - ‘’Cara, você não acredita; Recebemos mais de 100 ligações, entrevistamos, até agora 20 e, dessas, 05 merecem ser conhecidas por você, principalmente uma morena, sotaque carioca, 35 anos, corpo perfeito e papo pra lá de agradável. Solteiríssima, passou por algumas desilusões amorosas e, agora, só se interessa por aquilo que ela chama de ‘’relações efêmeras’’. E leva jeito que gosta do ‘’esporte’’. Ela só fez uma exigência: quer que você ligue, convidando-a para jantar. É mulher, bem resolvida, em todos os sentidos e não quer ser confundida com prostituta, ou coisa que o valha. Estou passando o nome e o telefone dela para seu e-mail’’. Dois dias depois, Eduardo resolveu ligar para a tal mulher, que se chamava Angélica. – ‘’Oi, Angélica, aqui o Eduardo, do anúncio. Como solicitado por você, estou ligando para marcarmos nosso jantar. Que tal amanhã, posso buscá-la em sua casa.’’ Do outro lado, uma voz quente e rouca respondeu: - ‘’melhor nos encontrarmos no restaurante. Você conhece o ‘’Tatine’’? Só pela escolha do restaurante, Eduardo concluiu que se tratava de mulher de bom nível socioeconômico. E, quando ela entrou no restaurante, quase meia hora após a marcada, só ao vê-la, sabia que não se enganara. Morena, cerca de 1,70, trajava vestido amarelo, um pouco acima do joelho e colado, apenas o suficiente para realçar-lhe as formas. Ao se aproximar, ela o presenteou com um sorriso generoso, que desenhava duas pequenas covas no rosto. E, antes que o jantar terminasse, Eduardo já sabia que, contra tudo o que decidira, iria para o quarto casamento. 

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

A ascensão e queda do teatro brasileiro

O programa ‘’Roda Viva’’, um dos melhores da televisão brasileira, brindou-nos, na ultima 2ª-feira, com saborosa e rica entrevista com o ator Antonio Fagundes, também produtor de peças teatrais. Falou ele, dentre vários temas, das dificuldades financeiras atuais para levar à cena uma peça, com mínimo de qualidade, até para ele, artista consagrado. Lembrou a época em que as sessões de teatro iam de 3ª a domingo, com direito a dois espetáculos, nos finais de semana. A progressiva escassez de publico reduziu o teatro para exibições, apenas aos sábados e domingos. Acho que, sem falsa modéstia, consigo explicar um pouco essa derrocada. Afinal, entre os anos 60 e até o começo dos anos 90, assisti à maioria dos espetáculos teatrais, no eixo Rio - São Paulo. Cito alguns, de memória, com a certeza de omitir outros importantes: Cacilda Becker e Valmor Chagas em ‘’Quem tem medo de Virginia Wolff’’; os mesmos em ‘’Esperando Godot’’, por sinal a ultima de Cacilda; Fernanda Montenegro em ‘’A volta ao lar’’; Juca de Oliveira, em ‘’A Cozinha’’ e o mesmo Juca em ‘’O Inimigo do Povo’’; Maria Fernanda, em ‘’Um Bonde Chamado Desejo’’; Fernando Torres em ‘’A Última Noite de Cristal’’; Tonia Carreiro, em ‘’As Pequenas Raposas’’; Paulo Gracindo, em ‘’A Procura do Senhor Green’’; Maria de La Costa, em ‘’Um Tiro no Escuro’’, Paulo Autran, em ‘’Hamlet’’; Stênio Garcia em ‘’Cemitério de Automóveis’’ e incontáveis outras, sempre com casa cheia, ingressos comprados com, pelo menos, uma semana de antecedência. Minha preferência era a segunda sessão dos sábados, o que permitia esticar para as casas noturnas da época, a ‘’Baiúca’’ e o ‘’Stardust’’, ambos funcionando, naqueles tempos, na Praça Roosevelt e, no Rio, o ‘’706’’, na Avenida Ataulfo de Paiva ou ‘’A Fossa’’, ali na Praça do Lido. E olha que, ainda na Faculdade, vivia com salário de professor e, depois, morando no Rio, como funcionário do Ministério da Fazenda, com um ‘’DAS2’’ que hoje deve corresponder, no maximo, a 10 mil reais. ‘’Viver a vida’’ não custava caro e o teatro era lazer barato. Hoje, qualquer espetáculo não fica por menos de 100 reais e, em sendo um casal – e sempre o era, – se se agregar a balada, não se gasta menos de 500 ‘’pratas’’, o que não é pra qualquer um. A outra causa é que o nível dos atores caiu muito, idem acontecendo com o público. Naquele tempo, sabia-se quem era Ibsen, Vianinha, Pinter, Gogol etc. Hoje, via de regra, vai-se ao teatro para ver, em carne e osso, o galã da novela das 8. Lembro-me da ultima vez que lá estive, quando entrou em cena um desses galãs, ouvia-se, da platéia, o grito de ‘’lindo’’, apesar da voz do dito cujo mal alcançar a décima fila. Aí reportei-me ao silencio sepulcral, que se fazia, quando Fernanda Montenegro, em ‘’O Homem do Principio ao Fim’’, recitou o monologo de Santa Terezinha. Nesse dia do ‘’lindo’’, concluí que minha carreira de espectador tinha terminado. E tem mais: os atores, ao inicio citados, todos eles foram forjados no teatro e, depois, foram enriquecer a televisão, como demonstrou o próprio Fagundes, em ‘’O Rei do Gado’’. Hoje – se podem ser considerados atores – nasceram e foram criados na televisão, o que lhes suprime técnicas básicas de interpretação. Conclusão: preços altos e atores ruins deixam as poltronas vazias.  

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Rememorando Cícero

Liga-me cliente-amigo, empresário de boa cepa, que gasta seu já escasso tempo, lendo minhas ‘’mal traçadas’’ e me pergunta o que significa ‘’catilinaria’’, expressão desusada – como eu -, que empreguei outro dia. Dei-lhe rápida explicação sobre seu sentido atual – não tão atual assim -, como sendo ‘’discurso acusatório inflamado e contundente’’. Quer ele saber mais: de onde tirei tal expressão. Falo, mui superficialmente, de Cícero, o maior orador de seu tempo, que, em discurso inflamado, no Senado Romano, desanca o também Senador Catilina, que tentara liderar um frustrado ‘’golpe de estado’’. O assunto mexeu com meu ‘’baú de recordações’’, remetendo-me ao Liceu Pasteur, onde fiz o curso clássico, que não mais existe (o curso, não o Liceu, que continua, impávido colosso) e, em cujas aulas de latim, ministradas pelo exigente Helio Pimentel, enfrentávamos Cícero, Ovídio e Virgilio. Lembro-me dos textos percorridos com meu querido amigo, o hoje laureado jornalista, José Paulo de Andrade, então residindo na Rua Santa Cruz e cuja mãe nos brindava com uma lasanha de comer ajoelhado. ‘’As Catilinarias’’, até onde me lembro, eram os discursos mais fáceis de serem traduzidos. Barra pesada mesmo, era o ‘’De Officiis’’, obra filosófica e as ‘’Éclogas’’ de Ovídio. Aí o jeito era consultar a ‘’burra’’, livro proibido, que continha o texto, em latim e, ao lado, a versão, em português. Em meu saudosismo, percorro meus livros, até localizar as ‘’Catilinarias’’, discurso pronunciado, no senado romano, por Marcos Túlio Cícero, no ano 63 A. C. Releio-o, com o auxilio de dicionário ‘’latim-português’’, já que o tempo longevo obscureceu-me os neurônios. De qualquer maneira, adapto, pela inequívoca co-relação, alguns trechos do discurso para os dias atuais, substituindo Catilina por Dilma:
‘’Afinal, até quando, ó Dilma, abusarás de nossa paciência? Por quanto tempo ainda estas tuas mentiras irão nos enganar? Qual a finalidade desta desmesurada sede de poder? Como é possível que nenhum receio ou apreensão te cansem, nem os que clamam contra ti, nem a união dos bons cidadãos, nem a indignação, que se vê estampada no rosto de todos que, nas praças publicas, exigem tua renuncia? Não percebes que teus intentos são manifestos? Pensas que alguém, dentre nós, ignora o que articulastes ou onde estivestes ou com quem te reunistes ou o que planejaste? Ó tempos! Ó costumes! Tais coisas o Congresso sabe, a oposição vê e, no entanto essa mulher sobrevive! Só sobrevive? Muito mais do que isso. Ela articula com a Câmara e o Senado, participa de reuniões ministeriais, observa e designa um e outro para cargos... Ó Dilma, que coisa ainda existe neste País para deleite teu? Aqui, além de tua turma, integrada por indivíduos corruptos, ninguém há que não te despreze ou odeie... Ora, se este Congresso resolver que é do agrado dele sua demissão, declara então que vai obedecê-lo e livra a República do medo de tua administração’’...
 E, em outro trecho, Cícero parece antecipar o Juiz Sergio Moro falando para Lula: ‘’Se agora, ó Lula, eu te mandasse prender, penso que todos os cidadãos honestos diriam ter eu agido tardiamente do que praticado qualquer ilegalidade.’’

Obs: Marco Túlio Cícero nasceu em janeiro de 108 a.C e morreu em maio de 45 a.C. Foi filósofo, político, mas, acima de tudo, o mais importante advogado da Roma antiga.

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

De contradições a vida é feita

Outro dia, numa audiência, o advogado da parte contraria, dinossauro como eu, diante do comportamento arbitrário do juiz que, pela aparência, ainda não esquentara a cadeira, virou-se para mim, desolado: ‘’colega, ainda bem que estou chegando ao fim do caminho e não precisarei viver mais situações como esta’’. Sorri-lhe, em muda solidariedade, mas fiquei com a frase na cabeça. É verdade, o acumulo dos anos vividos nos faz conformados e até irônicos, diante dos absurdos do cotidiano, contra os quais não temos mais tempo e forças para nos debatermos. Concluímos – tardiamente – que o mundo, suas coisas e pessoas, é regido pela insensatez. Sempre foi e sempre será assim, de Adão e Eva, até o final dos tempos, que, com certeza, virá, porque nem Deus, ‘’penhor supremo do sumo bem’’, como ensinava o catecismo de minha infância, poderá suportar tantas contradições. Um dia ele perde a paciência e, do alto de sua onipotência, grita: - ‘’pra mim, chega! Vou destruir tudo e, se resolver recomeçar, será sem esta porcaria de ser humano. Pedro, abre todas as torneiras e faça soprar todos os ventos. Só me acorde, quando não restar pedra sobre pedra!’’ Por que estou a dizer tudo isto? Porque, nestas ultimas semanas, a mídia só falou no filete de água tóxica localizado em Marte. O DASA anunciou a retomada do programa espacial e, só pra inicio de conversa, vai investir 05 bilhões de dólares em tal programa. Já há fila de espera para viajar, a 200 mil dólares por cabeça, no ônibus espacial, com destino àquele planeta. Enquanto isto, por aqui, o câncer continua matando, a aids continua matando, a fome continua matando. Enquanto isto, por aqui, a Turquia recusa-se a receber os fugitivos da guerra, Israel quer exterminar os palestinos e esses querem afogar os israelenses no mar. Enquanto isto, por aqui, o Estado Islâmico destrói importantes sítios arqueológicos e corpo de bebê, em decomposição, é encontrado em ilha grega, atentados com carros-bomba matam dezenas de pessoas, no Iraque e tropas do Afeganistão bombardeiam hospital. Enquanto isso, por aqui, o governo mais corrupto da historia pátria negocia sua permanência no poder, com o Congresso mais corrupto da historia pátria. E, não bastasse tudo isto, a justificar a exterminação da espécie humana, o Botafogo, não satisfeito em me humilhar, estando na ‘’serie b’’, ainda cede empate ao ‘’Sampaio Correia’’, no ultimo minuto da prorrogação. Repito meu colega, do outro lado da mesa: -‘’ainda bem que não precisarei, por muito tempo mais, suportar estas indignações.’’

terça-feira, 6 de outubro de 2015

O sonho realizado

Acácio vivia acabrunhado, quase depressivo. Chegara aos 70 com as mãos e os bolsos praticamente vazios e seu único patrimônio era o modesto apartamento das Perdizes e os carros, quase anciãos, dele e da esposa. Conseguira formar os filhos, mas, nesta casa, sabia que os frutos eram colhidos apenas por eles. Não podia reclamar: casara com uma mulher lindíssima, coxas longas e torneadas, com quem viveu intensamente, viajando pelo Brasil e pelo exterior, freqüentando os melhores restaurantes e casas noturnas do eixo São Paulo – Rio. Na cama, ela era um vulcão, sempre em erupção. Mas tudo isto ficou para trás, e o passado, como diz a canção, ‘’é uma roupa velha que não nos serve mais’’. O interesse da esposa por ele foi minguando e transformando-se em irremovível ressentimento, depois que uma pessoa da própria família, para se preservar das próprias lambanças, contara a ela que ele estivera envolvido com uma colega de trabalho. A esposa não aceitou suas explicações e resolveu transformar a vida dele num inferno. O tempo foi passando e ele, em silencio ensurdecedor, aprendeu a administrar aquele inferno: refugiava-se nos livros e no trabalho. Sempre se perguntou porque a mulher, se tinha convicção inabalável de sua canalhice, não o pusera para fora de casa. Talvez atormentá-lo, cotidianamente, imaginava ela ser vingança mais eficiente. Mas este era problema, que não mais o afligia. Aflição mesmo era constatar que chegara aos 70, tendo que trabalhar muito para manter medíocre padrão de vida. E, se morresse ou, pior, se ficasse gravemente doente, como sobreviveriam os dois? Preferia pular de um daqueles edifícios envidraçados da ‘’Faria Lima’’, a depender de filhos, cada qual enfrentando seus ‘’leões’’. Um dia, ou melhor, uma noite, Acácio sonhou com o pai. Sonho estranho: o pai apenas sorriu-lhe, com aquele sorriso contido (não se lembrava de vê-lo gargalhar) e lhe entregou um pedaço de papel, contendo alguns números e depois desapareceu, sem nada dizer. Esse sonho repetiu-se várias vezes, sempre do mesmo jeito, sempre os mesmos números, que Acácio até decorara. Qual o significado daquele sonho, se é que sonho tinha qualquer significado? Por que o pai, de quem ele raramente lembrava, aparecia-lhe com tanta freqüência? E aqueles cabalísticos números, o que indicariam? Os dias se passaram, o pai desapareceu dos sonhos e Acácio já o tinha esquecido, quando, um sábado, leu no jornal que a mega-sena estava acumulada em quase 60 milhões e a noticia, para aguçar o apetite, dizia o que se podia fazer com aquela dinheirama toda. Tudo conspirava para que Acácio jogasse, pela primeira vez: havia uma lotérica, no supermercado, onde, aos sábados, ele fazia as compras semanais da casa. Anotou, na cartela, os números, ditados por seu pai e guardou o comprovante, na carteira. Achou-se meio ridículo, com tudo aquilo, por isso preferiu guardar silencio. Os dias se passaram e ele, enfrentando uma guerra em casa e outra, na rua, esqueceu-se do jogo, que adormecia, em sua carteira. Passara quase um mês, quando, uma noite, como de habito, assistia ao ‘’Jornal da Bandeirantes’’, quando o Boechat deu a noticia: ‘’ainda não apareceu o ganhador do teste nº tal da mega-sena que pagou 62 milhões de reais.’’ Só então Acácio lembrou-se de seu jogo. No outro dia, antes de ir para o trabalho, passou por uma lotérica e, de posse do resultado, foi conferi-lo, em um café, ao lado. Suas mãos tremeram, seus olhos ficaram embaçados e a voz calou-se na garganta. Ganhara! Era ele o proprietário daquela fortuna. O que fazer? Tudo o que pretendia era conquistar a liberdade. Libertar-se daquela vida medíocre, feita de mesmismo. Libertar-se daquele casamento, chamuscado por um ressentimento que, muitas vezes, transformava-se em ódio, aquele ódio que faísca dos olhos, que grita, sem abrir a boca. O que fazer com 60 milhões, quando a vida se transforma em gosto amargo de fracasso? Viajar, para onde e com quem? Com a tranqüilidade de quem tem certeza do que faz, Acácio retirou o premio, em cheque administrativo, endossou-o, depositou na conta se suas esposa, colocou o recibo do deposito em envelope fechado, que deixou sobre o travesseiro dela e se dirigiu àquela praia, de cuja pedra gostava de apreciar o mar. Quando o sol começou a mergulhar nas águas, ele pulou da pedra e nadou em direção ao poente. Apenas ele, o mar e o sol findante. 

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

A montanha pariu um rato

Depois de muita conversa e barganhas mil, a grande reforma, preconizada pela Presidente Dilma, resumiu-se a suprimir 9 ministérios que, somados, não representam 1 e promover uma redução de gastos da maquina publica que, por ser ínfima, constitui a chamada ‘’economia de papel higiênico’’.  Quanto à reforma ministerial, por favor, não cometam a injustiça de compará-la àquela, efetuava por Collor, na pré-cassação de seu mandato. O ultimo Ministério Collor era integrado pela elite do pensamento brasileiro, como, por exemplo, Célio Borja, jurista de vasta bagagem, que ocupou a Pasta da Justiça. O novo Ministério Dilma mudou para pior. Dou apenas dois exemplos, para que estas ‘’mal traçadas’’ não se transformem em verdadeira catilinaria. Para o Ministério da Educação, substituindo um especialista, na área, professor emérito, foi Mercadante, o queridinho de Dilma, mas inimigo do povo petista, em geral e de Lula, em particular. Para o Ministério da Defesa – incomensurável paradoxo – foi o comunista Aldo Rabelo. A propósito, almoçando com queridíssimo amigo, Coronel da reserva, observou ele, do alto de sua experiência: ‘’corto minha mão se um general, Almirante ou Brigadeiro aceite receber ordem de Ministro comunista’’. Isto sem falar no novo Ministro da Saúde, cuja experiência, na área, é ter sido Secretário da Agricultura... do Piauí. O Brasil é ou não é o país da piada pronta? Na verdade, ao promover tão atabalhoada reforma, Dª Dilma procurou – só não sei se conseguirá – livrar seu emprego, agora que Eduardo Cunha, furibundo com a divulgação de suas suíças contas, promete dar o troco, botando o pedido de impeachment para rolar. Dizia-me aquele mesmo Coronel: - ‘’nem que todo o povo saia às ruas implorando, os militares aceitarão o poder, de volta’’. E ele tem razão: à exceção de Michel Temer, que está lá pra isto, ninguém aceita o emprego de Presidente. O salário não é lá estas coisas, ficou difícil ‘’meter a mão’’ e ainda tem o PMDB, que exige indicar até o faxineiro–chefe. Repito Mussolini: governar o Brasil não é difícil, é inútil.



sexta-feira, 2 de outubro de 2015

O crime quase perfeito



Recebo, com muito agrado, a visita de cliente, quase amigo, cujo divorcio fiz, já La vão 03 anos, bastante desgastante para todos, já que a mulher não queria a separação. Criou ela incontáveis empecilhos, mas ele, entrando nos 60, estava apaixonadíssimo por uma garota de 25. Eu, à época, cumprindo a obrigação de advogado e quase amigo, dei-lhe conselhos, alertei que paixão, como onda bravia, era estado passageiro e que, quando passasse, ele seria o grande perdedor, porque ficaria sozinho e afastado da perenidade que a estrutura familiar proporciona. Mas qual o que! O homem estava ensandecido, que a esposa ficara chata, implicava com a cueca, deixada no banheiro, com o toco de cigarro no cinzeiro, que ele roncava, enfim, tudo era pretexto para uma discussão que terminava, invariavelmente, com ela batendo a porta do quarto. Ele – dizia-me -  sofria a angustia da sexta-feira, sabendo que teria interminável fim-de-semana de duelo com a esposa. Se ele saísse, era porque não gostava de ficar em casa, se ficasse, estava sujando o sofá com o jornal, manchando a mesa com o copo de uísque, ouvindo musica, como se fosse surdo. Um dia, no hospital onde trabalhava – esqueci de dizer que era médico – conheceu uma residente, que fora lhe relatar um caso, pedindo orientação. Morena, olhos verdes, seios pulando da blusa. Encerrada a conversa, cada qual seguiu seu rumo. Na hora do almoço, no restaurante do hospital, ele procurou uma mesa, à janela, debruçada sobre a avenida. Gostava de ver o movimento, as pessoas apressadas, lá fora, ao contrário da vida arrastada, de dentro. Assustou-se quando ela, abrindo majestoso sorriso, perguntou-lhe se podia sentar com ele. Ali começou tudo: garota inteligente, alegre, despojada, um vulcão na cama. A principio, encontros escondidos, que foram ficando menos cuidadosos, até o dia que foram flagrados, por uma enfermeira, transando em uma vazia sala de cirurgia. Em pouco tempo, até o porteiro já sabia. Antes que, por outros bocas chegasse aos ouvidos da esposa, ele mesmo contou. Que não mais suportava aquela mesmice de casamento, ela implicante, por certo já o desprezava. Que ele conhecera outra pessoa,queria aproveitar o resto de vida, trabalhava feito ‘’burro de carga’’, achava que merecia. Primeiro, ela gritou, depois chorou, depois ameaçou: que nunca mais ele veria os netos, que na casa da praia ele não botava os pés com uma vagabunda. Ele simplesmente jogou algumas roupas numa valise de mão e se transferiu para um ‘’flat, ali na Alameda Lorena, para onde a garota também se mudou. Para deixar a ‘’poeira sentar’’, tiraram férias: Itália, França, Holanda e Alemanha. Tórrida lua-de-mel, apesar do gélido inverno europeu. Na volta, começou a guerra da separação. Foi quando ele contratou meus serviços. Sorte que o advogado dela era meu conhecido e conseguimos conduzir o barco em águas revoltas, até chegarmos ao porto seguro do acordo amigável. Todavia, no dia da audiência final, era visível o ódio que ela destilava contra ele. Depois disto, nunca mais o vira, cada qual envolvido por vidas tão diferentes. Nos natais, sabendo-me apreciador de vinho, ele sempre me mandava uma caixa e eu retribuía com um livro. Então, falávamos, por telefone, aquelas palavras de sempre. Era quando sabia que o novo casamento ia as mil maravilhas, ele amando e sendo amado, como nunca. Marcávamos um encontro, na base do ‘’precisamos nos ver’’ e, é claro, esse encontro jamais acontecia. Assim, quando ele marcou entrevista comigo, imaginei algum negocio, compra de algum hospital, créditos a receber de plano de saúde, ou coisa que o valha. Quando ele entrou em minha sala, pelo seu semblante soturno, vi que o assunto era grave. Sem preliminares foi logo ao principal: -‘’meu caro, estou com problema sério, vivendo verdadeiro inferno, preciso de sua orientação. Desde o divorcio, minha ‘’ex’’ não parou de me perseguir. Falou mal de mim aos amigos comuns, que eu chegava bêbado, a agredia, dava em cima das empregadas. Até meus filhos viraram a cara para mim. Culminou com ela postando, no facebook, uma foto de minha atual, dizendo que era garota de programa, que eu tirava do ‘’Bamboa’’. Achei que aquilo tinha que ter um fim. Como sei que ela toma remédio para dormir e eu ainda tenho a chave do apartamento, no mês passado entrei lá, apliquei nela uma injeção letal, que aparenta sinais de parada cardíaca. No dia seguinte, a empregada encontrou-a morta, ligou para os filhos, que ligaram para mim, um amigo, cardiologista de renome, atestou o óbito. Desde então ando atormentado, sem saber o que fazer. Vou a polícia, confesso o crime e destruo minha vida? Tenho pensado até em me matar. O que faço?’’

Eu, apanhado pelo inusitado da consulta, não achava resposta. Confessar o crime – caminho juridicamente mais adequado – seria o fim da vida daquele homem honesto, profissional competente. Se fosse a julgamento, nem o melhor criminalista do mundo conseguiria absolve-lo e, mesmo que o conseguisse, não o livraria daquela culpa, que o atormentava. Por certo, entendia eu que o problema situava-se fora do mundo jurídico, por isso, mais do que orientação, dei-lhe uma opinião: - ‘’meu caro, o estrago já está feito e não há como recuperá-lo. Solto ou preso, você continuará sufocado pela sua consciência. Vou invadir sua seara: imaginemos que você seja portador de doença, pelo menos por enquanto, tida como incurável. Você terá que conviver com essa doença, na esperança de que um dia se encontre cura para ela, ou, então se matar, por não ser capaz de conviver com essa angustia de esperar. Acho – apenas acho – que essa possível cura está no divã do psiquiatra. Se você tem algum, de sua absoluta confiança, converse com ele. De nós, de mim, e dele, você está resguardado pelo sigilo profissional.’’ Como ele estava transtornado, retive-o, em meu escritório e, aproveitando o cair da tarde, abri um vinho que sempre ‘’alegra o coração dos homens.’’