Debruçado na sacada do apartamento, Eduardo via as luzes da
Avenida Paulista se acenderem e o frenético corre-corre de pessoas e carros,
provavelmente de volta para casa. Amava aquela avenida, com suas galerias, onde
se podia achar todas as coisas, principalmente as inúteis. Amava aquele
burburinho de gente apressada, no afã de resolver seus problemas, enquanto a
vida passava, mais rápido, não lhes dando tempo de vivê-la. Quando desfizera
seu terceiro casamento, decidira que iria morar ali, naquele prédio, quase da
idade dele, mas que conservava o ‘’charme’’
de todos os tempos. Próximo aos 60, Eduardo tomara a decisão de não mais se
ligar a outra mulher. Maria Clara, a primeira, fora paixão vulcânica.
Conhecera-a numa choperia da moda, uma ‘’bier’’
não sei o que, lá em Moema. Três meses depois ela comunicou que estava grávida
e daí foi só apressar o casamento. Tiveram uma filha, Maria Cristina, esta sim,
a mulher definitiva de sua vida. Na festa de 15 anos da filha, ele com 40, conhecera
Cíntia, loura, alta, olhos verdes e coxas estonteantes. Começaram a se
encontrar, secretamente, até que um dia Maria Cristina revelou-lhe que o
segredo já não era tão segredo assim, que ele não estava sendo digno com a mãe,
que estava sendo humilhada, perante as amigas. Ele quis negar, que era apenas
amizade, mas, pelo menos para a filha, não podia mentir. Na verdade, seu
casamento já tinha caído na monotonia e o único elo com a esposa era a filha.
Deixou o apto e a casa da praia para ela, alem de pensão alimentícia, que lhe
permitia manter o mesmo padrão de vida. Foi morar com Cintia, primeiro, em um ‘’flat’’, na Alameda Lorena e depois, em
um apartamento, nas Perdizes. Eduardo herdara do pai uma distribuidora de
medicamentos, que ficava em Alphaville. O negocio andava sozinho, mas ele
mantinha o habito de visitar clientes e fornecedores, o que lhe dava
flexibilidade de horário. Cintia, por sua vez, era Procuradora do Município,
cujo salário dava-lhe plena liberdade financeira. Viajavam muito. Levavam a
vida como se esta fosse grande festa que, como toda festa, tem hora para
acabar. E acabou, naquela tarde, em que ele conheceu Cecília, executiva de uma
multinacional de medicamentos. Exuberante, no ser e no falar, seria parceira
ideal nos negócios e na cama. Deixou para Cíntia o apartamento das Perdizes e
foi morar com Cecília, em Alphaville, em um condomínio fechado. Cecília passou
a ser a principal executiva de sua Empresa... e de seu dinheiro. Em pouco mais
de dois anos, passaram a ter constantes e desgastantes discussões sobre
negócios. Até que ele descobriu que ela estava desviando recursos da empresa,
em atividade paralela. Demitiu-a da empresa e de sua vida. Todavia, Eduardo era
obcecado por viajar, conhecer todos os lugares possíveis. Mas, viajar sozinho,
sem ter alguém para trocar impressões, elogios e criticas? Nem pensar! Foi,
então, que engendrou um plano inusitado: postou em seu facebook a seguinte
mensagem: ‘’coroa, ainda na casa dos 50,
com tudo em cima, procura companhia feminina, entre 30 e 40, para viagens
nacionais e internacionais, despesas pagas, mas sem envolvimento sentimental.
Marcar entrevista pelo telefone tal.’’ O telefone tal era de uma agencia de
empregos, cujo proprietário, Inácio, era seu companheiro, nas ‘’peladas’’ do clube. Ele passou para o
amigo as ‘’características básicas da sua
eleita’’ – alta, bonita, coxas torneadas, educada, bem informada, não
necessariamente culta. 15 dias depois do anuncio, Inácio ligou: - ‘’Cara, você não acredita; Recebemos mais de
100 ligações, entrevistamos, até agora 20 e, dessas, 05 merecem ser conhecidas
por você, principalmente uma morena, sotaque carioca, 35 anos, corpo perfeito e
papo pra lá de agradável. Solteiríssima, passou por algumas desilusões amorosas
e, agora, só se interessa por aquilo que ela chama de ‘’relações efêmeras’’. E
leva jeito que gosta do ‘’esporte’’. Ela só fez uma exigência: quer que você
ligue, convidando-a para jantar. É mulher, bem resolvida, em todos os sentidos
e não quer ser confundida com prostituta, ou coisa que o valha. Estou passando
o nome e o telefone dela para seu e-mail’’. Dois dias depois, Eduardo
resolveu ligar para a tal mulher, que se chamava Angélica. – ‘’Oi, Angélica, aqui o Eduardo, do anúncio.
Como solicitado por você, estou ligando para marcarmos nosso jantar. Que tal
amanhã, posso buscá-la em sua casa.’’ Do outro lado, uma voz quente e rouca
respondeu: - ‘’melhor nos encontrarmos no
restaurante. Você conhece o ‘’Tatine’’? Só pela escolha do restaurante,
Eduardo concluiu que se tratava de mulher de bom nível socioeconômico. E,
quando ela entrou no restaurante, quase meia hora após a marcada, só ao vê-la,
sabia que não se enganara. Morena, cerca de 1,70, trajava vestido amarelo, um
pouco acima do joelho e colado, apenas o suficiente para realçar-lhe as formas.
Ao se aproximar, ela o presenteou com um sorriso generoso, que desenhava duas
pequenas covas no rosto. E, antes que o jantar terminasse, Eduardo já sabia que,
contra tudo o que decidira, iria para o quarto casamento.
quinta-feira, 15 de outubro de 2015
sexta-feira, 9 de outubro de 2015
A ascensão e queda do teatro brasileiro
O programa ‘’Roda
Viva’’, um dos melhores da televisão brasileira, brindou-nos, na ultima
2ª-feira, com saborosa e rica entrevista com o ator Antonio Fagundes, também
produtor de peças teatrais. Falou ele, dentre vários temas, das dificuldades
financeiras atuais para levar à cena uma peça, com mínimo de qualidade, até
para ele, artista consagrado. Lembrou a época em que as sessões de teatro iam
de 3ª a domingo, com direito a dois espetáculos, nos finais de semana. A
progressiva escassez de publico reduziu o teatro para exibições, apenas aos sábados
e domingos. Acho que, sem falsa modéstia, consigo explicar um pouco essa
derrocada. Afinal, entre os anos 60 e até o começo dos anos 90, assisti à
maioria dos espetáculos teatrais, no eixo Rio - São Paulo. Cito alguns, de
memória, com a certeza de omitir outros importantes: Cacilda Becker e Valmor
Chagas em ‘’Quem tem medo de Virginia
Wolff’’; os mesmos em ‘’Esperando Godot’’, por sinal a ultima de Cacilda;
Fernanda Montenegro em ‘’A volta ao lar’’;
Juca de Oliveira, em ‘’A Cozinha’’ e o mesmo Juca em ‘’O Inimigo do Povo’’; Maria Fernanda, em ‘’Um Bonde Chamado Desejo’’; Fernando Torres em ‘’A Última Noite de
Cristal’’; Tonia Carreiro, em ‘’As
Pequenas Raposas’’; Paulo Gracindo, em ‘’A Procura do Senhor Green’’; Maria
de La Costa, em ‘’Um Tiro no Escuro’’,
Paulo Autran, em ‘’Hamlet’’; Stênio
Garcia em ‘’Cemitério de Automóveis’’
e incontáveis outras, sempre com casa cheia, ingressos comprados com, pelo
menos, uma semana de antecedência. Minha preferência era a segunda sessão dos
sábados, o que permitia esticar para as casas noturnas da época, a ‘’Baiúca’’ e o ‘’Stardust’’, ambos funcionando, naqueles tempos, na Praça Roosevelt
e, no Rio, o ‘’706’’, na Avenida
Ataulfo de Paiva ou ‘’A Fossa’’, ali
na Praça do Lido. E olha que, ainda na Faculdade, vivia com salário de
professor e, depois, morando no Rio, como funcionário do Ministério da Fazenda,
com um ‘’DAS2’’ que hoje deve
corresponder, no maximo, a 10 mil reais. ‘’Viver
a vida’’ não custava caro e o teatro era lazer barato. Hoje, qualquer
espetáculo não fica por menos de 100 reais e, em sendo um casal – e sempre o
era, – se se agregar a balada, não se gasta menos de 500 ‘’pratas’’, o que não é pra qualquer um. A outra causa é que o
nível dos atores caiu muito, idem acontecendo com o público. Naquele tempo,
sabia-se quem era Ibsen, Vianinha, Pinter, Gogol etc. Hoje, via de regra,
vai-se ao teatro para ver, em carne e osso, o galã da novela das 8. Lembro-me
da ultima vez que lá estive, quando entrou em cena um desses galãs, ouvia-se,
da platéia, o grito de ‘’lindo’’,
apesar da voz do dito cujo mal alcançar a décima fila. Aí reportei-me ao
silencio sepulcral, que se fazia, quando Fernanda Montenegro, em ‘’O Homem do Principio ao Fim’’, recitou o
monologo de Santa Terezinha. Nesse dia do ‘’lindo’’, concluí que minha carreira
de espectador tinha terminado. E tem mais: os atores, ao inicio citados, todos
eles foram forjados no teatro e, depois, foram enriquecer a televisão, como
demonstrou o próprio Fagundes, em ‘’O Rei
do Gado’’. Hoje – se podem ser considerados atores – nasceram e foram
criados na televisão, o que lhes suprime técnicas básicas de interpretação.
Conclusão: preços altos e atores ruins deixam as poltronas vazias.
quinta-feira, 8 de outubro de 2015
Rememorando Cícero
Liga-me cliente-amigo, empresário de boa cepa, que gasta seu
já escasso tempo, lendo minhas ‘’mal
traçadas’’ e me pergunta o que significa ‘’catilinaria’’, expressão desusada – como eu -, que empreguei
outro dia. Dei-lhe rápida explicação sobre seu sentido atual – não tão atual
assim -, como sendo ‘’discurso acusatório inflamado e contundente’’. Quer ele
saber mais: de onde tirei tal expressão. Falo, mui superficialmente, de Cícero,
o maior orador de seu tempo, que, em discurso inflamado, no Senado Romano,
desanca o também Senador Catilina, que tentara liderar um frustrado ‘’golpe de estado’’. O assunto mexeu com
meu ‘’baú de recordações’’, remetendo-me ao Liceu Pasteur, onde fiz o curso clássico,
que não mais existe (o curso, não o Liceu, que continua, impávido colosso) e,
em cujas aulas de latim, ministradas pelo exigente Helio Pimentel,
enfrentávamos Cícero, Ovídio e Virgilio. Lembro-me dos textos percorridos com
meu querido amigo, o hoje laureado jornalista, José Paulo de Andrade, então
residindo na Rua Santa Cruz e cuja mãe nos brindava com uma lasanha de comer
ajoelhado. ‘’As Catilinarias’’, até
onde me lembro, eram os discursos mais fáceis de serem traduzidos. Barra pesada
mesmo, era o ‘’De Officiis’’, obra
filosófica e as ‘’Éclogas’’ de
Ovídio. Aí o jeito era consultar a ‘’burra’’,
livro proibido, que continha o texto, em latim e, ao lado, a versão, em
português. Em meu saudosismo, percorro meus livros, até localizar as ‘’Catilinarias’’, discurso pronunciado,
no senado romano, por Marcos Túlio Cícero, no ano 63 A. C. Releio-o, com o
auxilio de dicionário ‘’latim-português’’,
já que o tempo longevo obscureceu-me os neurônios. De qualquer maneira, adapto,
pela inequívoca co-relação, alguns trechos do discurso para os dias atuais,
substituindo Catilina por Dilma:
‘’Afinal, até quando, ó Dilma, abusarás de nossa paciência?
Por quanto tempo ainda estas tuas mentiras irão nos enganar? Qual a finalidade
desta desmesurada sede de poder? Como é possível que nenhum receio ou apreensão
te cansem, nem os que clamam contra ti, nem a união dos bons cidadãos, nem a
indignação, que se vê estampada no rosto de todos que, nas praças publicas,
exigem tua renuncia? Não percebes que teus intentos são manifestos? Pensas que
alguém, dentre nós, ignora o que articulastes ou onde estivestes ou com quem te
reunistes ou o que planejaste? Ó tempos! Ó costumes! Tais coisas o Congresso
sabe, a oposição vê e, no entanto essa mulher sobrevive! Só sobrevive? Muito
mais do que isso. Ela articula com a Câmara e o Senado, participa de reuniões
ministeriais, observa e designa um e outro para cargos... Ó Dilma, que coisa
ainda existe neste País para deleite teu? Aqui, além de tua turma, integrada
por indivíduos corruptos, ninguém há que não te despreze ou odeie... Ora, se
este Congresso resolver que é do agrado dele sua demissão, declara então que
vai obedecê-lo e livra a República do medo de tua administração’’...
E, em outro trecho,
Cícero parece antecipar o Juiz Sergio Moro falando para Lula: ‘’Se agora, ó Lula, eu te mandasse prender,
penso que todos os cidadãos honestos diriam ter eu agido tardiamente do que
praticado qualquer ilegalidade.’’
Obs: Marco Túlio Cícero nasceu em janeiro de 108 a.C e morreu
em maio de 45 a.C. Foi filósofo, político, mas, acima de tudo, o mais
importante advogado da Roma antiga.
quarta-feira, 7 de outubro de 2015
De contradições a vida é feita
Outro dia, numa audiência, o advogado da parte contraria,
dinossauro como eu, diante do comportamento arbitrário do juiz que, pela
aparência, ainda não esquentara a cadeira, virou-se para mim, desolado: ‘’colega, ainda bem que estou chegando ao
fim do caminho e não precisarei viver mais situações como esta’’.
Sorri-lhe, em muda solidariedade, mas fiquei com a frase na cabeça. É verdade,
o acumulo dos anos vividos nos faz conformados e até irônicos, diante dos
absurdos do cotidiano, contra os quais não temos mais tempo e forças para nos
debatermos. Concluímos – tardiamente – que o mundo, suas coisas e pessoas, é
regido pela insensatez. Sempre foi e sempre será assim, de Adão e Eva, até o
final dos tempos, que, com certeza, virá, porque nem Deus, ‘’penhor supremo do sumo bem’’, como ensinava o catecismo de minha
infância, poderá suportar tantas contradições. Um dia ele perde a paciência e,
do alto de sua onipotência, grita: - ‘’pra
mim, chega! Vou destruir tudo e, se resolver recomeçar, será sem esta porcaria
de ser humano. Pedro, abre todas as torneiras e faça soprar todos os ventos. Só
me acorde, quando não restar pedra sobre pedra!’’ Por que estou a dizer
tudo isto? Porque, nestas ultimas semanas, a mídia só falou no filete de água
tóxica localizado em Marte. O DASA anunciou a retomada do programa espacial e,
só pra inicio de conversa, vai investir 05 bilhões de dólares em tal programa.
Já há fila de espera para viajar, a 200 mil dólares por cabeça, no ônibus
espacial, com destino àquele planeta. Enquanto isto, por aqui, o câncer
continua matando, a aids continua matando, a fome continua matando. Enquanto
isto, por aqui, a Turquia recusa-se a receber os fugitivos da guerra, Israel
quer exterminar os palestinos e esses querem afogar os israelenses no mar. Enquanto
isto, por aqui, o Estado Islâmico destrói importantes sítios arqueológicos e
corpo de bebê, em decomposição, é encontrado em ilha grega, atentados com
carros-bomba matam dezenas de pessoas, no Iraque e tropas do Afeganistão
bombardeiam hospital. Enquanto isso, por aqui, o governo mais corrupto da
historia pátria negocia sua permanência no poder, com o Congresso mais corrupto
da historia pátria. E, não bastasse tudo isto, a justificar a exterminação da
espécie humana, o Botafogo, não satisfeito em me humilhar, estando na ‘’serie b’’, ainda cede empate ao ‘’Sampaio Correia’’, no ultimo minuto da
prorrogação. Repito meu colega, do outro lado da mesa: -‘’ainda bem que não precisarei, por muito tempo mais, suportar estas
indignações.’’
terça-feira, 6 de outubro de 2015
O sonho realizado
Acácio vivia acabrunhado, quase depressivo. Chegara aos 70
com as mãos e os bolsos praticamente vazios e seu único patrimônio era o
modesto apartamento das Perdizes e os carros, quase anciãos, dele e da esposa.
Conseguira formar os filhos, mas, nesta casa, sabia que os frutos eram colhidos
apenas por eles. Não podia reclamar: casara com uma mulher lindíssima, coxas
longas e torneadas, com quem viveu intensamente, viajando pelo Brasil e pelo
exterior, freqüentando os melhores restaurantes e casas noturnas do eixo São Paulo
– Rio. Na cama, ela era um vulcão, sempre em erupção. Mas tudo isto ficou para
trás, e o passado, como diz a canção, ‘’é
uma roupa velha que não nos serve mais’’. O interesse da esposa por ele foi
minguando e transformando-se em irremovível ressentimento, depois que uma
pessoa da própria família, para se preservar das próprias lambanças, contara a
ela que ele estivera envolvido com uma colega de trabalho. A esposa não aceitou
suas explicações e resolveu transformar a vida dele num inferno. O tempo foi passando
e ele, em silencio ensurdecedor, aprendeu a administrar aquele inferno:
refugiava-se nos livros e no trabalho. Sempre se perguntou porque a mulher, se
tinha convicção inabalável de sua canalhice, não o pusera para fora de casa.
Talvez atormentá-lo, cotidianamente, imaginava ela ser vingança mais eficiente.
Mas este era problema, que não mais o afligia. Aflição mesmo era constatar que
chegara aos 70, tendo que trabalhar muito para manter medíocre padrão de vida.
E, se morresse ou, pior, se ficasse gravemente doente, como sobreviveriam os
dois? Preferia pular de um daqueles edifícios envidraçados da ‘’Faria Lima’’, a depender de filhos,
cada qual enfrentando seus ‘’leões’’.
Um dia, ou melhor, uma noite, Acácio sonhou com o pai. Sonho estranho: o pai
apenas sorriu-lhe, com aquele sorriso contido (não se lembrava de vê-lo
gargalhar) e lhe entregou um pedaço de papel, contendo alguns números e depois
desapareceu, sem nada dizer. Esse sonho repetiu-se várias vezes, sempre do
mesmo jeito, sempre os mesmos números, que Acácio até decorara. Qual o
significado daquele sonho, se é que sonho tinha qualquer significado? Por que o
pai, de quem ele raramente lembrava, aparecia-lhe com tanta freqüência? E
aqueles cabalísticos números, o que indicariam? Os dias se passaram, o pai
desapareceu dos sonhos e Acácio já o tinha esquecido, quando, um sábado, leu no
jornal que a mega-sena estava acumulada em quase 60 milhões e a noticia, para
aguçar o apetite, dizia o que se podia fazer com aquela dinheirama toda. Tudo
conspirava para que Acácio jogasse, pela primeira vez: havia uma lotérica, no
supermercado, onde, aos sábados, ele fazia as compras semanais da casa. Anotou,
na cartela, os números, ditados por seu pai e guardou o comprovante, na
carteira. Achou-se meio ridículo, com tudo aquilo, por isso preferiu guardar
silencio. Os dias se passaram e ele, enfrentando uma guerra em casa e outra, na
rua, esqueceu-se do jogo, que adormecia, em sua carteira. Passara quase um mês,
quando, uma noite, como de habito, assistia ao ‘’Jornal da Bandeirantes’’, quando o Boechat deu a noticia: ‘’ainda não apareceu o ganhador do teste nº
tal da mega-sena que pagou 62 milhões de reais.’’ Só então Acácio lembrou-se
de seu jogo. No outro dia, antes de ir para o trabalho, passou por uma lotérica
e, de posse do resultado, foi conferi-lo, em um café, ao lado. Suas mãos
tremeram, seus olhos ficaram embaçados e a voz calou-se na garganta. Ganhara!
Era ele o proprietário daquela fortuna. O que fazer? Tudo o que pretendia era
conquistar a liberdade. Libertar-se daquela vida medíocre, feita de mesmismo.
Libertar-se daquele casamento, chamuscado por um ressentimento que, muitas
vezes, transformava-se em ódio, aquele ódio que faísca dos olhos, que grita,
sem abrir a boca. O que fazer com 60 milhões, quando a vida se transforma em
gosto amargo de fracasso? Viajar, para onde e com quem? Com a tranqüilidade de
quem tem certeza do que faz, Acácio retirou o premio, em cheque administrativo,
endossou-o, depositou na conta se suas esposa, colocou o recibo do deposito em
envelope fechado, que deixou sobre o travesseiro dela e se dirigiu àquela
praia, de cuja pedra gostava de apreciar o mar. Quando o sol começou a
mergulhar nas águas, ele pulou da pedra e nadou em direção ao poente. Apenas
ele, o mar e o sol findante.
segunda-feira, 5 de outubro de 2015
A montanha pariu um rato
Depois de muita conversa e barganhas mil, a grande reforma,
preconizada pela Presidente Dilma, resumiu-se a suprimir 9 ministérios que, somados,
não representam 1 e promover uma redução de gastos da maquina publica que, por
ser ínfima, constitui a chamada ‘’economia
de papel higiênico’’. Quanto à
reforma ministerial, por favor, não cometam a injustiça de compará-la àquela,
efetuava por Collor, na pré-cassação de seu mandato. O ultimo Ministério Collor
era integrado pela elite do pensamento brasileiro, como, por exemplo, Célio
Borja, jurista de vasta bagagem, que ocupou a Pasta da Justiça. O novo
Ministério Dilma mudou para pior. Dou apenas dois exemplos, para que estas ‘’mal traçadas’’ não se transformem em
verdadeira catilinaria. Para o Ministério da Educação, substituindo um
especialista, na área, professor emérito, foi Mercadante, o queridinho de
Dilma, mas inimigo do povo petista, em geral e de Lula, em particular. Para o
Ministério da Defesa – incomensurável paradoxo – foi o comunista Aldo Rabelo. A
propósito, almoçando com queridíssimo amigo, Coronel da reserva, observou ele,
do alto de sua experiência: ‘’corto minha
mão se um general, Almirante ou Brigadeiro aceite receber ordem de Ministro
comunista’’. Isto sem falar no novo Ministro da Saúde, cuja experiência, na
área, é ter sido Secretário da Agricultura... do Piauí. O Brasil é ou não é o
país da piada pronta? Na verdade, ao promover tão atabalhoada reforma, Dª Dilma
procurou – só não sei se conseguirá – livrar seu emprego, agora que Eduardo
Cunha, furibundo com a divulgação de suas suíças contas, promete dar o troco,
botando o pedido de impeachment para rolar. Dizia-me aquele mesmo Coronel: - ‘’nem que todo o povo saia às ruas
implorando, os militares aceitarão o poder, de volta’’. E ele tem razão: à
exceção de Michel Temer, que está lá pra isto, ninguém aceita o emprego de
Presidente. O salário não é lá estas coisas, ficou difícil ‘’meter a mão’’ e ainda tem o PMDB, que
exige indicar até o faxineiro–chefe. Repito Mussolini: governar o Brasil não é
difícil, é inútil.
sexta-feira, 2 de outubro de 2015
O crime quase perfeito
Recebo, com muito agrado, a visita de cliente, quase amigo,
cujo divorcio fiz, já La vão 03 anos, bastante desgastante para todos, já que a
mulher não queria a separação. Criou ela incontáveis empecilhos, mas ele,
entrando nos 60, estava apaixonadíssimo por uma garota de 25. Eu, à época,
cumprindo a obrigação de advogado e quase amigo, dei-lhe conselhos, alertei que
paixão, como onda bravia, era estado passageiro e que, quando passasse, ele
seria o grande perdedor, porque ficaria sozinho e afastado da perenidade que a
estrutura familiar proporciona. Mas qual o que! O homem estava ensandecido, que
a esposa ficara chata, implicava com a cueca, deixada no banheiro, com o toco
de cigarro no cinzeiro, que ele roncava, enfim, tudo era pretexto para uma
discussão que terminava, invariavelmente, com ela batendo a porta do quarto.
Ele – dizia-me - sofria a angustia da
sexta-feira, sabendo que teria interminável fim-de-semana de duelo com a
esposa. Se ele saísse, era porque não gostava de ficar em casa, se ficasse,
estava sujando o sofá com o jornal, manchando a mesa com o copo de uísque,
ouvindo musica, como se fosse surdo. Um dia, no hospital onde trabalhava –
esqueci de dizer que era médico – conheceu uma residente, que fora lhe relatar um
caso, pedindo orientação. Morena, olhos verdes, seios pulando da blusa.
Encerrada a conversa, cada qual seguiu seu rumo. Na hora do almoço, no
restaurante do hospital, ele procurou uma mesa, à janela, debruçada sobre a
avenida. Gostava de ver o movimento, as pessoas apressadas, lá fora, ao
contrário da vida arrastada, de dentro. Assustou-se quando ela, abrindo
majestoso sorriso, perguntou-lhe se podia sentar com ele. Ali começou tudo:
garota inteligente, alegre, despojada, um vulcão na cama. A principio, encontros
escondidos, que foram ficando menos cuidadosos, até o dia que foram flagrados,
por uma enfermeira, transando em uma vazia sala de cirurgia. Em pouco tempo,
até o porteiro já sabia. Antes que, por outros bocas chegasse aos ouvidos da
esposa, ele mesmo contou. Que não mais suportava aquela mesmice de casamento,
ela implicante, por certo já o desprezava. Que ele conhecera outra pessoa,queria
aproveitar o resto de vida, trabalhava feito ‘’burro de carga’’, achava que
merecia. Primeiro, ela gritou, depois chorou, depois ameaçou: que nunca mais
ele veria os netos, que na casa da praia ele não botava os pés com uma
vagabunda. Ele simplesmente jogou algumas roupas numa valise de mão e se
transferiu para um ‘’flat, ali na Alameda Lorena, para onde a garota também se
mudou. Para deixar a ‘’poeira sentar’’, tiraram férias: Itália, França, Holanda
e Alemanha. Tórrida lua-de-mel, apesar do gélido inverno europeu. Na volta,
começou a guerra da separação. Foi quando ele contratou meus serviços. Sorte
que o advogado dela era meu conhecido e conseguimos conduzir o barco em águas
revoltas, até chegarmos ao porto seguro do acordo amigável. Todavia, no dia da
audiência final, era visível o ódio que ela destilava contra ele. Depois disto,
nunca mais o vira, cada qual envolvido por vidas tão diferentes. Nos natais,
sabendo-me apreciador de vinho, ele sempre me mandava uma caixa e eu retribuía
com um livro. Então, falávamos, por telefone, aquelas palavras de sempre. Era
quando sabia que o novo casamento ia as mil maravilhas, ele amando e sendo
amado, como nunca. Marcávamos um encontro, na base do ‘’precisamos nos ver’’ e,
é claro, esse encontro jamais acontecia. Assim, quando ele marcou entrevista
comigo, imaginei algum negocio, compra de algum hospital, créditos a receber de
plano de saúde, ou coisa que o valha. Quando ele entrou em minha sala, pelo seu
semblante soturno, vi que o assunto era grave. Sem preliminares foi logo ao principal:
-‘’meu caro, estou com problema sério, vivendo verdadeiro inferno, preciso de
sua orientação. Desde o divorcio, minha ‘’ex’’ não parou de me perseguir. Falou
mal de mim aos amigos comuns, que eu chegava bêbado, a agredia, dava em cima
das empregadas. Até meus filhos viraram a cara para mim. Culminou com ela
postando, no facebook, uma foto de minha atual, dizendo que era garota de programa,
que eu tirava do ‘’Bamboa’’. Achei que aquilo tinha que ter um fim. Como sei
que ela toma remédio para dormir e eu ainda tenho a chave do apartamento, no
mês passado entrei lá, apliquei nela uma injeção letal, que aparenta sinais de
parada cardíaca. No dia seguinte, a empregada encontrou-a morta, ligou para os
filhos, que ligaram para mim, um amigo, cardiologista de renome, atestou o óbito.
Desde então ando atormentado, sem saber o que fazer. Vou a polícia, confesso o
crime e destruo minha vida? Tenho pensado até em me matar. O que faço?’’
Eu, apanhado pelo inusitado da consulta, não achava resposta.
Confessar o crime – caminho juridicamente mais adequado – seria o fim da vida
daquele homem honesto, profissional competente. Se fosse a julgamento, nem o
melhor criminalista do mundo conseguiria absolve-lo e, mesmo que o conseguisse,
não o livraria daquela culpa, que o atormentava. Por certo, entendia eu que o
problema situava-se fora do mundo jurídico, por isso, mais do que orientação,
dei-lhe uma opinião: - ‘’meu caro, o estrago já está feito e não há como
recuperá-lo. Solto ou preso, você continuará sufocado pela sua consciência. Vou
invadir sua seara: imaginemos que você seja portador de doença, pelo menos por
enquanto, tida como incurável. Você terá que conviver com essa doença, na
esperança de que um dia se encontre cura para ela, ou, então se matar, por não
ser capaz de conviver com essa angustia de esperar. Acho – apenas acho – que
essa possível cura está no divã do psiquiatra. Se você tem algum, de sua absoluta
confiança, converse com ele. De nós, de mim, e dele, você está resguardado pelo
sigilo profissional.’’ Como ele estava transtornado, retive-o, em meu
escritório e, aproveitando o cair da tarde, abri um vinho que sempre ‘’alegra o
coração dos homens.’’
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