Já tinha escrito várias páginas sobre o novo livro. Era para
ser um conto de poucas palavras, mas a historia me pareceu valer um livro.
Historia de um homem que para de envelhecer aos 30 anos e se eterniza em vigor
físico e mental. E vê passar gerações, mudar usos e costumes. Amigos envelhecem
e morrem, mulher e filhos envelhecem e morrem e ele, ali, firme e forte, com
seus 30, mesmo com sua carteira de identidade mostrando a realidade dos 70, 80,
90, 100 anos. Imaginei-o aos 110 correndo, no Parque do Ibirapuera ou no
calçadão de Copacabana e olhado com cupidez (que palavra, Deus meu!) pelas
moças que vêm, sem sentido contrario. Recostei na cadeira para melhor
visualizar a cena. Assim, poderia descrevê-la com mais precisão. Tentei sentir
a angustia de suas perdas cotidianas e compará-las com o ganho da descoberta,
não buscada, da ‘’fonte da juventude’’.
Mais ganhos ou mais perdas? Entusiasmo-me com a idéia e solto a imaginação, que
corre mais veloz que a escrita. Querendo dividir minha euforia, ligo para uma
amiga, viajada em livros e anuncio, quase aos gritos, meu achado. Ela me ouve,
por incontáveis minutos, em sepucral silencio. Termino e aguardo seus
comentários. Na reticência de sua voz, antevejo tempestade... que chega.
Informa-me ela, em sua habitual gentileza, que a idéia é boa, mas não é
original. E me remete a um autor francês (Nicolas qualquer coisa), que
desenvolveu tema idêntico. Ela, mesmo do lado invisível, percebe minha decepção
e tenta me reanimar, dizendo que, contando a historia de outra forma, com
certeza seria diferente. Mas sei que não seria, porque seria a mesma historia.
Desligo o telefone e sento no sofá, amargando a frustração de ter perdido o
inusitado. Não li o livro do ‘’Nicolas
não sei o que’’, mas agora sei que ele existe. Recolho as folhas escritas,
dobro-as, simetricamente, rasgo-as e as atiro ao lixo. Acabei de, para
felicidade de todos, fazer um aborto literário.
sexta-feira, 12 de junho de 2015
quarta-feira, 10 de junho de 2015
O programa de concessões
O governo Dilma, com o caixa vazio, em decorrência das
insanidades econômicas praticadas, para poder se reeleger, acaba de anunciar um
‘’plano de concessões’’, através do
qual se transferirá para a iniciativa privada cerca de 200 bilhões de reais, em
áreas como aeroportos, portos, rodovias e ferrovias. Para bem entender o plano:
o governo transfere, sob forma de concessão, tais sistemas de transporte para a
iniciativa privada que deverá investir neles os citados 200 bilhões. O ‘’Programa’’ deve estar arrancando os
cabelos do petismo que, inerte e desmoralizado, assiste à minimização da
máquina estatal. Que se diga, em defesa de Dª Dilma, antes de ser ela execrada
pelos ‘’companheiros’’; a ideia não é
dela, é da área econômica, a qual ela não tem acesso e muito menos poder de
mando. Sem dinheiro para investimentos, necessários à retomada do crescimento,
o governo espera que o empresariado meta a mão no bolso, o que não será tarefa
fácil, principalmente quando se constata que as principais empresas, que atuam
em concessões públicas, estão atoladas na operação ‘’lava jato’’. Ontem, o ‘’chefe’’
da CGU soltou uma pérola, que assustou até o cachorro, que comia ração a meu
lado. (Ele, não eu, que ainda dá para o arroz e feijão). Disse aquela augusta
autoridade: ‘’até que se fique
definitivamente provada a culpa das empreiteiras, poderão elas continuar
contratando com o Poder Público’’. Ignorância? Cinismo? O certo é que todos
os principais executivos daquelas empreiteiras, em sede de delação premiada,
confessaram as fraudes em licitações, apontaram os beneficiados com a corrupção
e, alguns, até se dispuseram a devolver o dinheiro surrupiado. São eles, pois,
réus confessos, a quem se impõe a ‘’declaração
de inidoneidade’’, expressamente prevista na chamada ‘’lei das licitações’’, a de número 8666/93. Por tal penalidade, a
empresa apenada fica impedida de contratar com a administração pública, em
qualquer de seus níveis, até ressarcir pelos prejuízos causados e por prazo não
inferior a 02 anos. (incisos II e III do art.87 da lei citada). Outro
complicador para as concessões anunciadas pelo ‘’Governo Levy’’ é a falta de regras claras. As pesquisas vem
indicando que, mesmo após a chegada de Joaquim Levy, o índice de confiabilidade
dos empresários, em relação ao governo, vêm caindo, progressivamente. Assim,
sem regras precisas e seguras, o ‘’Programa’’
longe estará dos resultados almejados, como já aconteceu em passado recente. Em
síntese: a idéia é boa, só quem não presta são seus autores. Neste momento,
talvez os empresários, estejam a fazer a seguinte pergunta: vale a pena e o
risco fazer negócio com Al Capone?
terça-feira, 9 de junho de 2015
A falácia da reforma política
Nunca levei a sério a intenção do Congresso Nacional, em
realizar reforma política. São 28 partidos políticos, dos quais, com imensa boa
vontade, 20 podem ser atirados ao lixo, já que só existem para sugar dinheiro
público, através do famigerado ‘’fundo partidário’’
e que vendem ou alugam suas legendas. Como entender que não sejam eleitos os
mais votados? Pra que melhor negocio, do que ser candidato no partido dos
Tiririca da vida? Imagine se o Roberto Carlos sai candidato a deputado federal,
quantos outros, de medíocre votação, ele não arrastaria? Outra balela é o
debate sobre financiamento de campanha. Como se esperava, tudo continuará
igual, com financiamento privado, de pessoas físicas e jurídicas e não
estranharei se a esse se juntar o financiamento público. Agora, é pelo menos
irônico o PT defender o financiamento público, sob o argumento de que esse
terminaria com a corrupção, que advém do financiamento privado. Quando li essa
noticia em voz alta, o cachorro (agora, mortos dois, só me restam oito) mais
idoso, que cochilava a meu lado, ergueu-se nas 4 patas e latiu exaltado: - ‘’ué, mas de que recursos vem se valendo o
PT, desde que chegou ao poder, não foi de dinheiro surrupiado das empresas do
governo?’’ Por mim, doa quem quiser, principalmente os associados e
simpatizantes dos partidos. Apenas deveria ter um controle mais rigoroso dessas
despesas de campanha, cuja prestação de contas não convence ninguém. Quanto à
reeleição, vamos brincar de colocar a verdade histórica, em seu devido lugar.
Foi ela criada para prorrogar FHC no Planalto, já que, o ilustre mestre e o PSDB,
tal qual o PT o faria, sonharam com um ‘’reich
de mil anos’’. FHC foi embora, porque seu prazo de validade esgotou e o
partido, sem líder à altura, levou uma sova do PT que, agora, sabe que levará
uma sova de qualquer um. Dilma entregou o governo ao PMDB que, bebendo na fonte
da sabedoria, exerce o poder de fato, sem se expor à execração pública. Reforma
política para valer, deveria extinguir partidos que não tivessem, pelo menos,
10 representantes no Congresso (Comarca + Senado); eleição majoritária para
deputados; proibição de coligações nas eleições; cláusula de barreira, que
impedisse a mudança de partido, na mesma legislatura; fim da reeleição e do
voto obrigatório e financiamento apenas de pessoas físicas devidamente
declaradas no imposto de renda, para as campanhas eleitorais. Fora disso, ‘’são tertúlias plácidas para embolar bovino’’.
segunda-feira, 8 de junho de 2015
Miguel, o mestre
Finalmente, após 02 anos de idas e vindas, saíra a sentença
de Miguel (chamêmo-lo) pelo codinome). Conheci-o, lá já vão 05 ou mais anos na
feira de artesanato, do Largo de Moema, atrás da Igreja de Nossa Senhora
Aparecida, por onde passo aos domingos, para cumprimentar a Santa, que integra
o rol dos meus protetores. A feira já foi bem maior, mas encolheu com as obras
do metrô, já que a estação ficará instalada em parte da praça. No espaço
encolhido, os artesãos expõem seus produtos e no lado direito de quem desce,
ficam os quadros de pintores amadores. Sempre fui ‘’fissurado’’ em feiras de artesanato e os quadros, ainda hoje
pendurados em minha sala, eu os adquiri, no começo dos anos 70, na Praça
General Osorio, no Rio. Aqui, volta e meia, percorro, aos domingos, a Praça da
Republica, onde se encontra de tudo, inclusive uma barraca de comida baiana de
fazer salivar. Mas, voltemos ao ‘’nosso’’
Miguel. Em um dos domingos, a meio a quadros abstratos – que não fazem minha
cabeça – deparei com a pintura do rosto de uma velhíssima senhora, de cujo olho
esquerdo pendia uma lagrima. A expressão de tristeza, naquele olhar, era tão
intensa, que me emocionei. Quantos minutos fiquei parado, defronte aquele
quadro, não sei, mas o suficiente para que seu autor parasse a meu lado:
- ‘’gostou’’?,
perguntou-me ele, com forte sotaque espanhol. – ‘’muito!’’ E destaquei a expressão da velha senhora, de sua pele
enrugada e da lágrima que pendia do olho. Ele me disse o preço e, mesmo
parcelado em algumas vezes, estava fora de minhas prioridades financeiras. Não
saiu negocio, mas engrenamos um papo gostoso, que se encerrou com um café, no
botequim do outro lado da rua. E, assim, por sucessivos domingos, durante quase
um ano, tornou-se obrigatória a parada, junto à ‘’exposição’’ de Miguel. Nossa conversa ficou mais intima e ele me
fez um resumo de sua vida. Passava dos 60 e desde os 20 era, o que se
auto-dominava, ‘’artista andarilho’’,
percorrendo as principais cidades do mundo, mostrando sua incipiente arte.
Imaginou, um dia, ser pintor de fama internacional, com grandes exposições, mas
as necessidades cotidianas transformaram-no em expositor de rua. Atualmente,
morava em uma quitinete, na rua dos Gusmões, ali no coração da ‘’boca do lixo’’ e seu veículo, onde
carregava suas obras, era uma ‘’variant’’,
1980. Fora casado (na expressão larga do termo) 3 vezes, casamentos sem paixão,
que duraram o ‘’tempo de uma flor’’,
como costumava dizer. Estava no Brasil há 10 anos e já não se sentia com
disposição para mudar de ponto. O que vendia, aos domingos, bebia durante a
semana. Contava-me tudo isto, sem ressentimento. ‘’Seguimos o caminho, que o destino prepara para nós e ninguém muda
este caminho’’, dizia-me. Respeitava minha credulidade, mas não acreditava
nela: - ‘’você vem a esta Igreja por medo
de existir outra vida e ser punido pelos seus erros. Duvido que você tenha amor
desinteressado por Deus e por esses santos que você traz pendurado no
pescoço!’’ Eu ria e lá íamos nós tomar o café de despedida.
Um domingo e outro e vários outros não encontrei o Miguel.
Perguntei a seus colegas e ninguém sabia dele. Simplesmente sumira, envolto no
mesmo mistério que o trouxera, até aquela praça. Já tinha esquecido dele,
quando, mais de um ano depois, a secretaria avisa-me pelo interfone: ‘’um amigo seu, que se chama Miguel e é
pintor, está ao telefone’’. Atendo-o, com incontida alegria e ele, voz
soturna e sem preâmbulos, avisa-me que está em uma enrascada, precisa de um
advogado e, vasculhando papeis, encontrou meu cartão. Como dizia ser urgente,
marcamos entrevista para o final do mesmo dia. Já eram quase 18 horas, quando
Miguel chegou a meu escritório, surpreendentemente bem vestido: calça jeans,
bem cortada, camisa sob medida e blazer, com etiqueta internacional.
Elogiei-lhe a elegância e cobrei-lhe o sumiço. ‘’Ajudei o destino a mudar meu caminho’’, respondeu-me ele. Não
demoramos mais do que 5 minutos a falar generalidades, tempo suficiente para
ele criticar as gravuras que enfeitam minha sala. Miguel foi direto ao assunto.
Cansado de viver de trocados e sabedor de sua competência, engendrou um plano
fantástico: passou a reproduzir, inclusive assinaturas, de pintores
consagrados, cujas telas alcançavam preços astronômicos no mercado de artes.
Conseguira se infiltrar, principalmente entre ‘’novos ricos’’, a quem oferecia, por cerca de 20 por cento do valor
real, aquelas telas famosas. A ausência de certificado de autenticidade,
alegava que os quadros eram produtos de furto em residências de milionários e
apreendidas por agentes policiais que os vendia a ele, Miguel, sem identificar
a vitima do furto. Assim, em menos de um ano, vendeu, como originais, quadros
de pintores consagrados, como Henrique Bernadelli, Benedito Calixto, Henrique
Cavalleiro, Guignard, Eugenio Latour, Roberto Fontana, Quinet e uma ‘’madona’’, como sendo de Guido Reni,
importante pintor italiano do século XVII. Nesse curto espaço de tempo, faturou
quase 03 milhões. Seu atelier, onde reproduzia aquelas telas, agora estava
instalado numa confortável casa, que possuía, inclusive, câmara de ‘’envelhecimento’’ das telas, situada
numa tranqüila rua do bairro das Perdizes. Sua casa ‘’caiu’’, ao vender, como original,uma obra de Henrique Bernadelli,
denominada ‘’a leitura’’, datada do
começo do século. Avaliada em 03 milhões de reais, fora vendida a um fazendeiro
do Espírito Santo por 150 mil. Acontece que o tal fazendeiro possuía uma filha,
que cursava Belas Artes, no Rio e não precisou de muito tempo para descobrir
que se tratava de reprodução. Como Miguel se recusara a devolver o dinheiro,
instaurou-se, contra ele, processo por crime de estelionato. –‘’E por que você não devolveu o dinheiro,
Miguel? Se o tivesse feito, nem mesmo haveria processo, que teria sido
arquivado, no nascedouro’’, expliquei-lhe. –‘’Porque, se o original vale 03 milhões, o meu, que está igual ao original,
vale até mais que os 150 mil que recebi..’’ Raciocínio, esteticamente
lógico, mas, no plano jurídico, não absolvia Miguel. Peguei o seu caso, fizemos
algumas audiências e, àquela altura, eu só tinha dois caminhos: manter a versão
de que Miguel adquirira o quadro como original e assim o passara para a frente,
ou confessar a falsificação e devolver o dinheiro recebido. Provavelmente,
nenhuma das alternativas livraria Miguel de uma condenação, mas a segunda, além
de mais ética, poderia sensibilizar a juíza a aplicar pena mais branda. Discuti
com Miguel meu ponto-de-vista, mas ele foi inflexível: devolver do dinheiro,
jamais. Seu trabalho fora perfeito e valia muito mais do que recebera. –‘’Além do mais, meu caro (argumentou-me ele),
eu não falsifico quadros, eu os reproduzo. Se eles, ricos ignorantes,
consultassem qualquer catalogo de artes, veriam que ‘’a leitura’’não está à
venda e se encontra exposta no ‘’Museu do Prado’’. Achei seu argumento
definitivo e, através dele, construí a defesa de Miguel. Se, pelo nosso Código
Penal, o estelionato ocorre quando a vítima é ‘’induzida a erro’’, não houve induzimento e, se houve alguém que
quis ‘’obter vantagem indevida’’, foi
o fazendeiro, ao comprar por 150 mil uma tela, que valia 3 milhões. Na
audiência de interrogatório, Miguel deu um show de simpatia, inteligência e
cultura. Percebi que impressionara a juíza que, mesmo sem se convencer da
inocência dele, seria branda, na aplicação da pena. E o foi: condenou-o à pena
mínima – 01 ano -, convertida em prestação de serviços à comunidade,
consistente a, aos domingos, durante um ano, ensinar desenho aos adolescentes,
em uma favela de São Paulo. Comuniquei o resultado a Miguel, dizendo-lhe que
iria recorrer da sentença. Ele ficou eufórico com a decisão judicial, não quis
recorrer e já está organizando um grupo de jovens carentes, a quem, como diz, ‘’vou ensinar a navegar nas tintas de
Michelangelo’’. Adverti Miguel: ‘’agora,
você precisa parar com essas falsificações’’ e passei a lhe explicar as
conseqüências jurídicas da reincidência. Ele riu, com seu sorriso largo: -‘’agora, mais que nunca, preciso continuar.
Vou criar uma escola de arte gratuita para jovens favelados e quem vai pagar a
conta são esses milionários ignorantes, que querem obras de arte, apenas para
se exibirem para seus amigos.’’
‘’- A propósito: estou
pintando outra velha triste, igual aquela que você gostou, quando nos
conhecemos. Será um presente meu. Que pintor famoso você quer que eu assine?’’ Demos sonora gargalhada e eu
respondi: ‘’- assine, Miguel, o mestre!’’
quarta-feira, 3 de junho de 2015
‘’Reflexão para o dia de Corpus Christi’’
‘’Olhe para a face de
Jesus. Lá você verá como ele nos ama. Olhe estes olhos fechados e abaixados.
Olhe essas chagas. Olhe para a face de Jesus. Lá você verá como ele nos ama’’.
Essa evocação de Santa Terezinha (carta 87) merece especial
reflexão, no dia – amanhã, 5ª feira – quando celebraremos a solenidade do ‘’corpo e sangue de Cristo’’. Confesso
que, por razões que não posso precisar, toca-me, muito mais, a imagem do Cristo
crucificado do que os momentos de sua vida, suas parábolas e até seus milagres.
São momentos ‘’superiores’’, eu o
sei, mas seu corpo pregado no madeiro, para mim é pungente e é ali, no seu
rosto desfigurado, na sua dor, sua sede e até em sua angustia, sentindo-se
abandonado pelo Pai, que eu me silencio e entendo que aquele corpo dilacerado,
aquele sangue derramado deve nos tirar de nosso egoísmo, de nossa indiferença
ao sofrimento do próximo.
Que o rosto sofredor de Jesus nos ilumine em nosso caminhar,
ajudando-nos a carregar nossa cruz, pelas nossas culpas, ele que, apenas por nós,
carregou a dele.
Para encerrar esta reflexão, volto a invocar Santa Terezinha:
‘’Sim, a face de Jesus
é luminosa, mas, se a meio às feridas e às lagrimas ela já é tão bela, como não
será quando a virmos do céu?’’ (‘’Cartas’’, 95 a 105)
terça-feira, 2 de junho de 2015
Para falar em Neymar e Messi
Qual a diferença entre um jogador de futebol, considerado
‘’crack’’, no sentido apenas esportivo do termo e o jogador que, além de tudo
isto, é um homem de caráter e personalidade formados. Pois esta é a diferença
entre Messi e Neymar. O que fez o Argentino ser considerado o ‘’melhor do
mundo’’ (a meu modesto juízo, muito acima de Maradona) foi sua conduta
impecável dentro e fora de campo. A incrível habilidade com que cria espaços e
abre caminho em direção ao gol contrário, alia-se a seu comportamento
respeitoso para com adversários e torcedores. Não simula contusões, não dá
pontapés e entradas violentas e muito menos provoca brigas. Por outro lado,
mantém discreta vida particular, longe de holofotes e fofocas.
Neymar, por sua vez, é o reverso da medalha. Já sua
contratação pelo Barcelona, tornou-se negocio nebuloso, que está sendo
investigado por autoridades espanholas e brasileiras. Aceitou o papel de
co-adjuvante de Leonel Messi, mas, sempre que pode, revela sua fraca personalidade.
E isto ficou demonstrado no jogo contra o Atlético de Bilbao, pela ‘’Copa do
Rei’’. A partida já estava decidida – mais uma vez, graças ao engenho e arte de
Messi -, quando, aos 40 minutos do segundo tempo, Neymar tenta, com uma
‘’lambreta’’, fazer jogada de efeito, tripudiando sobre seus adversários. A
reação desses foi imediata e,não tivesse Neymar ‘’afinado’’, teria provocado
uma briga que, por certo, empanaria o brilho da vitoria do time catalão. Foi
duramente criticado pela imprensa espanhola e pelo próprio técnico do
Barcelona. Poder-se-ia justificar a conduta do brasileiro pela sua origem
humilde, sua precária educação, aliado ao fato de que, nestas plagas, tripudiar
sobre o adversário traz regozijo à galera. Coisa de País de terceiro mundo.
Todavia, ao que consta, Messi também é egresso de família de pouca condição sócio-econômica.
O fato de ter se transferido para a Espanha, aos 14 anos, talvez tenha lhe
proporcionado outra formação, como, por exemplo, entender que o adversário
merece e deve ser respeitado, principalmente, quando está sendo vencido. Vimos,
na trágica derrota de 7 a 1, para a Alemanha que, em nenhum momento, por
qualquer ação ou gesto, os alemães tripudiaram sobre nossa desventura.
Eu diria que Neymar ainda está a caminho da Europa e somente
chegará lá, quando aprender noções fundamentais de civilidade. Talvez uma
terapia ajuda a encurtar o caminho.
O futebol ao banco dos réus
O futebol que, por aqui, atingiu, nos gramados, nível de mediocridade
ímpar, demonstra que, fora das quatro linhas, vai de mal a pior, com o
envolvimento da CBF neste rumoroso escândalo internacional. Todavia, há alguns
detalhes que precisam ser esclarecidos. A CBF é entidade de direito privado,
que não recebe dinheiro publico e cujos dirigentes são eleitos pelos clubes e
pelas Federações, também entidades privadas. A CBF organizou a malfadava Copa
de 2014, supervisionada pela FIFA, mas não reformou, nem construiu os estádios,
onde os jogos foram realizados, o que ficou nas mãos do Governo Federal. E,
como em tudo o que o petismo coloca a mão se encontra maracutaia,
os bilhões despendidos em tais obras devem ser investigados pela Policia
Federal e Ministério Publico Federal. Leio na mídia que o Planalto já cogita
de, aproveitando o momento, intervir no futebol. Já imaginou se vier uma ‘’Futebrás’’, por aí, com Presidente,
Diretorias, gerencias etc? Em se confirmando os crimes, atribuídos aos atuais
dirigentes, são eles delitos comuns a qualquer delinquentes, tipificados no Código
Penal e na legislação que define os chamados ‘’crimes a tributários’’ (lavagem de dinheiro, ocultação de bens e
valores etc), aqueles de competência da Justiça Estadual, estes da Justiça
Federal. Neste jogo, o Poder Executivo não entra, a não ser como réu, quando se
apurar os empréstimos do BNDES e de outros órgãos afins, na construção das faraônicas
e inúteis ‘’arenas’’. Falar em
instalar uma ‘’CPI da CBF’’ é
excrescência do ponto de vista jurídico e inútil, do ponto de vista de apuração
de responsabilidades. Temos o exemplo da ‘’CPI
da Petrobrás'’, que caminha para a lata de lixo e que só serve de palanque político,
pois quem apurou tudo foi a Politica Federal e o Ministério Publico Federal.
Quando o legislativo se mete com o futebol, tudo desanda, a exemplo da
famigerada ‘’lei Pelé’’, que destruiu
os clubes, submetendo-os aos ‘’atravessadores’’.
Romário, que anuncia a criação da CPI, foi, sem dúvida, estrela maior de nosso
futebol, mas na verdade, quer tirar dividendos políticos do fato. O momento é
de os clubes se libertarem das regras obscuras que os impedem de manter
jogadores que formaram, nos quais investiram tempo e dinheiro, mas que
pertencem aos detentores dos tais ‘’direitos
econômicos’’. Deixemos o poder politico – executivo e legislativo – fora
das investigações, que o aparelho policial e o Ministério Público, de mãos
dadas, produzirão melhores resultados.
Agora, corrupção à parte, a intervenção norte-americana, na
base do ‘’prendo e arrebento’’, além
de representar invasão na soberania dos países, cujos membros da FIFA foram
presos, parece clara tentativa de ‘’colocar
as mãos’’, na única entidade internacional, onde aquele País não tem
qualquer influencia. Interessante observar que, pelo menos até agora, nenhum
empresário norte-americano, citado como corruptor, encontra-se preso. O futebol
já ingressa nos Estados Unidos, como um excelente negocio e, é claro, eles vão
querer, (como em tudo), ser ‘’o dono da
bola’’.
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