quinta-feira, 21 de maio de 2015

Comentários sobre o governo hermafrodita



Como sabemos, a Presidente Dilma, acuada pela sua incompetência administrativa e tentando salvar seu mandato, o que, a esta altura, de nada lhe vale, dividiu o governo em duas partes: a coordenação política transferiu-a para o vice, Michel Temer e a econômica, para o Ministro Joaquim Levy. Para ela, sobrou representar o governo em eventos e assinar acordos internacionais, sobre os quais ela, pessoalmente, não terá qualquer ingerência. Melhor assim. O Brasil vive em regime hermafrodita, meio presidencialista, meio parlamentarista. Como este é um País maluco, talvez a coisa funcione, principalmente com o PT fora do jogo, tentando se salvar do mar de lama, onde mergulhou. Temer é raposa felpuda, que forma com Eduardo Campos e Renan Calheiros, verdadeiro triunvirato, experiente, em negociação de cargos e vantagens, em troca de apoio político. Não adianta remar contra a maré, aqui as coisas sempre funcionaram na base do ‘’toma lá, dá cá’’. Vargas governou assim, Juscelino governou assim e Collor, por tentar mudar a regra do jogo, foi atropelado por uma Elba. Os analistas de plantão, que afirmavam que o ajuste fiscal não iria passar, na Câmara, quebraram a cara, apesar de toda a conta debitada aos trabalhadores. No Senado – apesar da aparente resistência – também vai passar, porque tudo é questão de acertar o preço, e no que o triunvirato acima é imbatível. Diziam que o novo candidato a Ministro do Supremo teria seu nome rejeitado. Erraram, mais uma vez e o homem – competentíssimo, diga-se, de passagem – foi aprovado ‘’cum laude’’. Está na hora de se entender que o governo Dilma acabou, tendo sido substituído pelo governo hermafrodita, acima referido. A esta altura, Eduardo Cunha e Renan Calheiros já foram excluídos da ‘’lava jato’’, que vive seu ‘’canto do cisne’’, correndo atrás de peixe miúdo e tudo continuará como sempre: a classe média, em todas as suas subdivisões, pagando a conta e os banqueiros enchendo, cada vez mais, o cofre. E quanto aos pobres, como ficarão? Ora, como sempre ficaram: morrendo, por falta de assistência médica; morando nas encostas dos morros lambidos, de tempo em tempo, pelas inundações; privados de educação digna; fumando crack, às vistas da policia e ajudando a aumentar as estatísticas de criminalidade, de sub empregos, até porque, em países subdesenvolvidos, como o nosso, pobre só serve mesmo para estatística. 

quarta-feira, 20 de maio de 2015

A respeito do Céu e do Inferno



Bateu uma vontade danada de falar da incongruência ideológica do governo petista (ou peemedebista, sei lá), que vai transferindo tudo que pode para a iniciativa privada, no afã de diminuir o rombo do Estado-Patrão. Até a Ponte Rio - Niterói foi de embrulho. Consta que Dª Dilma até mandou refazer o guarda-roupa, para receber o chinês bilionário que vem para comprar a América Latina. Se ele aceitar a Petrobrás, leva de brinde o Palácio da Alvorada para montar uma ‘’clínica de massagem’’, no que oriental é muito chegado. Mas vou conter o impulso. Meu irmão, ainda crédulo no lulismo, rompeu comigo. Exigiu que eu não mais lhe enviasse meus escritos. Atira-os ao lixo, sem os ler! Agora, meu sobrinho escreve-me para dizer que curte minhas ‘’mal traçadas’’, menos quando falo de política, porque aí, segundo ele, sou vexame completo. Então vou à cata de outro assunto que, na verdade, surgiu em minha cabeça, no domingo, após a missa, frequentador habitual que o sou. Não é que o Sacerdote, homem cultíssimo, professor de Teologia, comunicador de rara habilidade, em sua homilia (no meu tempo de criança dizia-se ‘’sermão’’) afirma que o céu não fica em nenhum lugar específico e é, na verdade, um estado de espírito? Fui para casa, preparei o uísque dominical, à espera do almoço e fiquei a pensar nas palavras do Sacerdote, que me honra com sua especial atenção. Lá no livro do ‘’Genesis’’ está dito que, no segundo dia ‘’Deus fez uma divisão que separou a água em duas partes: uma parte ficou do lado de baixo da divisão, e a outra parte ficou do lado de cima. Nessa divisão Deus pôs o nome de ‘’céu’’. Na ‘’Profissão de Fé’’, que rezamos logo após a homilia, diz-se que Cristo ‘’subiu ao céu’’. No último domingo, celebramos a ‘’ascensão do Senhor’’, isto é, a subida de Jesus ao céu, onde se sentou à direita de Deus. (Isto pra meu irmão e meu sobrinho verem que, nem no céu, a esquerda tem vez). No Evangelho de ontem, 19, ‘’Jesus falou, elevando os olhos ao céu’’. Confesso que, na minha ignorância teológica, só consigo ver o céu, como um ‘’lugar físico’’, acima de todas as galáxias, habitado por poucos privilegiados que passaram por esta vida, cheia de tentações e não sucumbiram  a nenhuma delas. Por outro lado, a crer nas palavras do meu querido Sacerdote, se o céu é apenas uma metáfora, por conclusão, o inferno, com seus caldeirões de água fervente, com o diabo a nos fustigar com seu tridente, também o é, vale dizer, não existe, como local físico, o que me fez respirar aliviado, reforçando a dose de uísque. Quanto mais velho vou ficando, maior meu temor de me apresentar ao juízo final. Sou contumaz infrator dos 10 mandamentos e quanto aos ‘’pecados capitais’’, prefiro não os recordar, tanto neles me atolei. Mas, se não existe, fisicamente, céu e inferno – e o purgatório, caminho transitório, árduo e espinhoso – como será nosso julgamento final? Preocupado com o respeito ao direito de defesa, preciso preparar a minha, que a hora não tarda. Se condenado – e só almejo receber pena menos pesada, porque da condenação sei que não me livrarei -, resta saber onde vou cumprir a pena.

terça-feira, 19 de maio de 2015

Por que não falar da morte?

Queixa-me amiga queridíssima de que tenho quase fixação pela morte e, sem justificativa plausível, mato meus personagens. Que culpa tenho eu, querida amiga, se ela, a morte, é nossa companheira inseparável? A vida não rende dividendos, não desperta interesse, não promove manifestações e nem mesmo vende notícia. Quantas crianças nasceram nos últimos dias e alguém falou delas? Ao contrario, o terremoto no Nepal, que produziu milhares de vítimas, continua sendo assunto, assim como o eterno conflito no Oriente Médio, os refugiados, que morrem no Mediterrâneo, etc, etc. Se você reza a ‘’Ave Maria’’, termina dizendo ‘’...rogai por nós, pecadores, agora e na hora de nossa morte...’’ Leia as revistas do último fim de semana: surgiu nova ‘’fortaleza do tráfico’’, no Rio, pessoas já morreram e muitas outras morrerão, no confronto, polícia x traficantes. Pessoas morrem vitimadas pela dengue, que já adquiriu natureza endêmica, no Brasil. Premio de fotografia foi concedido por importante organismo internacional, à foto de um homem, carregando uma criança morta, nos braços, no momento exato que um míssil israelense caiu em praia, na cidade de Gaza. Para não me estender, ‘’ad infinitum’’, conclamo você a dar uma espiada nos ‘’games’’, manipulados pelos jovens: quanto mais se mata, mais pontos são acumulados. O certo, minha cara, é que a vida, pela sua monotonia, não rende assunto e eu, escriba amador de menor grandeza, sigo a onda. Apenas procuro revestir a morte de alguma classe: matei a presidente, de infarto, à beira da piscina, após beber vinho de boa cepa; a mulher traída saltou da janela do apartamento, com vista para o Parque do Ibirapuera, o que não é pra qualquer um. O outro, entediado, pulou do ‘’ap’’, no Leblon. No escrito, onde você observou meu gosto pela morte, tive, no último momento, a preocupação de cobrir as pernas da falecida com um paletó.

Por último, procuro, através de meus escritos, estabelecer uma relação de cordialidade com a morte: que ela não se me faça anteceder de dores e maldades intermináveis, mas que me seja rápida, conduzindo-me em momento esfuziante, como, por exemplo, a comemorar um gol do Botafogo. 

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Uma quase noite e uma quase mulher


O vento frio do outono moribundo tornara ausentes os habituais andarilhos do parque, cuja pista ficara enlameada, pela chuva da véspera. Encolhidos, a um canto, guardas tomavam conta de nada, pois nem os pivetes, fumadores de maconha, que se reuniam, na antiga pista de boliche, apresentavam-se para o fumacê diário. A noite adiantara seu relógio. Bem diferente dos entardecerem veranicos, quando ele dava voltas, atribuindo notas às coxas torneadas, que passavam, em sentido contrário. Aos domingos, eram comuns as notas 10, tal era a profusão de coxas, que enfeitavam o parque, em constantes ir e vir. Mas, naquela sombria noite de outono, afora dois ou três transeuntes, o deserto de coxas era total, o que alargava, à exaustão, o trajeto a ser percorrido. Não fosse o desprazer de ficar em casa, quando o cheiro de tempero empesteava o ambiente, não fosse a necessidade de, pelo andar, digladiam-se com a diabetes, por certo ele estaria sentado, naquele bar de canto de rua, bebendo alguma coisa e falando mal do governo. Mas ali estava ele, andar pesado, orelhas cortadas pelo vento, dando voltas em torno do lago. De repente, na curva do portão principal, ela surgiu, conjunto colado ao corpo e rabo-de-cavalo, açoitando o espaço. Apenas sorriu para ele, o sorriso da cumplicidade dos solitários de uma noite, sem dono. Na segunda volta, quando se cruzaram – andavam em sentido contrario – ela diminuiu o passo, até parar a sua frente:
- ‘’O senhor se importaria de eu andar a seu lado? O parque está por demais vazio...’’
- ‘’É um prazer. Aliás, você, nem eu deveríamos estar aqui a esta hora!’’
- ‘’Você tem razão, mas a angústia bateu forte e eu não consegui ficar em casa, pensando no meu desalento, na minha incapacidade de lidar com a morte, essa inimiga profissional que me persegue, até me vencer!’’
Era, sem dúvida, um papo estranho, para uma quase fria noite de um quase inverno. Não que ele esperasse uma cantada. Batera os 60, quando se torna ser imperceptível, fantasma corpóreo que não desperta interesses e palpitações. Aliás, nunca despertara. Nem feio, nem bonito, nem triste, nem espirituoso. Como na Bíblia: ‘’porque és morno, eu te vomitarei de minha boca. ’’

Tivera, ao longo da vida, até algumas mulheres deslumbrantes, conquistadas com gestos e atitudes estudadas. Mas, logo elas se cansaram dele, de sua falsa cultura, de sua pose de que ‘’sou mais eu’’ e o foram deixando para traz, amargando a falta da mão, que não afaga, da boca, cujos lábios não se sugam. Vivia um casamento habitado pelo ressentimento, daí seu refúgio naquele parque, sempre monotonamente igual, como ele. Tentou sair de si e passear na angústia dela, no que ela chamava luta fracassada contra a morte. Chamava-se Carolina – ela, não a morte, que esta tem todos os nomes -, era médica, trabalhava ali perto, no Hospital do Câncer e sempre havia alguém morrendo, junto de si. Não, não se acostumara. Travestida de Deus, imaginava poder salvar a próxima vítima. Daí a angústia do fracasso. Pretensão – pensou ele – querer disputar com Deus, que é onisciente, onipresente e onipotente, como ensinava o ‘’primeiro catecismo da doutrina cristã’’, de sua distante e apagada infância. Ah, não acredita em Deus? Perde para ele, todos os dias e, mesmo assim, não acredita nele? Pensou em chamá-la de imbecil ou ignorante, mas preferiu dizer isto com o olhar. ‘’E você, acredita?’’ – perguntou ela. – ‘’É claro e tenho total temor reverencial. Se não acreditasse – e temesse – já teria me livrado desta vida, que nos cobra tudo, principalmente esta coisa volátil e indefinida, chamada felicidade’’. – ‘’Por que, você não é feliz?’’ – ‘’Deus me livre. A felicidade gera um compromisso constante, quase diário, de você ser coerente consigo mesmo, viver em harmonia consigo mesmo, ser virtuoso, olhar apenas o lado bom das coisas, não olhar, nem de soslaio, para a mulher do próximo, ter um hipócrita sorriso de beatitude nos lábios, enfim, ser um chato. E o tanto de inveja que o feliz atrai? Não, prefiro ter instantes, cada vez mais aros, de felicidade e, quando os tenho, procuro disfarçar, fazendo cara de quem comeu e não gostou.’’ – Ela sorriu mais largo: ‘’você é doido, assim ou está fazendo gênero?’’ – ‘’Nem uma coisa, nem outra. Estou vendo você pela primeira e única vez. Tenho pavor a médico. Olham pra gente, procurando, pelo menos, um sinal de doença e, além do mais, sempre me dão a impressão que tem as mãos e as roupas impregnadas de micróbios!’’ Ela riu, mais uma vez e tocou-lhe o ombro, o que o fez se afastar para o lado. – ‘’Você é homo?’’, perguntou ela. – ‘’É claro que não. Não sou corajoso para tanto, apenas perdi o hábito de contato físico, e não pretendo readquiri-lo’’. – Ela parou a sua frente, segurou-lhe as mãos, olhou-o nos olhos e disse: - ‘’pois saiba que você ainda é um homem interessante, com quem eu transaria.’’ Aquele ‘’ainda’’ doeu-lhe, como se tivesse pisado em caco-de-vidro. Como estava próximo a um dos portões, ele saiu em desabalada corrida, sem olhar para trás. Provavelmente se tratava de um desses fantasmas, que surgem em noites sombrias. 

sexta-feira, 15 de maio de 2015

O bar da galeria decadente e seus freqüentadores idem


O bar, quase deserto naquela noite chegante, situava-se no subsolo da galeria, ali no centro da cidade. Durante o dia, funcionava como restaurante que teimava em manter a classe e o charme dos anos 70, quando a galeria foi inaugurada. Hoje, era um quase fantasma, com suas lojas abandonadas, como, de resto, tudo o que havia de melhor, no centro. A livraria, de livros importados, a barbearia, onde mulher não entrava, a casa de queijos e vinhos finos, tudo isto desaparecera, substituídos por lanchonetes de odores suspeitos e freqüentadas, quando a madrugada batia à porta, por prostitutas ambulantes, fracassadas em seu fazer. Mas o restaurante do subsolo, tradicionalmente decorado, insistia em sobreviver, transformando-se, a partir do escurecer, em ponto de encontro de solteirões e descasados de 50 ou mais anos. Na entrada, um pianista, talvez resgatado do Titanic, tocava velhas canções, blues chorosos ou cançonetas francesas. Positivamente, não era lugar para mulheres, a não ser prostitutas, escolhidas, com esmero, pelo porteiro gentil, que conhecia os freqüentadores da casa. Era quase um clube privé, onde se falava de política e de negócios, sempre nebulosos. Luiz Claudio freqüentava aquele lugar, levado que foi quase 10 anos atrás, quando Maria Clara simplesmente disse-lhe, sem emoção: - ‘’acabou, Luiz Claudio, você virou passado. ’’ E saiu, arrastando a mesma mala que, cinco anos antes, trouxera para dentro do apartamento: - ‘’amor, não quero ser companhia apenas para seus dias de solidão. Vim para ficar. Resolve: desarrumo a mala ou vou embora para sempre?’’
Luiz Claudio abraçou-a, com incontida ternura, arrastou-a para cama e se amaram, doidamente. Com o tempo, a paixão esvaneceu-se, jantavam em silencio e passaram a se olhar apenas como conhecidos. Quando Maria Clara saiu, arrastando a mala, Luiz Claudio foi à janela e aspirou o perfume de jasmim, que exalava da cantoneira. Era o perfume da liberdade. Poucos dias depois, bateu solidão: os amigos, casados, não tinham tempo para ele. As mulheres, companheiras de noites doidivanas, ou ficaram velhas e amargas, ou tinham desaparecido, naquela cidade sem fim. Ficara, apenas, Henrique, seu amigo desde a faculdade, que o apresentara àquele bar. Encontraram-se, por acaso, no fórum, foram tomar um café, ali na Conde do Pinhal. Falaram do trabalho, da vida e ele, quase como desabafo, da partida de Maria Clara. – ‘’Tava na cara que não podia dar certo, Luiz Claudio. Até que durou muito. Você sempre foi obvio. Até abandonou nosso futebol, das quartas, à noite. Mulher gosta do clima de incerteza, duvidar, sentir-se traída, mesmo que não o seja. Você foi companheiro exaustivo, com horário certo para chegar em casa, sempre presente, não deu espaço para dúvidas, ressentimentos, e mulher, principalmente esposa, precisa ter dúvidas e ressentimentos em relação a ‘’seu’’ homem, precisa se sentir ameaçada, nesse sentimento de posse. Em resumo: você foi o homem ideal e a mulher odeia o homem ideal, porque, além de chato, a faz sentir inferior’’.

Luiz Claudio ria da filosofia de botequim de Henrique que se prolongou até o bar daquela decadente galeria. O tempo passara e ali estava exatamente ele, pensando em Henrique, que se matara, poucos meses atrás, atirando-se de seu apartamento, situado no 12º andar, quando ela chegou, sozinha, indo se sentar, ao lado do piano. Morena, quase 1,80m, vestia um sóbrio conjunto verde musgo. Não, não era prostituta à caça de cliente. Nem mesmo dirigiu seu olhar para os poucos homens, que conversavam, ruidosamente e muito menos para ele, no lado oposto. Ela pediu um uísque, cuja garrafa fora deixada sobre a mesa. E, baixinho, disse alguma coisa ao pianista, que começou a tocar ‘’Stardust’’. Meia hora depois, ela já quase esvaziara a garrafa de uísque e com voz rouca e sempre baixa, acompanhava o pianista, que tocava uma seqüência de musicas, pedidas por ela. Luiz Claudio até teve a intenção de sentar ao lado dela, puxar conversa... desistiu. Era obvio que ela vivia uma angustia, que não era divisível. De repente, ela pediu a conta, pagou e saiu, com passos embaralhados. Ainda não haviam passados 5 minutos, quando uma freada brusca e gritos engravidaram o bar. Luiz Claudio subiu, de dois em dois, os degraus que davam acesso à rua. Lá estava ela, atirada ao chão, ensangüentada, pernas abertas, expostas na avenida. Luiz Claudio atravessou a multidão, que se formava, tirou o paletó e cobriu as pernas desnecessárias. Afinal a morte merece ter compostura. 

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Será o FGTS dinheiro e direito do trabalhador?



Consta do noticiário que o imprevisível Presidente da Câmara Federal, Eduardo Cunha, vai apresentar projeto, para rever o índice de correção do FGTS, que, hoje, remunera menos do que a caderneta de poupança que, por sua vez, remunera menos do que a inflação. O FGTS foi criado no Governo Castelo Branco, pela dupla Roberto Campos e Gouveia de Bulhões (acusados, pela ‘’esquerda festiva’’ de ‘’americanófilos’’), com o objetivo de proteger o trabalhador, com menos de 10 anos de ‘’casa’’ e, até então, despedido com pífia indenização (um salario, por ano trabalho). O dinheiro, arrecadado com o FGTS é administrado pelo Governo Federal e, em tese, é utilizado para financiamento da casa própria e obras de infraestrutura urbana. Digo ‘’em tese’’, porque não se sabe ao certo, como esses recursos são administrados. Em passado recente, foram utilizados para financiar a Petrobrás e os trabalhadores – investidores amargam prejuízo de mais de 50% do valor investido, com a desvalorização das ações da companhia. Agora, anuncia-se que o BNDES vai avançar sobre 30 bilhões do Fundo, para saldar compromissos. E o trabalhador, o real dono do dinheiro, como fica? Simplesmente não fica, uma vez que o acesso a ‘’seu’’ dinheiro está adstrito a circunstâncias especialíssimas: despedida imotivada, compra da casa própria, doença grave. E tome uma remuneração de 0,2 por cento ao mês, que, progressivamente, vai corroendo o principal, enquanto as construtoras, que utilizam recursos do Fundo, nas obras, vendidas no mercado, auferem lucro, não inferior a 10% ao mês. O próprio trabalhador se quiser, por exemplo, comprar um carro, deverá se socorrer de financiamento bancário, cuja taxa nunca é inferior a 2% ao mês. Se o dinheiro do FGTS é do trabalhador, o lógico, no plano jurídico e moral, é que ele pudesse dispor livremente, de acordo com seus interesses e necessidades. Todavia, o governo – qualquer governo – parte da presunção que o trabalhador é um perdulário, que vai dissipar aqueles recursos, criando, posteriormente, um problema social, que recairá nas costas do governo. Consta que, atualmente, o FGTS acumula, em caixa, cerca de 300 bilhões, verdadeira fortuna para uma economia falida. Assim, se o projeto Eduardo Cunha ‘’não devolve o seu a seu dono’’, pelo menos diminui a corrosão do dinheiro do trabalhador. 

quarta-feira, 13 de maio de 2015

A Repressão às Manifestações de Rua


Uma das questões, que vem desafiando especialistas no assunto, diz respeito ao comportamento do aparelho policial nas manifestações de rua. Como reprimi-las, preservando o patrimônio publico e privado, de um lado e a integridade física dos manifestantes, de outro? Em 2013, houve, em nossa Capital, inúmeras manifestações, onde pessoas mascaradas depredaram fachadas de bancos, de estabelecimentos comerciais e atearam fogo em carros particulares, ônibus, inclusive. Naquela oportunidade a Polícia Militar foi acusada de leniente, porque, cumprindo ordens superiores, não reprimiu a ação dos vândalos. Há poucos dias atrás, professores, em greve, tentaram invadir o prédio da Secretaria Estadual de Educação e, impedidos, destruíram os vidros das janelas. No ultimo dia 29, em Curitiba, também professores tentaram derrubar as grades, que cercam a Assembleia Legislativa daquele Estado, para invadirem o prédio e impedirem a votação de projeto de lei que, em tese, os prejudicava. A Polícia Militar interveio, utilizando cachorros, bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha. O resultado foi 40 manifestantes e 20 policiais feridos.

O primeiro aspecto a considerar é o psicológico: o numero de manifestantes é sempre substancialmente superior ao número de policiais. Enquanto aqueles estão movidos pela violenta emoção, esses estão em estado de elevado estresse, porque, treinados para reprimir, como o fazer, dependerá da ação dos primeiros. Quando a manifestação é ordeira, tendo caráter meramente reivindicatório, quase nunca ocorre repressão policial. Estive na Avenida Paulista, em 25 de março, por onde circulou cerca de um milhão de pessoas e não presenciei um único ato de violência. Ao contrario, o que se via eram manifestantes fazendo ‘’selfies’’ com policiais. No caso de Curitiba, como a toda ação corresponde uma reação contraria que, nem sempre, é igual, houve feridos, de ambos os lados. O Brasil vive – e viverá – dias difíceis, com crescentes ondas de desemprego, o que, por certo, gerará diversificadas manifestações. Se forem essas organizadas por Sindicatos Laborais, seria altamente conveniente, como medida preventiva, que as respectivas lideranças combinassem com as autoridades policiais o local e a forma dessas manifestações, direito assegurado pela nossa Constituição, mas que não podem se transformar em balbúrdia. Dizer que a policia é despreparada, ao se confrontar com uma multidão ensandecida, é rotunda bobagem. Estabelecido o conflito, predominará quem tiver mais força e, infelizmente, vitimas surgirão de ambos os lados. É assim no Brasil, nos Estados Unidos, na Inglaterra, como a televisão, reiteradamente exibe. Prevenir, para não ser preciso remediar, eis o princípio a que o bom senso manda obedecer.