sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Eleições
Constato que hoje é 03 de outubro, data em que, noutros tempos, realizavam-se as eleições. Uma só, para todos os cargos, de vereador a presidente da República. Minha memória devolve-me à infância ou pré-adolescência, tão distantes que as confundo. Mas, o certo é que, ainda longínquas as urnas eletrônicas, os votos eram impressos em cédulas, com os nomes dos candidatos escolhidos, as quais eram inseridas em um envelope, enfiado, depois, em urnas de madeira. A contagem levava semanas, até a proclamação do resultado. A cena paterna, que precedia a hora da votação, era severa demonstração de “democracia”: meu pai, um dos caciques locais do velho PSD, entregava, aos filhos votantes, envelopes fechados já contendo os nomes dos candidatos, previamente escolhidos por ele. Duvido que alguém tenha tido a ousadia de quebrar-lhe a confiança, se bem que, de um canto da memória remota vejo uma irmã chorando, enquanto meu pai soltava fogos de artifício, comemorando a vitoria de Dutra sobre o Brigadeiro Eduardo Gomes. Se houve traição, era justificável: Dutra era baixinho, absurdamente feio e, ainda por cima, fanho. O Brigadeiro era solteiro e fazia o gênero galã de Hollywood, apesar de a oposição ter espalhado o boato que sua solteirice se devia ter perdido os “bagos”, na Revolta dos Tenentes.
Hoje, novos tempos, ouso apenas, superficialmente, perguntar em quem meus filhos vão votar. Nossos candidatos são diferentes e, quando há coincidência, os motivos são dispares: eu, por convicção, vou de Aécio; eles, tapando o nariz, mas com o único objetivo de nos livrar do PT, vão de Marina. Quanto a meus irmãos, desconheço-lhes a preferência, a não ser de um, lá do sul da Bahia, petista até a raiz do cabelo e que me acena com o exílio, caso Dilma ganhe.
Quanto à urna eletrônica, olho para ela, com dinossaurica desconfiança. Fico a me perguntar porque países tão mais evoluídos tecnicamente do que o Brasil, ainda se utilizam do método tradicional, como aconteceu, no mês passado, na Escócia. Noticiou-se que especialista norte-americano aqui esteve para conhecer o funcionamento de nossa maquininha. Olhou, mexeu, torceu o nariz e foi embora, julgando-a pouco confiável. E nossos “irmãos do norte” continuam votando pelo método tradicional. Em passado, não muito remoto, tentaram “garfar” uma eleição do Brizola. Como a engenhoca ainda era incipiente, descobriu-se a fraude e a vontade popular prevaleceu. E hoje, aperfeiçoado, para o bem e para o mal, o sistema, seria inviável a uma fraude imperceptível? Sei não, mas para quem quase quebra a Petrobras, desviando bilhões, só descobertos às custas de delação premiada, para esses tudo me parece possível.
Consola-me saber que “se Deus é por nós, quem será contra nós.”?

Arrepiado, escuto, como resposta, um grito monstruoso: “o PT”

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Os Santos do Mês de Outubro
Para quem comunga a fé cristã, o mês de outubro, que hoje se inaugura, marca a passagem, pela terra, de homens e mulheres, tão envoltos no amor ao próximo que foram elevados à categoria de santos. Alguns, abdicaram de suas riquezas materiais, de seus privilégios e optaram por seguir na barca de Jesus. Hoje, 1º, reverenciamos Santa Terezinha do Menino Jesus, nascida na França, onde faleceu com menos de 25 anos, vitima de tuberculose pulmonar. Mesmo gravemente enferma, não cessou seu trabalho a favor dos mais humildes, o que chamava “jogar a Jesus flores de pequenos sacrifícios”. No próximo dia 04, reverenciaremos a memória de São Francisco de Assis, verdadeiro arauto da perfeição evangélica, morto aos 44 anos de idade. De família abastada, aos 24 anos despojou-se de todos os seus bens, inclusive da roupa do corpo, passando a levar vida de absoluta pobreza e humildade, dividindo-se a servir aos doentes e pobres. Em 1939, o Papa Pio XII reconheceu-o, oficialmente, como “o mais italiano dos santos e o mais santo dos italianos”, passando a ser o padroeiro principal da Itália.
No dia 12 de outubro comemoraremos o dia da “Padroeira do Brasil”, Nossa Senhora Aparecida, cuja estátua, sem a cabeça, foi encontrada na rede de pescadores. Conta a história que, após encontrar a estátua, as redes, até então vazias, passaram a vir repletas de peixe.
As grandes efemérides religiosas do mês de outubro, encerram-se, no dia 28, com São Judas Tadeu, considerado o santo das causas impossíveis e cuja devoção leva milhares de pessoas a reverenciá-lo, em seu santuário, localizado ao final da Avenida Jabaquara.
Por último, mas não sem igual grandeza, no dia 15, reverenciamos Santa Tereza de Ávila, primeira doutora da Igreja; no dia 18, reverenciamos São Lucas, patrono dos médicos, ele que era um deles, autor do 3º Evangelho e dos “Atos dos Apóstolos”.  
Outubro é, pois, mês de abdicarmos, mesmo por breves momentos, de nossas necessidades e conquistas materiais e, mirando no exemplo desses homens, tornados santos por suas ações concretas, voltarmos nossos olhos para os desafortunados, por quem passamos, todos os dias e em todos os lugares, mas que nosso egoísmo não nos permite enxergar.


segunda-feira, 29 de setembro de 2014

A hora e a vez dos clubes de futebol

É fato incontestável que, de larga data, o futebol brasileiro vive forte crise de ausência de bons jogadores. Já nem mesmo falo de craques, como Pelé, Rivelino, Zico, Jairzinho ou outros do mesmo nível que, por si só, motivam-nos a ir aos estádios. Falo do jogador mediano, capaz de dar um passe de 20 metros, chutar e, pelo menos, acertar o gol, de fora da área. À exceção de dois ou três, nosso futebol é um deserto de talentos e qualquer “pé de breque”, por quase nada, é enaltecido pela mídia esportiva. Os estádios, agora pomposamente chamados de “arenas”, raramente recebem mais de 40 mil espectadores e isto apenas por ocasião de grandes clássicos. O futebol brasileiro sobrevive às custas da televisão que, segundo me disse um executivo da área, já não se interessa tanto assim, em razão dos baixos índices de audiência, que afastam patrocinadores de peso. Todos os clubes, sem exceção, vivem estado de penúria financeira, com salários atrasados, tributos não recolhidos e rendas penhoradas. Enquanto isto, qualquer “pé de breque” aufere remuneração nababesca. Toda esta crise surgiu a partir do momento em que se criaram os “direitos econômicos” sobre o jogador. Vários investidores, pessoas físicas ou jurídicas “compram” o jogador, ainda incipiente, e quando o mesmo ganha projeção, graças ao investimento nele feito exclusivamente pela agremiação, que lhe deu guarida, é ele negociado, principalmente para o exterior, ficando o clube com a menor parcela. Foi o que se deu, por exemplo, com Neymar, vendido ao Barcelona por valor até hoje não esclarecido, mas retendo o Santos não mais de 20% (vinte por cento) do valor da transação. Em boa hora, a FIFA está estudando proposta de Michel Platini, Presidente da UEFA, no sentido de proibir o envolvimento de “terceiros”, na compra e venda de jogadores, acabando, assim, com os famigerados “direitos econômicos”. O atleta poderá, a suas expensas, contratar um procurador, para representá-lo em suas negociações com seu clube, mas a este e somente a este pertencerá a renda auferida com a venda do atleta. É o começo da recuperação das entidades esportivas, com a FIFA exercendo seu legitimo direito de representação.

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

A Desilusão Petista
Pelo menos por enquanto, não mais pretendia falar em eleições, principalmente com Aécio, em definitivo, fora do jogo. Mergulharemos na certeza de mais quatro anos de incompetência e incúria administrativa ou em águas perigosamente desconhecidas. Se 2014 já nos apresenta um preocupante quadro de recessão econômica, as perspectivas para 2015 não são melhores, principalmente com a evolução da crise islâmica. Mas, afinal, a democracia, com o falso pressuposto de igualdade entre os cidadãos, nivela todos os eleitores, os mais esclarecidos aos semi-analfabetos, os conscientes dos problemas nacionais aos que permutam o voto por um par de sapatos ou uma cesta básica.

Mas o que –ainda- me irrita, na propaganda eleitoral é assistir aos lideres do PT, inclusive o ex-presidente Lula, aparecerem no vídeo, recomendando os candidatos do PT “que sempre estiveram ao lado do povo.” E isto é dito com a maior desfaçatez, como se o “mensalão" não tivesse existido, como se “os dólares na cueca” não tivessem existido, como se os bilhões, sangrados da Petrobrás, não tivessem existido. Na verdade, quem conta a história de um partido político, seus sucessos e insucessos, são seus líderes. Aos mais velhos, recordo a UDN de Bilac Pinto, Aliomar Baleeiros, Carlos Lacerda, Gabriel Passos, Afonso Arinos, homens que colocaram seus ideais a serviço da pátria e de quem nunca se ouviu uma fímbria de deslize moral. E quanto ao PT? Surgiu, lá nos anos 80, no seio do operariado, com a promessa de implantar a justiça social, meio termo entre o liberalismo daquela UDN e o comunismo, extirpado pelo Movimento de 1964. Alçado ao Poder, quando se imaginava ter chegado um “novo tempo”, o povo, em todos os seus segmentos, viu repetir o velho hábito de se apossar do Poder como coisa própria, locupletando-se às custas do patrimônio público. Hoje, os principais líderes-fundadores do PT, José Dirceu, José Genoíno, Delúbio Soares estão presos na “Papuda” e, quando a “caixa preta” da Petrobrás for aberta, outros petistas ilustres seguirão o mesmo caminho. E muitos outros mistérios ainda estão por ser desvendados, como o enriquecimento do próprio Lula e de seu filho que, em passe de mágica, passou de funcionário do zoológico a mega empresário, no ramo de informática. Mais do que recursos públicos, o PT roubou a esperança de um Brasil mais justo e isto, somente isto, já lhes tira o direito de pedir votos para seus candidatos.  

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Por falar em reforma política
Todos os candidatos à Presidência da República têm dado ênfase à necessidade de se promover uma reforme política, sem, no entanto, explicitar como operará tal reforma. É o que vou tentar fazer, em apertada síntese. Para começo de conversa, impõe-se a extinção do sistema bicameral, o que trará substancial economia de pessoal, instalação e, o mais importante, trará significativa aceleração do processo legislativo. Não há nenhum constitucionalista de peso que, de forma categórica, afirme ser o sistema bicameral da essência do federalismo. O argumento usado de que o Senado representa o Estado, enquanto unidade federativa e a Câmara dos Deputados representa o povo, constitui inquestionável falácia. Em primeiro lugar, não há como distinguir o povo da unidade federativa, onde reside. Não seria exagero afirmar que o Estado, como ente administrativo, é verdadeira ficção, já que a população, como agrupamento social, reside nos municípios. Em segundo lugar, se os deputados representassem o povo, esse poderia votar em qualquer candidato, sendo irrelevante seu domicilio eleitoral. Ora, se morando no Estado de São Paulo, somente posso votar em candidato deste Estado, por obvio, ele, se eleito, vai representar nosso Estado e apenas este, daí sua perfeita identidade de representação com o Senador.
O atual sistema bicameral, além do absurdo desperdício de recurso, retarda, sobremaneira, o andamento do projeto legislativo. Apenas um pálido exemplo dessa assertiva: o projeto de lei do “novo” Código Civil deu entrada no Congresso em 1973 e somente entrou em vigor em 2003, vale dizer, durante 30 anos percorreu caminhos tortuosos e, quando finalmente veio à luz, já necessitava de inúmeras cirurgias plásticas, para que mantivesse um mínimo de modernidade. A verdade, que salta aos olhos até dos observadores menos atentos, é que a função do Senado perdeu sua razão de ser. Nos dias atuais, um projeto de lei, antes de ir a plenário para votação, passa, pelo menos, pelo crivo de 03 comissões: a comissão, a qual o assunto está relacionado; a comissão de Constituição e Justiça, que examinará de sua legalidade e à Comissão de Orçamento, que verificará do comprometimento de verba pública. Além do mais, se o projeto tiver relevância social ou econômica, terá sido amplamente debatido pela mídia e pelos órgãos de classe interessados em sua aprovação ou rejeição. Com todo esse vasto quadro de analise e estudo, parece-nos – para dizer pouco – exagero submetê-lo a uma revisão, repisando o andamento já percorrido.
Outro aspecto fundamental é a redução do numero de partidos políticos. Impensável uma democracia funcionar com cerca de 40 partidos políticos, sem linha programática definida, ao que parece com o único objetivo de usufruir das benesses financeiras do “fundo partidário”. Impõe-se a extinção ou fusão, de modo que restem, no máximo, 05, onde o eleitor irá buscar maior identidade ideológica e onde os candidatos a cargo eletivo passariam por triagem mais apurada.

Não tenho a ilusão que seja fácil viabilizar tais reformas, até porque ninguém aceita reforma “cortando a própria carne”, principalmente políticos, a viverem de privilégios – quase sempre indecorosos – acumulados ao largo de vida pública, construída às custas de negociações e negociatas.  

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Do Racismo ao Homossexualismo
Quando se debate esta questão do racismo, nos campos de futebol, deve-se evitar os radicalismos que sempre revestem tais debates de passionalismo. É largamente sabido que, no Brasil, o grande preconceito é o social. Como dizia o filosofo Pelé “lugar que preto não entra, branco pobre também não entra.” A convivência inter-racial, em nosso País, sempre se deu de forma harmônica, principalmente no esporte, onde nossos maiores ídolos foram negros, a exemplo de Leônidas da Silva, Ademar Ferreira, sem falar em Pelé. Por isso, a atitude de “Aranha”, goleiro do Santos, veio colocar lenha em uma fogueira que, verdadeiramente, até então nunca tinha ardido. Goleiro de medianas qualidades, pretende ele se transformar em “mártir” ou símbolo de nova causa, que jamais empolgou o torcedor brasileiro, o que pode se transformar em autentico “tiro no pé”, vez que vai surgir um antagonismo que nunca houve. O mesmo se diz em relação à homofobia. O São Paulo sempre foi acoimado de time de “bamby” e tal epíteto jamais provocou guerra. Lá jogou um homossexual assumido, sempre tratado com respeito por torcedores e colegas de profissão. Agora querem institucionalizar o preconceito, criando torcidas “gays” e outras bobagens do gênero. Vai se revolver o que adormece em paz. Não sei não, mas tudo isso me parece movimento orquestrado para alguém –como é de hábito- tirar algum tipo de vantagem.


sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Pequena História de Perdição

Os primeiros raios de sol alcançaram Luiz Claudio caminhando pela praia, ainda deserta. Duas horas seriam suficientes para que a orgia de barracas, ambulantes, crianças e adultos, gordos, magros, atléticos, marcasse o inicio de mais um sábado de verão. Ao contrario de seus amigos de beira mar, não nutria qualquer preconceito em relação à praia de fim-de-semana. Como dizia o Paulo “era a apoteose do caos”. Mas não se importava. Ficava, a uma certa distancia, como espectador de uma feira mística, observando os “brancões” a se lambuzarem de óleo; as crianças a espargirem areia nos corpos deitados, afora um ballet melancólico de estrias e barrigas debruçadas sobre calções e biquínis gastos. Podia ser, “esteticamente patético”, como dizia o Guto, do alto de sua viadice, mas para, ele, Luiz Claudio, aquele era o povo de quem extraía o apêndice e a vesícula, nos hospitais, onde trabalhava. Nascera e crescera, no outro lado do calçadão, em um imenso apartamento, de cuja varanda assistia, extasiado, às ressacas de março. O pai, empreiteiro da época de ouro, Brasília nascendo, o País transformado em apetitoso “canteiro de obras”, jamais entendera sua opção pelos pobres. À principio, preocupou-se, achando que seu filho estava virando “comunista”, a lepra da época. Depois viu Luiz Claudio voltado para a vida normal: praia, mulheres e total apatia política. O velho morreu, Luiz Claudio já formado, deixando imensa fortuna e um sócio, que todos sabiam envolvido em grandes corrupções. “Meu jovem”, dizia-lhe ele, “fora da corrupção o País não se salva. Ela é a propulsora do progresso.” Luiz Claudio, filho único e a mãe venderam a parte da família, na Construtora e aplicavam o dinheiro. A mãe, dez plásticas depois, foi viajar, como ela dizia, citando Proust, “em busca do tempo perdido.” Luiz Claudio abdicou da idéia de montar consultório. Gostava da medicina, apenas pelos mistérios da cirurgia, mas sem paixão. Fez concurso para hospital público, onde trabalhava 20 horas por semana. Um dia, naquela mesma praia, num sábado suburbano, como aquele, conheceu Maria Clara, morena, linda e... suburbana. Professora em um Colégio da Tijuca, morava no Andaraí, local que Luiz Claudio conhecia, apenas por ouvir dizer. Antítese das mulheres de seu mundo. “Um bicho-do-mato, Cacá, é comer e largar”, repetia=lhe, o inconformado André. Mas, Maria Clara era a paz, a meio daquela loucura de Ipanema. Pela primeira vez – e ele já chegara aos 50 – Luiz Claudio sentiu o real significado da palavra amor, mais, paixão, vontade de estar, todos os momentos, com Maria Clara, ouvir sua voz suave, beijá-la, com ternura, acariciá-la, passando a ponta dos dedos em sua pele macia. Falavam-se, todos os dias, por telefone e, para evitar os amigos dele, passaram a freqüentar, nos finais de semana, a praia do Leme. A decisão fora tomada no sábado à noite, quando a deixou em casa. Encontrou a mãe, já de robe, pronta para dormir. – “mãe, amanhã quero que a senhora conheça a mulher com quem vou me casar.” Dª Maria Francisca, apanhada absolutamente desprevenida, largou o copo d’água que segurava e se jogou na poltrona. Ainda ofegante quis saber quem era a fulana, onde morava, a que família pertencia e nenhuma das respostas a agradou. Que não permitiria a uma suburbana qualquer entrar em sua família; que ele, Luiz Claudio, era perfeito idiota por não perceber que estava sendo vítima de um golpe vulgar; que ela não iria conhecer mulher alguma, sem nome, pobre e, ainda por cima, morando no Andaraí; que, se ele quisesse casar “com algum tipinho desclassificado”, que fosse longe das vistas dela e que nunca mais a procurasse; ele não mais teria mãe e ela não teria mais filho. E, batendo a porta, com fúria, entrou em sua suíte. Luiz Claudio escutou a mãe, sem dizer uma palavra. Depois que ela saiu, sentou-se na poltrona, que trazia o mar para dentro da sala e ficou olhando as estrelas, que enfeitavam a noite. Desde a morte do pai, sua mãe fora seu alfa e seu ômega. E, agora, tinha de escolher entre ela e Maria Clara. Amava, com intensidade, as duas. A quem magoar? Dormiu ali mesmo, pensamentos perdidos e se assustou com a manhã chegante. Trocou a roupa amassada por um short e saiu em direção à praia. Caminhar, vagarosamente, chutando a espuma das ondas que se desmanchavam a seus pés, sempre fora lenitivo para suas agruras e lhe aclarava as idéias confusas, como a que o atormentava, naquele momento: enfrentar a mãe, correndo o risco certo de perdê-la ou abrir mão de Maria Clara, que surgira como sua única razão de viver. Subiu na pedra do Arpoador e ficou olhando as gaivotas, mergulhando nas águas, em busca de alimento. Sentiu que, tinha perdido a batalha em busca da felicidade. Desceu da pedra, entrou no mar e nadou compassadamente, tendo, como ponto de referencia, as “Cagarras”, conjunto de ilhas, que ficava, longe, a sua frente. Não pensava em nada, apenas seguiu, mar adentro. Sentindo-se definitivamente cansado, boiou sobre as águas, voltando-se para a praia, agora distante. Com muito esforço, localizou seu prédio e o contemplou, pela ultima vez. Maria Clara o esperou, inutilmente, na praia da Barra; sua mãe esperou-o, inutilmente, para o tradicional almoço de domingo.